terça-feira, 21 de março de 2017

XI - Contos no Conto.

          Francisca já nada tinha da indiazinha que um dia saiu de sua aldeia com o coração partido por deixar os seus, mas que no fundo acreditava que os brancos tinham alguma coisa de superior... uma sabedoria poderosa que de certa forma poderia mudar tudo a sua volta. Achava que aquela raça era ligada aos deuses e que assim sendo, era digna da mais profunda submissão. Agora, seu coração já acumulava a desconfiança e até um certo desprezo pelos brancos. A lembrança de tudo o que havia acontecido com Bento Vaz e com o pai da Galega a perseguia e por vezes era atormentada por pesadelos alucinantes onde via-se penetrada por uma jararaca que lhe mordia as entranhas inoculando no seu interior um veneno ardente como fogo. Despertava apavorada e se agarrava com Francisco buscando no seu calor ameno o alívio para seu desespero. Quando Francisco tocava com as mãos espalmadas, as suas mãos, um frêmito de felicidade a percorria, e o amor que então acontecia assemelhava-se ao desabrochar das flores, ao despencar da cascata, ao amanhecer de um dia de sol.
      
                                           Pausa para explicar.
          Quando menina, mamãe me dizia que eu não deixasse os meninos pisarem na pontinha do meu pé porque era feio e era “saliência”.  Também não podiam tocar ou fazer cosquinhas com o dedo, nas palmas das minhas mãos. Isso era pecado e uma grande “bobiça”. O engraçado é que os meninos realmente costumavam fazer essas coisas, e mesmo quando viemos para o Rio de Janeiro, lembro que também havia esse hábito.
          Lá em Minas, quando o menino pisava a ponta do pé de uma menina, estava pedindo para namorá-la e beijá-la; quando fazia cosquinhas na palma da mão, estava pedindo “aquilo” que “uma mocinha não pode fazer. Só os casados.”
E isso acendia o imaginário feminino infantil. Só de pensar em receber uma dessas “carícias”, já  ficávamos com “fogo no rabo” e meio que provocávamos os meninos. E quando acontecia, ah, Jesus !!!  A sensação era indescritível !
          Claro que não passávamos da “pisadinha” e da “cosquinha” com medo do chão se abrir e o Capeta em pessoa vir nos buscar para o Inferno, mas que causava arrepios e desejos, lá isso causava. E éramos crianças, imagine !
          Lendo sobre os índios do Brasil, verifiquei que em algumas tribos guaranis e  tupinambás a zona erógena pode variar não estando nos órgãos sexuais ou próxima a eles. Em algumas tribos, os pés são os provocadores de excitação sexual, em outras são as mãos. Interessante porque, na tribo de Capora e de Cornéis, as mãos tinham o papel de proporcionar a libido. O ato sexual era sempre iniciado pelo encontro das mãos do casal juntas e espalmadas sobre a cabeça, de onde eram arriadas lentamente até estarem ao longo do corpo quando ainda unidas,  eram introduzidas entre os dois para só então serem separadas e serem erguidas ainda entre os dois corpos, passando pelo sexo, subindo pelo peito e alcançando o pescoço, quando já então o casal  estava tomado pelo desejo, pelo prazer e era só  emoção.
          A minha mãe contava, que ouviu de sua avó, Francisca (cristã), Capora (a india puri) ,que por conta disso, as mulheres da tribo, gostavam de excitar os valentes, manuseando as mandiocas com maliciosos movimentos. Também faziam bolas de massa de mandioca com demorado capricho, simulando carícias. Ao se alimentarem com as mãos, também movimentavam os dedos na comida, e levavam o alimento à boca com gestos sugestivos que aguçavam os desejos dos homens. Nesses momentos lançavam olhares prometedores e comprometedores, torcendo para que o passeio de Guaraci pelo céu fosse muito breve, e rogando a Tupã que Jaci trouxesse uma luz mágica e terna vibrando energia sobre os casais.
          As mãos eram tabu, e não se cumprimentava com elas pois se um rapaz tocasse as mãos de uma virgem, e se isso fosse presenciado por um ancião, já era considerado um compromisso. O cumprimento na aldeia se resumia em tocar a própria testa com a ponta dos dedos da mão esquerda, e levar essa mesma mão em seguida para tocar o próprio ombro direito. Esses gestos significavam “eu te respeito” e “sou teu amigo”. A cuia com mel era servida em seguida como boas vindas ou para testemunhar a alegria da amizade sempre renovada a cada dia.
          Não sei os costumes nas outras tribos de Puris, mas na tribo de Capora e Cornéis, o valente podia ter mais de uma mulher, mas  não podia repudiar a nenhuma durante toda sua vida, e tinha que suprir a quantas tivesse, do necessário para sobreviver, além de cuidar dos filhos até que as meninas se unissem a um parceiro, e os meninos se tornassem valentes.
          As mãos eram consideradas instrumentos sagrados dos deuses para prepararem o corpo da mulher que receberia a semente de um novo ser. Este novo ser viria para abrigar o espírito de um antepassado,  e o respeito que se tinha pelo ato sexual, originava esse quase ritual preliminar.
          Claro que o prazer era considerado porque não se foge dele, mas a responsabilidade vinha em primeiro lugar. O amor entre um valente e uma índia tinha como principal finalidade gerar vida.

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          Não só com os pesadelos Capora voltava ao passado. As vezes ao cantar alguma canção de sua tribo, ao mirar as águas do Rio Manhuaçu, ao cruzar com alguma pessoa que lhe lembrasse alguém...
         Foi através de um mascate que veio pedir emprego a Samir, que ela ficou sabendo de tudo o que aconteceu com a família de Bento Vaz. Marinalva morrera levando no ventre a criança que esperava. Bento Vaz enlouquecera e vivia preso num quartinho no sótão de uma casa que tinha comprado pouco antes da morte da mulher. O pai de  Marinalva  também tinha morrido em conseqüências misteriosas. Tinha sido  encontrado com marcas, como se tivesse sido atacado por alguma fera mas as mordidas que tinha pelo corpo, pareciam humanas. Ninguém entendeu.
A mercearia ia melhor do que nunca, administrada pela Sra. Perciliana que se revelara uma ótima negociante. A nova rica, vestida com roupas caras, vivia pra cima e pra baixo numa charrete elegante, sempre acompanhada de seu ajudante. Diziam as más línguas que tarde da noite, o rapaz deixava o quartinho atrás do comércio, entrava sorrateiramente na casa grande, para dormir aconchegado entre lençóis cheirosos, nos braços da patroa. Isso diziam as más línguas...
          Dona Perciliana só não internava Bento Vaz num hospício, por causa de Rashid. Numa esperteza sem tamanho, Bento, quando ainda em gozo de suas faculdades mentais, deu a Rashid um documento, passando para o mesmo todos os seus bens caso lhe acontecesse alguma coisa.. Era um documento legal do qual todos tinham conhecimento. Ele dizia que era para garantir seu patrimônio, e em caso de sua falta um dia, seria a forma de agradecimento por todo o bem que o amigo de seu pai lhe fizera.
          Acontecendo então o desvario do comerciante, Rashid exigiu que ele fosse muito bem cuidado pela sogra, sob pena de caso isso não acontecesse, ter que abandonar a casa e o comércio, deixando por conta dele a administração e o cuidado do doente. Dos males, o menor.  Bento comia, bebia, dormia e era acompanhado pelo médico da cidade. Rashid também prometeu a Perciliana a posse total dos bens quando seu protegido morresse. Essa promessa animava Perciliana.

                                                                A Partida de Marinalva.
          Nhanderuvuçu adormeceu Capora e levou seu espírito para conhecer os detalhes de tão cruel desfecho. Foi assim:
Francisca deitou-se para dormir depois de falar com seus deuses. Havia pensado em Marinalva quando no céu passou uma “rasga mortalha” com seu grito fúnebre, logo no comecinho da noite.. Já sabia que a Galega tinha partido para a morada de seus deuses, mas nem imaginava como isso tinha acontecido. Pensou com tristeza em tudo que presenciou na casa de Bento Vaz e parecia-lhe ver os olhos azuis de Marinalva a flutuar no espaço. Lembrou da risada bonita da menina quando estavam no banho de cachoeira ou quando apostavam corrida para ver quem mergulhava primeiro. Lembrou do corpo branquinho feito mandioca descascada, dos cabelos avermelhados caindo em cachos pelas costas, das mãos de dedos longos e nervosos. Dormiu na saudade daquela amizade que durara tão pouco tempo. Seu espirito então saiu do corpo e voou por sobre rios, vilas e matas, indo parar na porta da casa onde no passado vivera com Marinalva e seu marido Bento Vaz. A escada com 3 degraus que dava acesso à sala, parecia ter vida. A roseira que lançava seus galhos subindo pelo madeirame, exibia rosas vermelhas brilhantes e cheirosas. Parecia estar amanhecendo e o orvalho estava presente tornando o verde do capinzal que rodeava o caminho, mais intenso e rutilante. De repente a porta se abre e eis que surge Marinalva com a barriga enorme, magra e vacilante. Parecia estar muito doente. Mesmo cambaleando seguiu pelo caminho de terra e sem oihar para trás, embrenhou-se mata a dentro rumo ao rio. Capora seguiu atrás chamando pela Galega que parecia não vê-la. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, Capora seguiu a moça preocupada. Pelo tamanho da barriga, o tempo do parto estava próximo e ela não deveria afastar-se tanto de casa.
          Na beira do rio, Marinalva se sentou, colocou os pés dentro da água e ficou ali  parada olhando o nada. De seus olhos azuis, grossos pingos caiam indo piriricando com as águas que corriam indiferentes. A índia queria perguntar o que estava acontecendo mas já percebera que a menina não a via ou ouvia. Assim ficou Marinalva por um bom tempo, olhando o nada e chorando. De repente deu um sorriso, ficou em pé, despiu-se e entrou no rio. A índia estremeceu ! Todos sabem que ninguém deve entrar nas águas de um rio no meio da mata, sozinho. Quantas vezes tinha  falado isso para a Galega. Agora, se alguma coisa acontecesse, quem poderia ajudá-la ?
          Pesada por causa da barriga, Nalva foi caminhando pelo raso, brincava com a água trazendo as mãos em concha bem cheias e despejando sobre a barriga.Molhava o rosto sardento, olhando os raios de sol que vinham enfeitar a correnteza com um brilho prateado. Um passo, outro... uma pequena braçada e Capora viu quando o braço da Iara saiu da água e abraçou Marinalva pelo pescoço. Olhou horrorizada as águas se fechando sobre a menina, e correu, ou voou até lá.  Mergulhou ansiosa para tentar puxá-la, mas tudo o que viu sob aquele mar, foram dois grandes olhos negros, vivos, expressivos, estáticos. Olhos de morte :os olhos da Iara !
          O soluço de Capora assustou os pássaros que se calaram. A graúna respondeu pouco depois com um canto longo e triste. Nada mais... Nada mais ali. Só os raios do sol furando a vegetação e mergulhando no rio.

                                                      A Doideira de Bento Vaz
          Ainda não estava refeita do susto quando se viu em mata fechada. As árvores altas escureciam tudo, e a vegetação rasteira enroscava-se em seus pés. De repente ouviu um grito. Correu naquela direção e de repente viu-se na frente de Bento Vaz. Não havia sorriso nos seus lábios e seus olhos tinham um brilho estranho. Chamava por  Marinalva  e a procurava por detrás das árvores e  por entre os arbustos.Usava a capa comprida que costumava vestir à noite quando voltava da mercearia para casa. A capa que servia para encobrir suas porcariadas, e suas maldades com a inocente esposa. Abria a capa como se ela fosse as asas de um demônio como Jurupari e parecia que ia voar. A índia escondeu-se, achando que ele pudesse vê-la, mas o que aconteceu a seguir foi o horror dos horrores.
          Deslizando silenciosamente entre as árvores, uma enorme jibóia se aproximava. Seus olhos faiscavam cada vez que encontrava uma réstia de luz. Ameaçadora e terrível a cobra começou a subir numa árvore e lentamente foi ganhando o seu topo. O corpo dela assemelhava-se ao tronco da árvore, e de longe era impossível definir onde ela estava.
          Embaixo, o homem continuava sua busca, ora dizendo palavras carinhosas, ora fazendo ameaças absurdas à sua mulher, porém não a encontrava. Em determinado momento, ele colocou-se bem embaixo da árvore onde a jibóia estava. Capora, de seu esconderijo, tremia de medo, não da cobra, mas do homem. Temia que ele a encontrasse e mais ainda, que ele encontrasse Marinalva fraca e indefesa. Olhou à sua volta para ver se havia alguma coisa que pudesse usar como arma, e então o grito de horror invadiu a mata. Dependurada na árvore, presa pela cauda, a jibóia arriara meio corpo e envolvera Bento Vaz em seus anéis. O homem gritava enquanto se esforçava para se soltar. Seus olhos saltavam das órbitas, e a capa parecia as asas de um morcego. As mãos estavam presas ao longo do corpo e ele só conseguia se remexer como um verme, sem no  entanto conseguir se soltar. A cobra revirou-se, trouxe o homem para o centro do seu corpo e de seus anéis, e veio com sua cabeçorra em direção à cabeça do desesperado rapaz. Capora fechou os olhos. Cobriu o rosto com as mãos. Não ouviu mais gritos. Acabou-se ! Abriu lentamente os olhos e o que viu foi horripilante: a cara de jibóia de frente com o rosto de Bento. Os olhos traiçoeiros fitavam os olhos aterrorizados do homem, enquanto a língua bifurcada explorava o medo dele. Ele já não gritava. Só os olhos parecia que iam saltar da face e não havia mais reação nenhuma dele. Foi aí que a jibóia o soltou. Estava suspenso a uma certa altura do chão, caiu portanto causando um ruído oco, e ali ficou. Olhar fixo na cobra que foi se transformando num caboclinho de cabelos vermelhos, com os pés virados para trás. O Caipora !!!  A mata encobriu seu protetor que em três saltos e uma gargalhada sumiu, deixando o grande Bento a dizer coisas sem nexo, rir e chorar ao mesmo tempo. Completamente desvairado.

                                                               O Velho e a Morte.
          Nem bem se recobrara da surpresa, já a índia estava em outro local. Era um lugar muito bonito, com um rio encachoeirado límpido como um céu de verão. A vegetação da beira era muito florida e borboletas voavam colorindo o lugar com suas asas multicores. Capora subiu numa árvore para melhor apreciar aquele maravilhoso cenário. Recostou-se num galho  pois uma brisa suave convidava ao silêncio para se ouvir a voz da mata.
          Ainda no impacto da beleza, Capora viu o pai da Galega chegar trazendo pela mão uma indiazinha ainda pequena. A menina lutava para se soltar, mas ele a segurava com firmeza enquanto ria alucinadamente. A menina já tinha pequeninos seios e seu corpinho franzino começava a tomar forma. De dentro do coração da índia brotou um frio que lhe percorreu o corpo até chegar aos cabelos. Viu o Velho alisar os cabelos da inocente e deixar as mãos imundas descerem até as ancas. Foi aí que deu-se o inesperado: ouviu-se um rugido feroz e aquele pequeno ser agigantou-se na agilidade. Parecia ter muitos braços, muitas pernas... Os cabelos voavam de um lado para o outro enquanto as unhas iam rasgando roupas e carne. O sangue escorria dos ferimentos. A boquinha pequena arrancava pedaços de carne que ela cuspia para o lado, voltando a morder em outro lugar. Em pouco tempo, pouco restava da roupa do Velho asqueroso, e ele já não lutava e nem gritava mais. Ai, a pequena índia num salto alcançou a árvore onde Capora estava. Era a própria visão de um demônio com olhos amarelos e a  boca ensangüentada.Dali a indiazinha pulou para a outra árvore e já não era uma menina, mas uma enorme pintada de ancas luzidias e patas ligeiras. Foi num relance mata à dentro, urrando para o silencio. Só Capora, assustada ficou ali estática, sem conseguir mover um músculo do corpo e tremendo de medo da onça voltar. De repente, sentiu a árvore se balançar e sacudir. Quando começou a cair, viu-se do lado de Francisco que a chamava com carinho. Nhanderuvuçu havia libertado seu espírito, depois de lhe contar os segredos da mata. Agora ela sabia tudo o que havia acontecido e tinha a certeza de que a natureza fizera justiça.
          Tudo tem seus fundamentos, suas razões e seus mistérios. Capora pensou no passado. Não podia mais se dizer uma puri, mas também não era uma branca, porém agora sabia que seus deuses não a haviam abandonado.
          Confirmava-se seu pensamento: os brancos tinham o poder de mudar vidas sim. A sua mudara, a de Francisco mudara. Os brancos só não sabiam que o poder da natureza era maior que o deles.
        




domingo, 30 de outubro de 2016

X - Tempo, tempo... Senhor das alegrias e das tristezas.

          No tempo certo Latifah deu à luz. Uma linda menina veio para aumentar ainda mais a união do casal. Nasceu em casa. Não deu tempo para que Latifah fôsse para o consultório do Dr. Jorge, e nem deu tempo para chamá-lo.
          Assim que chegou na casa da patroa pela manhã Francisca escutou seu grito. Correu para o quarto e lá chegando, viu a mulher de pé, a camisola suspensa, e ao seu redor uma enorme poça de água. A patroa segurava a camisola e ao mesmo tempo segurava a barriga como se pudesse deter a criança que forçava a própria saída.
          Francisca tirou as colchas da cama deixando só o lençol e ali deitou Latifah que havia agarrado seu pescoço e tinha os olhos arregalados quase saltando. O único som que emitia era um gemido contido e seus lábios tremiam como se tivesse febre.
          As palavras calmas da amiga, foram fazendo o efeito de tranquilizar a parturiente que soltou o pescoço dela e se deitou totalmente na cama posicionando-se como a natureza intui. 
          Naquele momento em que as contrações diminuiram, Francisca correu a por água no fogo, trazer toalhas e lençóis limpos e a chamar a criada da casa para ajudá-la. Na volta ao quarto, percebeu que a criança estava prestes a nascer, preparou-se portanto para apará-la. Ajudou Latifah a se levantar e a se posicionar junto à cama. Colocou as mãos da patroa sobre o madeirame que formava um desenho esférico nos pés da cama, mandou que ela abrisse as pernas e entre elas, no chão, colocou dois lençóis limpos e dobrados, mandou então que ela se agachasse e fizesse força quando a dor viesse.
          Nova contração, muita força de Latifah e a menina nasceu nas mãos de Francisca que prontamente a trouxe para si, ainda presa ao cordão e à placenta. Não foi preciso dar palmada, bastou que sua boquinha fosse limpa pelo dedo hábil de Francisca e ela já gritava e esperneava.
          A essa altura, Samir, alertado pelos outros criados, entrava casa à dentro feito louco. Tão alterado estava que errou a porta do quarto entrando na cozinha, no banheiro, e só parou quando foi contido pelo Dr. Jorge que estava chegando também chamado pelos empregados da casa. Entraram os dois no quarto mas já sabiam que a criança tinha nascido. Só um surdo não ouviria aquele berreiro !
          Ao doutor coube cortar o cordão e fazer as limpezas necessárias no bebê, entregando-a a Francisca para dar-lhe o primeiro banho e vestí-la. Foi então cuidar de Latifah que pedia para ver o bebê mas estava enfraquecida e tonta, ainda de pé, agarrada na cama. 
          Depois de tudo preparado e cuidado, a menina foi trazida para o casal que já estava abraçadinho, ela deitada, ele na beirada da cama, curvado sobre a mulher fazendo carinho no seu rosto. 
          De nada adiantou ter dado banho e vestido a recém nascida. A nova mãezinha tirou toda a roupinha dela e conferiu cada pedacinho, dando gritinhos de alegria como se estivesse descobrindo um tesouro precioso na harmonia daquele corpinho tão frágil e tão maravilhoso.
          Samir quando conseguiu pegar a filha no colo não sabia o que fazer. Desajeitado precisou da ajuda de Francisca para andar com ela pra lá e prá cá. Emitia sons inteligíveis e ria feliz. Balançava a bebê nos braços vigorosos como se ela fosse uma florzinha recém colhida. Falava em seu idioma coisas maravilhosas que seu coração ditava, e beijava um por um, os dedinhos róseos da filhinha. A ternura do pai era tão evidente que Francisca viu-se de repente chorando por entender que cada um é bom a seu modo. Cada um ama da maneira que sabe.  Pensou em Manega e sentiu um desejo enorme de abraçá-la, sentiu uma saudade muito grande de Chico, seu homem, que sabia tocar suas mãos fazendo com que todo seu ser estremecesse em ansiedade.
          Samira seria o nome da menina. Samira quer dizer vigorosa, cheia de vida, e aquela bebezinha era assim. Não parava um minuto, ria e chorava com muita facilidade. Alimentava-se bem e desenvolvia-se plenamente. Com pouco tempo de vida já era linda e meiga. Todos gostavam dela e ela não dava trabalho nenhum.
          Desde que Samira nasceu, Manega começou a acompanhar Francisca para a casa de Latifah e tornaram-se companheiras inseparáveis. Os primeiros passos de Samira, foram incentivados por Manega que tinha pressa em vê-la andando para acompanhá-la em suas traquinagens e a pequerrucha já aos nove meses dava os primeiros passos e não demorou a estar correndo pela casa e quintal. Dava gosto vê-las juntas.
          Latifah deu à luz a mais dois filhos homens, gêmeos, Zayn e Valtair. Aí sim, a casa ficou cheia de crianças. 
          Todos os adultos trabalhando, a fazenda Hana produzindo, Latifah abriu uma pequena venda onde se distraía durante o dia com Samir, enquanto Francisca cuidava da casa como uma governanta. 
          Em Francisca e seu marido não havia ambição. Ganhavam o suficiente para viver e cuidar de Manega. Chico amava a enteada como se fosse filha dele, e quando alguém reparava na diferença de cor ele brincava dizendo que tinha pintado a filha quando ela nasceu. As pessoas naquele tempo sabiam respeitar um homem e portanto, não se falava mais no assunto. 
          As horas viravam dias, os dias semanas, as semanas meses e os meses viravam anos. 
          A tranquilidade às vezes dava sustos na forma de pequenos prejuízos, de algumas doencinhas, algumas traquinagens mais sérias, algumas cenas de ciúme... Coisas do cotidiano.
          A cidade crescia. Novas pessoas vinham fazer parte do dia a dia... Tudo na normalidade.
          Chica e Chico, agora acostumados com a vida dos brancos, quase não lembravam mais da aldeia. Repetiam os costumes pelo hábito. Um desses costumes era usar as mãos para se alimentar. Não se livraram dele porque achavam muito cômodo e tornavam o alimento mais gostoso. Chico não dormia na cama de jeito nenhum, só na esteira e Chica dormia com ele, deixando a cama do único quarto para Manega que continuava crescendo e era linda demais.
          Uma professora foi contratada para alfabetizar os filhos de Latifah e ela fez questão que Manega recebesse as mesmas instruções dadas aos seus filhos. Com isso, Manega aos 10 anos portanto, começou a ler e escrever, e como tudo que fazia, muito bem. Antes disso não tinha estudado pois seus pais não viam valor nisso. Não pensavam no futuro. Não conseguiam pensar. De alguma forma, dentro de suas cabeças os pensamentos eram primitivos ainda.
Dependiam totalmente de Samir e Latifah, embora trabalhassem para receber salário, mas não entendiam que aquilo um dia podia se acabar.
          Quando não estavam trabalhando, ou quando Latifah e Samir iam passar dias na fazenda, Chico e Chica ficavam em casa sem ter pra onde ir. Foram um dia convidados por uma vizinha a ir no Centro Espírita Caboclo Ubirajara que ficava bem perto, nas margens do Rio Manhuaçu. Ficaram curiosos com o fato do "Pai de Santo" ser um negro, cujo nome era Ekon, descendente de escravos, que tinha o poder de incorporar os deuses africanos que se pareciam com os deuses indígenas. Sentiram saudades dos rituais da aldeia e resolveram ir para ver como era essa tal de "macumba".
          O "Pai de Santo", conhecido como Benjamim era um negro bonito, dentes muito alvos, sorriso aberto e um olhar profundo. 
          A macumba tinha alguma semelhança com as festas das aldeias puris. O batuque era avassalador e remetia a mente ao sobrenatural. Provocava visões e convulsões torturantes, e quase sem sentir o casal Chico e Chica se viram tomados pela magia daquele lugar, e com pouco tempo já estavam entrosados com os "filhos" da casa.
        Chico sentiu-se bem batendo tambor, mas Chica, rapidamente 
fez roupas para os orixás e começou a incorporá-los com a segurança de uma "feita".
          A cachaça servida durante todo o ritual, facilitava o fanatismo, e embora, bebida com limites pelo casal puri, era o que dava aos dois a euforia que os assistentes precisavam para acreditar e buscar ajuda com os espíritos que ali passavam. 
          Chica "recebia" um espírito de "preta velha" conhecido como vovó Catarina que "resolvia" qualquer problema, conhecia chás de erva para todas as doenças (curava até a tísica),e rezava "quebranto", "espinhela caída", "risipela", "mau olhado", "aguamento", "mijacão" e tudo que se possa imaginar.
          Manega acompanhava os pais e gostava de entrar na roda para saudar os orixás. Usando as saias e as blusas que Chica fazia para ela, a mocinha se sentia feliz de participar dos rituais do terreiro.
          Benjamim, quando incorporava o Caboclo Ubirajara, sempre queria Manega do seu lado "cambonando". Ela acendia o charuto, ela oferecia a cachaça, ela acompanhava as consultas, e quando o orixá ia "subir" lá estava Manega para amparar Benjamim no rodopio que a entidade provocava.
          Continuavam trabalhando com os libaneses, mas agora tinham um outro interesse. Eram adeptos da Umbanda e frequentavam um terreiro. A macumba acontecia sempre nos finais de semana e assim não atrapalhava o trabalho dos dois, e para Latifah, era uma segurança muito grande ter em casa pessoas com aqueles poderes. Lembrava sempre que fora uma entidade incorporada em Capora que a fizera engravidar. Chegou até a ir no terreiro, mas como era muito dengosa, não aguentava uma noite inteira acordada, por isso só ia nas festas de vez em quando.
          Quando Manega completou 12 anos, "Pai Benjamim" disse que os orixás pediam que ela fosse iniciada nos segredos da religião. Precisava "deitar para o santo" e ser "catulada". Era uma obrigação que ficava muito cara mas Samir se prontificou a pagar o que fôsse preciso. Latifah estava exultante com a possibilidade de ter uma "sacerdotiza" da umbanda tão próximo a ela.
          Foram feitos os preparativos e Manega foi recolhida para "fazer a cabeça". Filha de Oxum com Xangô esteve 21 dias reclusa no terreiro para cumprir as obrigações e conhecer os "fundamentos" de seus orixás. Após esse tempo, em meio a uma grande festa no centro, Manega foi recebida no terreiro pronta para exercer funções mais importantes e esperar o tempo necessário para ser também uma "mãe de santo".
          A nova "iniciada" tinha prazer de estar no terreiro. Vivia mais na "casa de santo" cuidando dos orixás e fazendo caridade. Seguia Benjamim aonde ele fôsse. Para atender fazendeiros em outras cidades, para arriar obrigações nos mais diversos lugares, para atender doentes em casa...
           Rapidamente entendeu que a "caridade" de Benjamim sempre tinha um preço. Cobrava caro por seus trabalhos e para convencer as pessoas usava de inúmeros meios, inclusive enganando. Mas a essa altura não adiantava nada saber que Benjamim era um charlatão pois Manega já estava grávida.
          
          

          

terça-feira, 11 de outubro de 2016

IX - Memórias.

Bela casinha, agarradinha,
lá na ladeira, bem simplezinha.
Quem é a bela,
que mora nela ?
Vovó Chiquinha !

O oratório, na sala limpinha,
um grande banco, uma janelinha.
Muitos retratos dependurados,
mesa e cadeiras, bem arrumados.
Quem vive nela, tão bonitinha ?
Vovó Chiquinha !

Dentro do quarto, arrumadinha,
a cama com colcha esticadinha.
Colcha de retalhos, de diversas cores,
com bichos, rabiscos, detalhes de flores.
quem dorme nela, sempre à noitinha ?
Vovó Chiquinha !

Na cama um terço de alvas continhas,
uma cadeira, uma santinha.
Velho guarda roupa, de madeira escura,
uma bem antiga, máquina de costura.
Quem costura nela, cantando modinhas ?
Vovó Chiquinha !

No chão do terreiro, terra batidinha,
e um galinheiro, com gordas galinhas.
Uma arvorezinha, de sombra gostosa,
não lembro a fruta. Era saborosa !
Quem nele à tarde, fica sentadinha ?
Vovó Chiquinha !

E deste quintal, que sempre à noitinha,
eu ouço o sino dar seis baladinhas.
A esteira do canto é então retirada,
no chão do terreiro é desenrolada.
Deitada na esteira, com quem é que fico ?
Com Padrinho Chico !

Na minha saudade, eu cismo sozinha,
lembrando em prantos, da bela casinha.
Casinha de amores, bem simplesinha,
lá na ladeira, agarradinha.
Quem é a bela, que mora nela ?
Vovó Chiquinha !!!

                                                                        02.06.2003


VIII - Transformações.

          A gravidez de Latifah fez um grande alvoroço na Fazenda Hana. Até no galinheiro ela foi para contar pra Pardinha (sua franguinha de estimação) que estava esperando bebê. "Vê Pardinho, Samir fez bebê aqui e mamã quase morta  felicidade. Você muito novinho, não sabe dessas coisa ainda, mas dia desse o Fanfarron (Fanfarrão era o galo do quintal)  vai te pegar e ó, você também vai ser mamã !!! "
         A alegria era geral e todos ficavam curiosos pra ver a barriguinha crescer. Samir ria o tempo todo.      " Eu vai ser papai ! Uma homem precisa ter filhas para deixar seu  herança, se não, pra que ter dinheirra ?"  E ria, ria, balançando a barriga e as bochechas numa felicidade indescritível, e beijava as mãos de Chica agradecendo como se ela fôsse a "milagreira".
          Os dias iam passando e Latifah já sentia as primeiras reações da gestação. Não podia nem sentir cheiro de comida que danava a vomitar, e era uma correria geral. Todo mundo queria acudir ao mesmo tempo e terminava que se atrapalhavam mais que ajudavam. Só Chica tinha a calma comum às mulheres puris. Queimava ervas numa latinha e colocava próximo da patroa para que a fumaça aromática acalmasse o enjôo. Pegava um pedaço de rapadura botava no fogo pra dissolver e quando o melado estava no ponto, juntava o leite fresquinho e deixava ferver, depois esfriava a bebida do mesmo jeito que fazia na aldeia quando um irmão estava enfraquecido. Usando duas canecas, passava a bebida de uma para a outra sucessivamente até estar morna, para então oferecer a patroa aquele leite caramelado que estimulava e alimentava.
          Comida mesmo não parava no estômago de Latifah e ela começou a emagrecer. Com pouco tempo de gravidez, ela estava tão magrinha e com olheiras tão profundas que a alegria geral foi se transformando em preocupação. Samir não tinha coragem de deixá-la só pois ela tinha adquirido um aspecto tão frágil que parecia uma boneca de porcelana.
         O que fazer para resolver aquela situação ? Mesmo com as mezinhas de Chica o estado da futura mãezinha piorava dia após dia. Samir então resolveu levar a mulher ao médico na cidade mais próxima que era Manhuaçu. Quando não podia ir a São Paulo, ele costumava ir lá para comprar tecido e sal, e era lá que abastecia os mascates, seus empregados, que visitavam as fazendas dos arredores vendendo toda sorte de mercadoria.
           Em Manhuaçu  ele tinha diversas propriedades alugadas e isto aumentava bastante sua renda pois eram casas boas e bem situadas que nunca ficavam sem inquilinos. Também nessa cidade Samir tinha adquirido um pequeno hotel que tinha o nome de Grande Hotel, e só os hóspedes permanentes já garantiam o pagamento dos funcionários e algum lucro que era depositado no banco da cidade em nome de Latifah.
          Em Manhuaçu morava e clinicava o Dr. Jorge, um excelente profissional na opinião dos moradores da cidade. E foi ele quem examinou a mulher e após dizer a Samir que tudo aquilo era normal na gravidez prescreveu alguns remédios que foram imediatamente encomendados na botica. Ele também deu algumas orientações e aconselhou a que ela continuasse com os remedinhos caseiros de Chica e que procurasse comer alguma coisa bem forte todos os dias. Os enjôos iam melhorar e ela provavelmente ia voltar a ganhar peso e se sentir melhor.
          Aquela noite dormiram no hotel pois os remédios só ficariam prontos no dia seguinte, e logo cedinho Samir acordou a mulher: "Latifah, Samir vai no botica buscar as remédio. Enquanto isso, toma sua café e se apronta que nós volta ainda cedo pra fazenda, sim minha docinha ?"  Cheia de sono, ela balançou a cabeça concordando e ele então saiu.
          Quando Samir voltou entrou todo animado no quarto e quase morreu de susto quando viu a esposa caída no chão ainda de camisola. Ficou enlouquecido gritando feito uma criança. Acordou os hóspedes que estavam ainda dormindo e os que já estavam acordados correram pro quarto do casal. Ele chorava sem parar chamando a esposa e um engraxate que trabalhava na porta do hotel, menino muito esperto e prestativo, foi correndo chamar o Dr. Jorge. Em pouco tempo o médico chegava e usando sais aromáticos conseguiu que a mulher despertasse.
          Novamente ele a examinou e explicou para o desconsolado marido que a esposa estava bem. Tinha sido um desmaio talvez consequência da fraqueza, mas o quadro geral dela era bom, e que aquilo tudo ia passar tão logo ela começasse a tomar os remédios.
          Depois que todos se foram, mais calmo, ele se sentou do lado da mulher e disse que tinha tomado uma decisão muito importante: não voltariam pra fazenda até o neném nascer. Não se sentiria tranquilo longe do Dr. Jorge, que tinha em seu consultório acomodações onde Marinalva poderia dar a luz com tranquilidade e bem assistida. O resguardo ela passaria no hotel ou em uma das casas de propriedade deles. Em tudo poderia se dar um jeito. Voltar para a fazenda naquele momento estava fora de questão.
          Latifah não queria ficar na cidade mas também tinha medo de morrer ou perder seu filhinho antes de nascer. Ela sabia que seria um período difícil e lá na fazenda eles estavam longe de tudo.                 Concordava em ficar na cidade, mas Samir teria que trazer Chico, Chica e Manega. Sem Chica ela não ficava não, e Chica só viria se o marido e a filha viessem. Então era assim que tinha que ser.
          Samir despachou seu carroceiro de volta com a ordem de Chica seu marido e a filha virem pra Manhuaçu imediatamente. Mandou que seu empregado falasse que Latifah precisava de Chica pois só confiava nela. Autorizou o empregado a contar todo o acontecido e explicar os riscos que a patroa correria, caso tivesse que ficar longe dos recursos.
          Quando o carroceiro chegou na fazenda sem os patrões, todos se apavoraram com medo de que o pior tivesse acontecido. Ninguém tinha coragem de perguntar.  Chica já chorava desesperada antes que o homem falasse qualquer coisa. Quando ele explicou as ordens do patrão, Chica foi com o marido para o quintal, e como já era noite e Manega dormisse, sentaram-se bem distante pra conversar e decidir o que fazer sem incomodar a ninguém.
           Deviam muito ao casal amigo, mas amavam a fazenda. Ela não tinha coragem de pedir a Chico que fosse com ela pra cidade, mas sabia que tinha que ir ou não seria digna da amizade que a patroa lhe devotava. Sabia que seria muito difícil para o marido deixar aquele lugar por isso propôs ir com Manega e ele ficar, ela viria vê-lo toda semana, e assim que a criança nascesse ela voltaria e não sairia mais do lado dele.
         Chico escutava atentamente as palavras da mulher olhando fixamente para seu rosto, vendo o brilho da lua faiscar no negrume daqueles olhos tão queridos. " Eu vai com ocê minha muié. Ocê é meu chão, meu rio, minha mata virge. Ocê é tudo pra mim. Eu nunca qui ia podê vivê sem oiá teus óio, sem senti seu chêro. Onde tu tivé, eu tô tamém."
          Suas mãos se uniram e entrelaçando os dedos se juntaram num abraço forte e dolorido. Marido e mulher, uma só criatura. Não falavam de amor pois não conheciam a palavra, mas eram o próprio amor real, palpável. Assim ficaram um bom tempo, um bebendo a presença do outro até que o galo começou a cantar anunciando a madrugada. Era hora de acordar Manega, juntar as tralhas, subir na carroça e seguir pra cidade.
          Chico ainda deu uma olhada nas criações, passou orientações aos outros empregados enquanto Chica chamava Palmira, uma das melhores serviçais da casa para ficar no seu lugar e cuidar de tudo direitinho.
          Tudo pronto, partiram. Manega estava radiante. Tinha já tres aninhos e continuava serelepe como ela só. Qualquer novidade era motivo pra pular feito uma perereca doida e repetia sem parar: "cidade, cidade !"
          Enquanto a carroça seguia pela estrada de barro, as árvores sacudiam suas folhas, os pássaros cantavam a melodia da matinada e os bichos barulhavam por dentro da mata como em despedida.
          Chico sacudia a mão em adeus e lágrimas corriam do seu rosto. Parecia ouvir na voz do vento a sentença final: "Adeus Cornéis, aqui ocê num vorta mais !"
          Com as mãos, Chica secou aquelas lágrimas e trouxe a cabeça de Chico para sem ombro, e acariciando o rosto do seu homem começou a cantar as cantigas dos puris na sua lingua natal. O coração dele foi se acalmando e ele pensou: " Meu chão tá aqui cumigo."
          Quando Latifah viu a amiga, chorou muito. Ficaram no quarto conversando, Manega saltando na cama e pedindo comida enquanto os homens conversavam no salão do hotel.
          Ficou decidido que Altair, irmão de Samir viria de São Paulo para cuidar da fazenda, traria a esposa que cuidaria da casa. Ele e Chico iriam de quinze em quinze dias ver como estavam as coisas e correndo tudo bem, depois que o bebê nascesse e desmamasse, voltariam todos. Por hora, o casal Latifah e Samir iriam ocupar um casarão de propriedade deles que ficava na Vila Roseiral, e que por um feliz acaso, estava desocupado naquele momento. A familia de Chico ficaria com eles morando na casa.
          Chico não aceitou essa proposta. Tinha se acostumado a ficar no seu cantinho lá na fazenda. Gostava de ter o tempinho para estar sozinho com sua mulher e pediu a Samir que adquirisse uma casinha para ele e Chica ficarem. Uma casinha modesta que ele procuraria pagar com seu trabalho. Só isso.
          Chica concordou com o marido. Já tinha recebido muito dele para exigir que ele abrisse mão de sua única vontade para mais uma vez concordar com ela.
          Foi adquirida uma casinha no Morro da Petrina (uma velha mestiça, filha de um caixeiro viajante grego chamado Pietro com uma mulata conhecida como Loló. Eles possuiam algumas casinhas simples, espalhadas pelo morro que os dois cercaram e defenderam com unhas e dentes por ocasião da ocupação da cidade) com uma semana mais ou menos as duas familias estavam instaladas, deixando portanto o hotel.
          A casinha simples era formada de quatro cômodos com um grande quintal nos fundos e um pequeno na entrada. Junto a porta da sala, do lado de fora, havia um banco de madeira, fixo no chão, e um projeto de jardim que nunca foi pra frente porque não havia cerca, o solo era muito seco e Manega pisava qualquer coisa que se tentasse plantar, já que não parava quieta. Nos fundos porém, Chico armou um belo galinheiro e uma boa horta onde plantou as mudas que trouxera da fazenda.
Um pé de mamão, uma goiabeira e um pé de graviola já existiam no quintal e logo logo, a menina já trepava neles caçando frutas.
          Latifah todos os dias recebia sua amiga e Chica cuidava da patroazinha com todo carinho. O serviço da casa ficava por conta das empregadas novas, a ela cabia só fazer companhia a Latifah, ajudar a preparar o enxoval do bebê e fazer as comidinhas que a patroa gostava. De tardezinha Chica voltava para sua casinha onde seu homem e sua filha a esperavam. Ai, todos os dias, sentavam no banco e ficavam espiando a torre da igreja, conversando e cantando enquanto Manega brincava de pique ou de roda com as amiguinhas.
          Chico continuou trabalhando com Samir na organização dos mascates e no controle do hotel, mas não quis mais voltar na fazenda. Recebia seu saláriozinho e estava tranquilo e quase feliz com seu chão.
          Chica também ganhava seu dinheirinho e cuidava de sua filha com muito carinho. A menina vivia cheia de mimos e era linda demais, porém, não se sabe porque, Francisca não engravidou mais.
E o tempo caminhava ajeitando tudo nos lugares e transformando a saudade em calma.



segunda-feira, 10 de outubro de 2016

VII -O tempo cura as antigas, mas faz novas feridas.

          Maria Líbia crescia feliz na Fazenda Hana. Vivia enfiada no pomar com a boquinha suja de manga e de calças compridas feito um molequinho porque não tinha modos e mesmo pequenina já tentava subir nas árvores menores. Corria o tempo todo atrás da criançada, filhos de outros colonos para que pegassem frutas para ela, e todos lhe faziam as vontades.
          Logo após o nascimento da menina, as pessoas estranharam a cor da criança. Como podia, filha de índios, ter aquela cor e aqueles cabelos tão claros ? Estranharam mas ninguém perguntou e nem a tratavam diferente por essa razão.
          Latifah algumas vezes quis indagar de Francisca mas desistia sempre por medo de ofender a moça a quem ela queria tão bem. Sentia que Maria Líbia não era filha de Francisco, mas sua imaginação lhe trazia à memória as histórias que os índios contavam de que os deuses às vezes visitavam a terra com a forma humana. Ficava confusa. Sua alma romântica outras vezes, criava uma história de amor impossível cujo fruto brincava ali no seu quintal, mas fosse como fosse, amava muito aquela menina. Muito mesmo !
          No meio das outras crianças Maria se destacava por ser dona de um sorriso cativante. Gostava de cantar as cantigas de sua mãe, e imitava os bichos da fazenda provocando gargalhadas e muitas palmas que sempre agradecia como se fosse uma artista de verdade, igual aquela do circo que passara por aquelas bandas e que deixara saudades.
           Francisca só a chamava de Maria, porém Francisco pegou uma mania de chamá-la de Nega que não tinha jeito. Era Nega pra lá, Nega pra cá, para desagrado da mãe que sempre reclamava: "O nome dela é Maria, homi."
          Ele até "tentou" mudar o costume e começava a chamar " Ma..." não lembrava o resto e completava: " Nega". Tanto tentou, tanto fingiu que não acertava, que o apelido pegou: Ma...Nega. (Manega)
         Samir e Latifah adoravam o apelido e não perdiam a oportunidade de repetí-lo as vezes até sem motivo nenhum. " O menino Manega é muito esperta " dizia Samir dando risadas.
         Aquela criança enchia a casa de vida e Latifah tinha se tornado mais animada, parecendo uma criança, depois que Manega nasceu.
          Francisco e Francisca também terminaram se rendendo aos apelidos Chico e Chica pois afinal não tinham mais seus nomes de origem, e assim, tanto fazia. Qualquer nome "tava munto bão".
           Chica lidava na casa da fazenda com uma facilidade muito grande. Cuidava dos quartos e fazia a comida para os colonos. Catava no quintal o que fosse preciso usar porque a horta era farta e criação não faltava.
          Era asseada e cuidadosa agradando a todos que comiam na casa da fazenda, e não atrasava jamais com seu serviço.
          Chico trabalhava com tudo e por ter a confiança do patrão, andava pelas lavouras de café, orientando os trabalhadores, verificando a situação da plantação atento a qualquer praga e cuidando para que as doenças não se alastrassem. Além disso, inspecionava os cuidados com as criações da fazenda, atento à tudo, cuidando pessoalmente dos partos e da ordenha para que nada fosse desperdiçado.
          Sempre que Samir estava disposto, dispensava Chico, e ia êle mesmo cuidar de tudo para não perder o "prazer". Era nesses dias que Chico acariciava o rosto da mulher, dava um abraço apertado em Manega e se embrenhava mata à dentro. Chica já sabia que ele só voltaria à noitinha e chegaria como quem esteve longe por muito tempo, e a quem a saudade já estivesse machucando. Aí ela estaria na rede esperando, com os cabelos soltos, o corpo cheirando a ervas e as mãos preparadas para alisar aquela cabeça. Sim, a cabeça, pois desde que saíra da aldeia Puri, Chico nunca mais deixou o cabelo crescer. Usava-o quase raspado e não deixava aumentar de tamanho. Estava sempre de navalha na mão raspando as penungens que queriam aparecer.
          Chico, quando ganhava a mata, arrancava a roupa, tirava as botinas, botava tudo nos galhos de uma árvore e engrenava uma corrida louca se enfiando cada vez mais no meio da vegetação. Ia para o rio que banhava toda aquela região. Buscava sua parte mais deserta e mergulhava nu em pelo, recordando-se do seu tempo de valente quando era parte da natureza. Procurava alguma caça para levar pra sua amada e nesse ambiente, corria, bebia água, assava alguns lambaris que pescava, descansava deitado na beira do rio ouvindo o canto dos passarinhos e o barulho do vento. Brincava com os raios do sol furando as sombras da mata e cantava cantigas para os deuses.
          No final da tarde, quando Guaraci se despedia dos humanos e ia ao encontro de Jaci, Cornéis mais uma vez mergulhava nas águas e do fundo mirava o resto de luz que se deitava na maciez da água, e então subia. Recolhia uma flor bonita, catava algumas contas bonitas, a caça que pegara e iniciava a volta com o coração leve. Ao chegar na árvore pegava suas roupas, calçava as botinas e por último botava o chapéu. Só então Chico pisava no terreiro de casa e ia ao encontro de seu verdadeiro chão: o corpo de sua mulher...
          Na terra que lhe foi cedida por Samir, Chico plantara mandioca e com ela preparava cauim que costumava beber com a mulher e os patrões. Por causa de suas crenças, Chico e Chica quando estavam embriagados, costumavam ficar como que em transe, e como Samir e Latifah já tinham tido contato com a religião dos negros, eram muito crédulos,  acreditavam que o casal estava possuído por algum tipo de entidade e durante essas sessões, faziam pedidos e perguntas ao casal, que com o passar do tempo foi se habituando a essa prática periodicamente. Eles mesmos, Chico e Chica, achavam que realmente estavam possuídos, (e talvez estivessem realmente).
          Latifah era louca pra engravidar e vivia pedindo isso todas as vezes que Chica parecia incorporada.
          Oferecia presentes e mil coisas para a entidade que julgava estar ali, se ela conseguisse que Latifah engravidasse.
          Por ironia do destino,isso realmente aconteceu e a mulher julgou ter sido um favor especial do espírito que Chica recebia.
          A alegria se instalou definitivamnete no coração da libanesa e ela não sabia mais o que fazer para agradar a Chica.
          A india jamais se aproveitou dessa fraqueza da patroa mas era obrigada a aceitar os agrados e as mordomias que a mulher lhe dava.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

VI - Agonia e decisão

          O pior crime na Aldeia Caatuã dos puris era a mentira. Tanto Cornéis quanto Capora sabiam disso. 
          A lembrança do deus Sumé, que era o criador da organização e das leis, não saía da cabeça dos dois e por esse motivo, por mais que a tribo festejasse eles não sorriam e nem pareciam felizes.
          A mãe de Capora estranhava a filha e também o fato de nunca ter percebido antes o interesse dela pelo rapaz. Como podia ter acontecido aquilo, se até antes dela ir morar em casa de Bento Vaz não demonstrava vontade nenhuma de estar com qualquer valente da tribo ?
          Só as jovens indias e os jovens valentes achavam normal que Rudá tivesse tocado os dois. Era tão bonito saber que a natureza estava presente em todos os corpos para perpetuar a criação de Nhanderuvuçu a força mágica da criação.
          Mas a pureza de coração não permite o remorso por isso, naquela noite, antes que Jaci estivesse no meio do céu, o casal se afastou, se sentaram ambos na Pedra Grande, e olhando as estrelas que piscavam, pela primeira vez, um novo guerreiro valente e uma mulher resolveram confessar um ao outro todo o seu intimo e segredos.
__ Cornéis irmão, Capora vai simbora da aldeia.
__ Pruquê Capora ?  Cornéis num qué que cê vai. Sem ocê aqui, paricia que as coisa num tinha graça, num tinha cô. Cornéis num iscutava mais a sabiá e toda veiz que via a graúna se alembrava dos seus cabelo.
__Se alembrava pru quê ? Num tinha merecimento nisso.
__Tinha sim minha fulô. Sem ocê Cornéis tinha vontade de se atirá no rio pra ficá pra sempre no reino de Iara.
__Num fala ansim Cornéis. Capora num pode ficá. Nóis num pode deixá essa mintira crecê. Num vai tê perdão.Num foi ocê que plantou o curumim ni mim.
__Nóis num fala a verdade. Eu já credito que o curumim que tá na sua barriga é meu sim. Nóis num percisa falá a verdade. Quem vai adescobri ?
__Nóis num pode minti Cornéis. O curumim que tá na minha barriga é de um cari. Capora num qué inganá ninguém. Capora vai simbora pra não invergonhá ocê e meus irmãos.
__Intão, Cornéis vai tamém. Só num vai se ocê num quisé.
__Num quero tirá ocê daqui não. Ocê é que nem a cará e aqui é seu rio. É aqui que ocê sabe vivê, é aqui qui ocê tá longe dos pirigo.
__Meu rio é seus zóio. Minha terra é ocê. Rudá juntou nóis dois e é ansim qui fico socegado. Mim dexa i com ocê Capora se não, nunca mais vai sabê de Cornéis, pruquê eu vô pro iwa e ansim co o coração livre eu vô tê sucego.
__Intão vamo junto Cornéis, mais inhantes vamo falá com os Mais Velho. Contá a verdade e í imbora.
          Nesse instante, Jaci escondeu-se atrás das nuvens e a mão de Cornéis encontrou a de Capora. Um calor penetrou o corpo dos dois e eles se abraçaram e rolaram sobre a Pedra Grande, moldando-se um ao outro como se fossem um só. Tanta agonia havia naquele abraço que o pranto dos dois formou um córrego escorrendo da face de Capora, descendo pelo queixo e se entranhando entre os dois. O peito do guerreiro e os seios de Capora foram batizados por Rudá naquele instante.
          O Conselho dos Anciãos foi unânime. Ambos tinham mentido. Não mereciam mais a honra de serem puris. Na aldeia não havia mais lugar para eles e nem seriam mais respeitados pois desprezaram o principal princípio da tribo: a verdade.
          Houve um ritual de desagravo para com os karawaras, que são os espíritos da floresta, e ali naquele momento os dois simbolicamente perdiam seus nomes. Andariam sem nomes pois que não eram mais dignos dos seus, assim mandavam os deuses. Estavam desligados de sua tribo. Ali não poderiam voltar. Os irmãos que quisessem vê-los no futuro poderiam fazê-lo mas praticando um ritual de limpeza antes e após a visita. Não poderiam trazer para a tribo o germem da mentira que tanta tristeza trazia aos deuses.
          Assim, partiram os dois. Não puderam levar nada e saíram nus. 
          Anoitecia pois todo o dia tinha sido tomado pelos rituais. Assim que se afastaram da aldeia, os dois pediram proteção, não mais aos deuses dos puris, mas ao Deus que Marinalva tinha apresentado a Capora. Esse Deus tinha um Filho que protegia as pessoas arrependidas e seu nome era Jesus Cristo. Ele iria ter pena deles.
          Com palhas, fabricaram um abrigo, e fizeram uma fogueira para afastar os predadores da noite. O homem recostou-se numa pedra e trouxe a mulher por sobre o seu peito, e ali, por toda noite velou o sono da sua companheira. Não sentia a dureza do solo mas a maciez do corpo tão querido, adormecido sobre o seu.
          A manhã veio surpreendê-los agarrados e tranquilos. Um bem te vi passou avisando que já era dia e que portanto era hora de caminhar.
          Teceram com folhas vestimentas para cobrir sua nudez e a mulher sugeriu ao homem que seguisse um caminho oposto ao que daria na casa de Bento Vaz. E foi assim que chegaram a fazenda de Samir, um libanes bonachão que vivia com Latifah. A Fazenda Hana.
          O casal era ainda bem jovem e tinham migrado para o Brasil por causa das dificuldades econômicas no seu pais. Já estavam totalmente adaptados e possuíam muitos bens pois eram de famílias muito ricas no Líbano. As famílias, querendo preservar as riquezas e temendo a crise no país conseguiram mandar o casal para o Brasil com a maior parte da fortuna, e a finalidade era só uma: aumentar o patrimônio de forma a dar garantia a todos quando fosse preciso. E isso fizeram muito bem.  
          Com tino para os negócios, Samir tinha conseguido aumentar e muito a fortuna que tinha trazido. Agora com muito dinheiro empregado e rendendo lucros, mais uma grande parte guardada, aproveitava o tempo e fazia mais dinheiro com uma enorme lavoura de café. A fazenda Hana era das mais produtivas da região. Sem filhos, o casal aproveitava a vida tornando a sua casa um lugar onde todos se sentiam bem e eram bem pagos.
          Cristãos,praticavam a caridade constantemente e foi nesse clima que receberam aquela india grávida, acompanhada de seu marido, o "homem sem nome".
          Latifah ficou encantada com a barriguinha da mulher e sem nenhuma má intenção, deu-lhe roupas, calçados e enfeites femininos, e prometeu que o bebê teria tudo do bom e do melhor enquanto vivessem na fazenda. O bebê nasceria lá com uma boa parteira e seria criado ali mesmo, em contacto com os bichos e a natureza. Ela Francisca, ajudaria nos serviços da casa, e ele, o marido, trabalharia na lavoura, e ambos teriam um salário. 
          Ficou horrorizada ao saber que o homem não tinha nome,nem tinha sido batizado. Mandou chamar o padre na fazenda para ensinar um pouco da doutrina e batizar o rapaz. Em poucos dias isso foi feito e no dia do batismo ele escolheu chamar-se Francisco de Jesus. Dentro do seu coração já amava os deuses cristãos que não se ofendiam com as criaturas e eram só bondade e perdão.
          Francisco de Jesus e Francisca Perciliana de Jesus receberam uma pequena casinha do lado da fazenda para ali viverem os dias que agora eram cheios da mais pura alegria. 
          A casinha recebeu móveis rústicos que o habilidoso Francisco fazia e até um balaio ele teceu com palha de palmeira e que serviria de berço para quando o neném chegasse. O balaio ficava dependurado no eitão da casinha por uma corda também trançada com palhas e serviria para balançar a criança quando chorasse.
          As roupinhas foram sendo feitas por Latifah e Francisca que rapidamente aprendeu a costurar, e quando chegou o tempo, tudo estava pronto para receber a nova criatura.
          Francisca começou a sentir as dores no entardecer e entrou a noite naquela agonia, porém assim que a parteira chegou foi tudo muito rápido. Na salinha Francisco nervoso olhava Jaci da janela e não sabia a quem pedir proteção, se a Ceuci ou a Virgem Maria. Na duvida, pedia as duas. E não conseguia parar de andar de um lado para o outro. Da porta do quarto até a janela mais de mil vezes, até ouvir o chorinho espantar o medo.
          Com mais um pouco mandaram ele entrar. Francisca estava deitada, pálida como a luz noturna, mas bela como a flor do campo. Alisou o cabelo dela, acariciou sua fina mão e deitou a cabeça sobre seu peito e chorou. Enquanto ele chorava e suas lágrimas molhavam o lençol que cobria seu corpo, ela o acariciava e lhe balbuciava palavras doces.
          Latifah chamou com seu sotaque forte: Ei, olha seu menina. Anda !
          Entregou o bebê enrolado num paninho fino. Era uma menina !!! Branquinha, branquinha !!! O pinguinho de cabelos era de um amarelo avermelhado e parecia a penugem dos patinhos novos.
Pegou a menina com muito cuidado e foi pra janela. "Óia Jaci, ela é mais bunita que ocê ! Essa á a fia que eu quis pruquê ela brotô no chão da minha vida."
          Não tardou a acontecer o batizado. Ali naquela fazenda era importante logo logo tornar-se cristão. Afinal Deus era o Criador de todas as coisas e criaturas e Cristo era o Salvador de todos.
Ao receber as águas do batismo a linda menina recebeu o nome de Maria Líbia da Conceição. 
          Maria da Conceição em homenagem a Mãe de Jesus Cristo, e Líbia para homenagear o país  onde Samir e Latifah tinham nascido.
          Aquela seria a minha saudosa avó.


  

domingo, 2 de outubro de 2016

V - Redenção

          Não foi o amanhecer que despertou Francisca, foi o pressentimento. O receio! O corpo avisava que alguma coisa ia acontecer, igualzinho a um dia na mata. Ela tinha se sentido assim, e quando deu fé a pintada já estava quase em cima dela. O grito e o urro se misturaram num eco que atravessou as árvores e foi bater na aldeia.
          Ela deu um salto e mais rápido que a pintada correu em direção ao Barranco Velho. Sabia que nele haviam inúmeros buracos, cavados pelo pessoal da aldeia mesmo, com o objetivo de servir de proteção num momento de precisão como aquele. O primeiro que lhe apareceu era justinho seu tamanho. Mergulhou nele que tinha uma pequenina entrada mas o interior maior o suficiente para caber um adulto,e já dentro dele pode se agachar e se encolher tremendo. 
          Lá fora a pintada não entendeu. Como é que sua presa sumira feito um coelho? Pelo faro sabia onde ela estava e sentou pra esperar. Uma hora ela ia sair. Ia ter sede, fome... Ia sair. Era isso que lhe dizia o instinto.
          A natureza torna suas criaturas cada vez mais capazes de sobreviver em qualquer circunstância, e ali naquele momento travava-se uma guerra de paciência. Uma das duas ia perder. 
          Capora contava que a fome da onça ia falar mais alto e ela iria embora em busca de outra presa.  
          A onça, quem vai saber o que pensava ? 
          Agia segundo os impulsos de sua natureza. Mas parecia que ela ia esperar ali mesmo. Ali estava seu alimento garantido. 
          Para piorar a situação, outra onça apareceu e ficou por perto urrando baixo, e na cabeça da índia elas estavam combinando uma forma de tirá-la de dentro do buraco.
          Mas, sorte sua, seu grito ouvido na aldeia trouxe quase todos os homens da tribo. Vieram numa gritaria danada, trazendo paus, galhos com folhas e um mundo de cacetes e pedras, mais a cachorrada toda. Eles não matariam as onças se não fosse necessário, e por Tupã, não foi. Diante daquela algazarra toda, as onças sumiram no mato e Capora pode sair da gruta para alegria de seus irmãos.
          Foi assim a primeira vez que ela pressentira o perigo. 
          O aperto de agora anunciava um perigo maior que a maior das pintadas. 
          Estava muito escuro ainda, mas mesmo assim Francisca se levantou e foi para o rio. Enquanto caminhava, ia de braços esticados em direção a Jaci que ainda não fora embora se encontrar com Guaraci.
          O momento do encontro dos dois deuses era mágico e poderoso, era quando todos os pedidos alcançavam as divindades. Esse era o momento de suplicar com a mais profunda humildade, na certeza de que seria ouvida. De seus lábios subiam os apelos mais sinceros a Ceuci, protetora das moradias indígenas, mas que além disso era mãe de Jurupari o guia e guardião. "Ah, Ceuci, deusa minha, pede a Jurupari que me guarde. Preciso de ajuda minha deusa. Num mi deixe nessa agunia. Manda pra longe de mim os pirigo e me aprotege."
          Grossas lágrimas rolavam pela face da india. Enquanto caminhava seus cabelos se enroscavam nos galhos e nos cipós, mas mesmo assim, ela só parou na beira do rio. Ali se ajoelhou, molhou o rosto e se acalmou. Tudo estava certo. "Era assim mesmo", a mata parecia lhe dizer. Ouviu a araponga com seu feio cantar e entendeu que tudo é como é. 
          Nadou um pouco e depois ficou alguns momentos observando uma cará que nadava pertinho da margem, tão perto dela que era só agarrar com as duas mãos puxar para fora da água e pronto, mas percebeu que mesmo assim, mesmo vendo o perigo, o peixe nadava tranquilo porque ali era o seu lugar. Era pra estar ali que Tupã a havia criado. Ali ela sabia se defender e ali era seu lar.
          Quando olhou para o céu, Guaraci já reinava absoluto, espalhando sua luz e seu calor sobre todas as criaturas.
"É igualzinho ao Deus da Galega. Forte, poderoso e bondoso. A ninguém nega sua luz e seu calor. E mesmo quando alguém se esconde dele procurando uma sombra, continua lá, só esperando."
          Voltou para a casa dos patrões com a alma mais leve e nem pensava que poderiam brigar com ela. Sua intuição lhe dizia que hoje era um dia importante. Eles não lhe "passariam carão".
          Estavam todos na cozinha tomando café. O cheiro gostoso do aipim cozido lhe abriu o apetite mas não teve coragem de ir pegar o seu.
          Se sentia como uma estranha naquele momento. Foi Dona Perciliana que lhe trouxe a caneca cheia e o pedaço do aipim.                  Sentou-se no banco enquanto seu olhar passeava pelos presentes.
          Se pudesse ver o passado, como intuía o futuro, ela saberia que a conversa entre os membros daquela família na noite anterior ja tinha decidido o futuro dela.
         Dona Perciliana havia sido chamada por um moleque que ajudava seu genro na venda. Trazia notícia de que Marinalva estava doente e que ela precisava ir ver sua filha. Apressou o marido a voltar da roça, avisou ao patrão e partiram para a casa da moça. Chegando lá, não achando a filha, que tinha ido para o rio, indagou do genro o que tinha acontecido e Bento então contou da crise de vômito que a mulher tivera. "Tá prenha !" Perciliana decretou. "Só pode sê isso!"
          Quando as duas voltaram do rio, foi só "bater os óio" na filha que a dona teve certeza. "Tava prenha mermo!" E pior ! "A índia tamém tava !"  Dava pra ver pelas ancas largas e pela barriga redondinha que a blusa amarrada embaixo dos seios, deixava de fora. Agora quem era o pai do neném que Francisca estava esperando ? Estava claro que ela já tinha vindo da aldeia barriguda. 
          Bento calmo estava, calmo ficou. Nada disse porque no fundo ele nem imaginava que realmente tivesse feito um filho naquela coisica.Não pensava nisso de jeito nenhum porque aquele momento para ele, tinha sido nada.Tinha sido o mesmo que usar as franguinhas no quintal.
          Ficou decidido então que a partir daí, os pais de Marinalva iam ficar morando com ela. O pai ajudaria Bento na venda e a mãe cuidaria da filha, da casa, dos bichos. Não pagariam ajudante na venda e diminuiriam a despesa, porque agora afinal, ao invés de uma pessoa a mais, seriam duas e mais o bebê que ia chegar. Precisavam garantir que todos estariam sustentados.
          Iam falar com o patrão deles e deixariam a fazenda, que infelizmente estava passando uma fase terrível. Para o dono da fazenda seria melhor ter menos duas despesas. 
          Agora, Francisca não poderia mais ficar ali. Quem ia cuidar dela e do bebê? Era muita despesa e ela teria que ir embora.           Ficou decidido naquela noite, apesar dos apelos de Marinalva para que a india ficasse, que Francisca teria que voltar para sua aldeia. 
          O pai de Marinalva iria levá-la e após deixá-la lá, iria até seu patrão avisar que estava indo embora morar com a filha.
          E esta foi a notícia que deram a Francisca enquanto ela tomava café. 
          Ela já tinha sentido que alguma coisa estava acontecendo com ela. Pressentia que a natureza plantara dentro dela um curumim mas não entendia muito bem como foi.
          Ela também se recusava a acreditar que aquele monstruoso homem pudesse gerar alguma coisa que não fôsse terror e asco. 
          Cansara de ver os bichos cruzarem, as fêmeas ficarem prenhas e nascerem os filhotes. 
          Nunca tinha visto o nascimento de um curumim,é bem verdade, pois na aldeia isso acontecia numa oca especial e só quem entrava lá eram duas "Mais Velhas" e o "Mais Velho Ancião" . O que ela via era  as indias barrigudas e depois as via sair da oca com o indiozinho. Era normal depois de um sumiço de alguns dias, as mulheres aparecerem com seus filhotinhos grudados nas tetas e toda tribo agradecer aos deuses mais uma vida.
          Alisou a própria barriga e sem falar, olhou os olhos azuis da Galega e viu dois lagos despejarem suas águas que escorreram como duas cachoeiras pelo rosto branco da patroa. Ouviu um soluço. Só um soluço, pois quando o segundo saiu, já estava no terreiro caminhando em direção à mata. 
          O pai de Marinalva correu atrás mas não conseguia alcançá-la. Ela caminhava ligeiro sem ligar para os arranhões que ia levando. Quando o chinelo agarrou em algum galho, já largou os dois para trás. A roupa ia se rasgando na medida que caminhava. Depois de muito andar, achou um córrego. Cansada se abaixou para beber água, e foi quando o homem a alcançou. 
          Segurou-a com delicadeza e começou a lhe falar coisas que ela não entendia. Não queria entender. Sentia-se anestesiada como quando bebia cauim. 
          Ele começou a lhe rasgar o resto das roupas e a alisar seus seios. 
          Foi aí que Capora acordou ! As unhas da onça arranharam a cara barbuda do velho, quando o sangue escorreu, os dentes da pintada se fecharam no seu ombro enquanto com as patas lhe rasgava as pernas atingindo e ferindo suas "partes" asquerosas . Aquilo era um porco do mato no cio!!! Um porco !
          Livre !!!   Capora estava livre ! Com dois saltos felinos ganhou o alto de uma árvore. Daquela pra outra, da outra pra outra até que o velho não a enxergou mais e foi obrigado a voltar. 
          Quando desceu das árvores sentiu-se meio perdida e teve medo, mas se lembrou da cará na beira do rio. Essa era sua casa. Aqui ela estava protegida.
          Depois de descansar, subiu de novo numa árvore para olhar os arredores. Lá de cima avistou a aldeia e sorriu feliz. 
Será que podia se sentir em casa ?  
          Mais uma vez seu coração se apertou. Lembrou de Jurupari e começou a caminhar em direção à aldeia.
          Antes de entrar no interior da aldeia , alguns curumins a avistaram e foram correndo na frente avisar. Quem primeiro veio recebê-la foi Cornéis.
          Trazia uma cuia de mel que era como eles costumavam dar boas vindas aos amigos e sorria feliz saudando-a.
          Seguindo Cornéis vieram os anciãos da tribo que logo perceberam a barriga de Capora.
        Araruna, o chefe perguntou logo: Capora traz curumim na barriga. Quem lhe fez esse curumim sem consentimento de seus irmãos e de sua mãe ?
          Antes que Capora respondesse, Cornéis falou: Foi Cornéis, Araruna. Pur isso Capora vortô.
          Dito isso, deitou-se no chão de costas,para receber o castigo que seria proferido pelos Conselheiros Anciãos, ou o consentimento de todos eles. Capora percebendo o que ele fez, deitou-se do seu lado aceitando ser castigada com ele, mas o perdão dos anciãos veio quando eles se viraram e voltaram para a ocara. Era o sinal de que o casal estava aceito na tribo. 
          Algumas mulheres levantaram Capora e a levaram para a tenda de sua mãe, enquanto jovens levantavam Cornéis para festejarem. 
          Nesta noite beberam muito cauim e comeram peixe assado até a madrugada. Enquanto isso, as mulheres pintaram e enfeitaram Capora para no amanhecer fazerem a dança das mulheres atestando a alegria pelo curumim que estava a caminho.