Não foi o amanhecer que despertou Francisca, foi o pressentimento. O receio! O corpo avisava que alguma coisa ia acontecer, igualzinho a um dia na mata. Ela tinha se sentido assim, e quando deu fé a pintada já estava quase em cima dela. O grito e o urro se misturaram num eco que atravessou as árvores e foi bater na aldeia.
Ela deu um salto e mais rápido que a pintada correu em direção ao Barranco Velho. Sabia que nele haviam inúmeros buracos, cavados pelo pessoal da aldeia mesmo, com o objetivo de servir de proteção num momento de precisão como aquele. O primeiro que lhe apareceu era justinho seu tamanho. Mergulhou nele que tinha uma pequenina entrada mas o interior maior o suficiente para caber um adulto,e já dentro dele pode se agachar e se encolher tremendo.
Lá fora a pintada não entendeu. Como é que sua presa sumira feito um coelho? Pelo faro sabia onde ela estava e sentou pra esperar. Uma hora ela ia sair. Ia ter sede, fome... Ia sair. Era isso que lhe dizia o instinto.
A natureza torna suas criaturas cada vez mais capazes de sobreviver em qualquer circunstância, e ali naquele momento travava-se uma guerra de paciência. Uma das duas ia perder.
Capora contava que a fome da onça ia falar mais alto e ela iria embora em busca de outra presa.
A onça, quem vai saber o que pensava ?
Agia segundo os impulsos de sua natureza. Mas parecia que ela ia esperar ali mesmo. Ali estava seu alimento garantido.
Para piorar a situação, outra onça apareceu e ficou por perto urrando baixo, e na cabeça da índia elas estavam combinando uma forma de tirá-la de dentro do buraco.
Mas, sorte sua, seu grito ouvido na aldeia trouxe quase todos os homens da tribo. Vieram numa gritaria danada, trazendo paus, galhos com folhas e um mundo de cacetes e pedras, mais a cachorrada toda. Eles não matariam as onças se não fosse necessário, e por Tupã, não foi. Diante daquela algazarra toda, as onças sumiram no mato e Capora pode sair da gruta para alegria de seus irmãos.
Foi assim a primeira vez que ela pressentira o perigo.
O aperto de agora anunciava um perigo maior que a maior das pintadas.
Estava muito escuro ainda, mas mesmo assim Francisca se levantou e foi para o rio. Enquanto caminhava, ia de braços esticados em direção a Jaci que ainda não fora embora se encontrar com Guaraci.
O momento do encontro dos dois deuses era mágico e poderoso, era quando todos os pedidos alcançavam as divindades. Esse era o momento de suplicar com a mais profunda humildade, na certeza de que seria ouvida. De seus lábios subiam os apelos mais sinceros a Ceuci, protetora das moradias indígenas, mas que além disso era mãe de Jurupari o guia e guardião. "Ah, Ceuci, deusa minha, pede a Jurupari que me guarde. Preciso de ajuda minha deusa. Num mi deixe nessa agunia. Manda pra longe de mim os pirigo e me aprotege."
Grossas lágrimas rolavam pela face da india. Enquanto caminhava seus cabelos se enroscavam nos galhos e nos cipós, mas mesmo assim, ela só parou na beira do rio. Ali se ajoelhou, molhou o rosto e se acalmou. Tudo estava certo. "Era assim mesmo", a mata parecia lhe dizer. Ouviu a araponga com seu feio cantar e entendeu que tudo é como é.
Nadou um pouco e depois ficou alguns momentos observando uma cará que nadava pertinho da margem, tão perto dela que era só agarrar com as duas mãos puxar para fora da água e pronto, mas percebeu que mesmo assim, mesmo vendo o perigo, o peixe nadava tranquilo porque ali era o seu lugar. Era pra estar ali que Tupã a havia criado. Ali ela sabia se defender e ali era seu lar.
Quando olhou para o céu, Guaraci já reinava absoluto, espalhando sua luz e seu calor sobre todas as criaturas.
"É igualzinho ao Deus da Galega. Forte, poderoso e bondoso. A ninguém nega sua luz e seu calor. E mesmo quando alguém se esconde dele procurando uma sombra, continua lá, só esperando."
Voltou para a casa dos patrões com a alma mais leve e nem pensava que poderiam brigar com ela. Sua intuição lhe dizia que hoje era um dia importante. Eles não lhe "passariam carão".
Estavam todos na cozinha tomando café. O cheiro gostoso do aipim cozido lhe abriu o apetite mas não teve coragem de ir pegar o seu.
Se sentia como uma estranha naquele momento. Foi Dona Perciliana que lhe trouxe a caneca cheia e o pedaço do aipim. Sentou-se no banco enquanto seu olhar passeava pelos presentes.
Se pudesse ver o passado, como intuía o futuro, ela saberia que a conversa entre os membros daquela família na noite anterior ja tinha decidido o futuro dela.
Dona Perciliana havia sido chamada por um moleque que ajudava seu genro na venda. Trazia notícia de que Marinalva estava doente e que ela precisava ir ver sua filha. Apressou o marido a voltar da roça, avisou ao patrão e partiram para a casa da moça. Chegando lá, não achando a filha, que tinha ido para o rio, indagou do genro o que tinha acontecido e Bento então contou da crise de vômito que a mulher tivera. "Tá prenha !" Perciliana decretou. "Só pode sê isso!"
Quando as duas voltaram do rio, foi só "bater os óio" na filha que a dona teve certeza. "Tava prenha mermo!" E pior ! "A índia tamém tava !" Dava pra ver pelas ancas largas e pela barriga redondinha que a blusa amarrada embaixo dos seios, deixava de fora. Agora quem era o pai do neném que Francisca estava esperando ? Estava claro que ela já tinha vindo da aldeia barriguda.
Bento calmo estava, calmo ficou. Nada disse porque no fundo ele nem imaginava que realmente tivesse feito um filho naquela coisica.Não pensava nisso de jeito nenhum porque aquele momento para ele, tinha sido nada.Tinha sido o mesmo que usar as franguinhas no quintal.
Ficou decidido então que a partir daí, os pais de Marinalva iam ficar morando com ela. O pai ajudaria Bento na venda e a mãe cuidaria da filha, da casa, dos bichos. Não pagariam ajudante na venda e diminuiriam a despesa, porque agora afinal, ao invés de uma pessoa a mais, seriam duas e mais o bebê que ia chegar. Precisavam garantir que todos estariam sustentados.
Iam falar com o patrão deles e deixariam a fazenda, que infelizmente estava passando uma fase terrível. Para o dono da fazenda seria melhor ter menos duas despesas.
Agora, Francisca não poderia mais ficar ali. Quem ia cuidar dela e do bebê? Era muita despesa e ela teria que ir embora. Ficou decidido naquela noite, apesar dos apelos de Marinalva para que a india ficasse, que Francisca teria que voltar para sua aldeia.
O pai de Marinalva iria levá-la e após deixá-la lá, iria até seu patrão avisar que estava indo embora morar com a filha.
E esta foi a notícia que deram a Francisca enquanto ela tomava café.
Ela já tinha sentido que alguma coisa estava acontecendo com ela. Pressentia que a natureza plantara dentro dela um curumim mas não entendia muito bem como foi.
Ela também se recusava a acreditar que aquele monstruoso homem pudesse gerar alguma coisa que não fôsse terror e asco.
Cansara de ver os bichos cruzarem, as fêmeas ficarem prenhas e nascerem os filhotes.
Nunca tinha visto o nascimento de um curumim,é bem verdade, pois na aldeia isso acontecia numa oca especial e só quem entrava lá eram duas "Mais Velhas" e o "Mais Velho Ancião" . O que ela via era as indias barrigudas e depois as via sair da oca com o indiozinho. Era normal depois de um sumiço de alguns dias, as mulheres aparecerem com seus filhotinhos grudados nas tetas e toda tribo agradecer aos deuses mais uma vida.
Alisou a própria barriga e sem falar, olhou os olhos azuis da Galega e viu dois lagos despejarem suas águas que escorreram como duas cachoeiras pelo rosto branco da patroa. Ouviu um soluço. Só um soluço, pois quando o segundo saiu, já estava no terreiro caminhando em direção à mata.
O pai de Marinalva correu atrás mas não conseguia alcançá-la. Ela caminhava ligeiro sem ligar para os arranhões que ia levando. Quando o chinelo agarrou em algum galho, já largou os dois para trás. A roupa ia se rasgando na medida que caminhava. Depois de muito andar, achou um córrego. Cansada se abaixou para beber água, e foi quando o homem a alcançou.
Segurou-a com delicadeza e começou a lhe falar coisas que ela não entendia. Não queria entender. Sentia-se anestesiada como quando bebia cauim.
Ele começou a lhe rasgar o resto das roupas e a alisar seus seios.
Foi aí que Capora acordou ! As unhas da onça arranharam a cara barbuda do velho, quando o sangue escorreu, os dentes da pintada se fecharam no seu ombro enquanto com as patas lhe rasgava as pernas atingindo e ferindo suas "partes" asquerosas . Aquilo era um porco do mato no cio!!! Um porco !
Livre !!! Capora estava livre ! Com dois saltos felinos ganhou o alto de uma árvore. Daquela pra outra, da outra pra outra até que o velho não a enxergou mais e foi obrigado a voltar.
Quando desceu das árvores sentiu-se meio perdida e teve medo, mas se lembrou da cará na beira do rio. Essa era sua casa. Aqui ela estava protegida.
Depois de descansar, subiu de novo numa árvore para olhar os arredores. Lá de cima avistou a aldeia e sorriu feliz.
Será que podia se sentir em casa ?
Mais uma vez seu coração se apertou. Lembrou de Jurupari e começou a caminhar em direção à aldeia.
Antes de entrar no interior da aldeia , alguns curumins a avistaram e foram correndo na frente avisar. Quem primeiro veio recebê-la foi Cornéis.
Trazia uma cuia de mel que era como eles costumavam dar boas vindas aos amigos e sorria feliz saudando-a.
Seguindo Cornéis vieram os anciãos da tribo que logo perceberam a barriga de Capora.
Araruna, o chefe perguntou logo: Capora traz curumim na barriga. Quem lhe fez esse curumim sem consentimento de seus irmãos e de sua mãe ?
Antes que Capora respondesse, Cornéis falou: Foi Cornéis, Araruna. Pur isso Capora vortô.
Dito isso, deitou-se no chão de costas,para receber o castigo que seria proferido pelos Conselheiros Anciãos, ou o consentimento de todos eles. Capora percebendo o que ele fez, deitou-se do seu lado aceitando ser castigada com ele, mas o perdão dos anciãos veio quando eles se viraram e voltaram para a ocara. Era o sinal de que o casal estava aceito na tribo.
Algumas mulheres levantaram Capora e a levaram para a tenda de sua mãe, enquanto jovens levantavam Cornéis para festejarem.
Nesta noite beberam muito cauim e comeram peixe assado até a madrugada. Enquanto isso, as mulheres pintaram e enfeitaram Capora para no amanhecer fazerem a dança das mulheres atestando a alegria pelo curumim que estava a caminho.
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