segunda-feira, 19 de setembro de 2016

III - Capora e Marinalva.

          ___ Nalva !!! Venha ver o que teu marido te trouxe !
          A voz de Bento soou forte no quintal da casa penetrando por todos os cômodos e indo alcançar Marinalva na janela dos fundos, onde ela saudosa mirava a mata que a separava da fazenda em que seus pais trabalhavam e do casebre onde fora criada.
          Tinham se passado poucos meses desde o casamento, desde que a mata tinha testemunhado seu primeiro contacto com Bento, mas parecia que eram séculos. A saudade que sentia pesava tanto que não tinha ânimo para nada. Não via mais os pássaros, as flores... Não queria tomar banho de rio porque sentia que sua sujeira não se limpava mais, e se limpasse, sujaria de novo. Não ouvia mais o cantar suave do vento, não via os raios de sol que teimavam em entrar na casa como se para alegrá-la. Tudo que desejava era que o tempo voltasse... Queria ser a menina esperando os pais voltarem da lavoura, a menina cuidando dos bichos e brincando com bonecas de espigas de milho verde, vestidas com folhas secas.
          ___Nalva !!!
          Ouviu de novo.
          Seu coração saltou no peito, não com a alegria das recém casadas, mas com o sobressalto dos animais que ela via serem amansados na fazenda. Seu rosto corou como acontecia todas as vezes que olhava seu marido e ela ajeitou a saia sobre o corpo tentando esconder o máximo de sua pele branca, num gesto instintivamente protetor.
          Aproximou-se da porta lentamente tentando reter o tempo de ver o homem com quem agora dividia seu silêncio.
          Cabeça baixa passou para o lado de fora e sem coragem para olhá-lo e nem dizer nada, parou.
          ___ Mas olha mulher !!!  Não queres ver ???
          Tomou um pouco de coragem e olhou ainda com receio. Seus olhos azuis como água, encontraram os olhos negros de Capora. Viu a boca carnuda, os seios rijos, as ancas mal tapadas. Viu a pele quase negra e os cabelos lisos e pretos que apareciam na curva dos joelhos. Viu o olhar inocente da india e se sentiu menos só. Não sorriu por fora pois nesses poucos meses desaprendera de sorrir, mas sorriu por dentro, porém continuou muda.
          ___Não vais levá-la para dentro ?  Anda gaja, ela precisa comer alguma coisa.
          A moça se afastou da porta enquanto Bento empurrava Capora em direção à escada, e ela obediente subiu os poucos degraus e entrou atrás de Marinalva.
          Bento entrou logo atrás e antes que a mulher entrasse para a cozinha foi falando:
          ___Essa india veio para nos ajudar. Tu precisas sair desta apatia e começar a cuidar desta casa. Parece que não sabes fazer nada !  Vamos, vamos. De agora em diante quero essa casa limpa, comida na hora e as criações cuidadas.  Tu e ela se entendam pra fazer os serviços porque eu preciso tocar a venda, entendeste gaja ?
           A moça nada falou pois não tinha o que dizer. De cabeça baixa estava, de cabeça baixa ficou.
          ___ Arranje roupas para ela que anda quase pelada, depois vão cuidar da vida.  Ah, arranje uns panos pra ela arrumar a cama e ela vai dormir debaixo da escada. Ali dá muito bem pra ela dormir em cima daqueles engradados vazios.
          Assim que ele saiu, as duas se olharam longamente. Capora tinha o olhar altivo do gavião, enquanto o de Nalva tinha a tristeza das tardes de inverno.
          ___ Vem, vamos no quarto.

          Lá, arranjou alguns vestidos e outras peças, mais um chinelo que a índia não queria calçar mas que terminou aceitando para não entristecer sua agora, patroa.  Vestida, sentiu-se melhor e sentou-se para comer a comida horrível feita por Marinalva.
          A noite caiu e era preciso dormir para no outro dia começar a trabalhar. A patroa com pena, conseguiu arranjar um colchão que estava guardado num canto e as duas arrumaram como um quartinho sob a escada.
          Antes de deitar, Capora falou com seus deuses, ergueu os braços para a lua e pediu proteção para sua gente. Lembrou de Cornéis e de seus agrados. Apanhou no meio de suas coisas a última flor que ele lhe dera e que já estava bem murcha. Lembrou da dificuldade que ele tivera para pegá-la pois ela era uma flor de musgo, e resolvera nascer no alto de uma velha e apodrecida árvore. Enquanto Cornéis subia para pegar a flor, a árvore estalava como se fosse cair mas ele insistia em enfrentar o perigo. Passou silencioso por uma casa de marimbondos e cheio de medo conseguiu pegar a cobiçada flor. Na volta percebeu que aquela casa de marimbondos estava abandonada e que temera à toa, porém, antes de chegar ao chão, a árvore estalou o galho sobre o qual Cornéis estava apoiado e deixou que ele quebrasse !!! Foi um belo tombo mas a prenda estava intacta. Linda flor, branca e azulada, cheirosa e delicada... Estava ali agora, na sua frente para matar a saudade.
          Coberta até a cabeça embaixo da escada, a india ouviu a chegada de Bento. Ouviu quando Marinalva lhe tirou as botas e lhe serviu a comida. Não se ouvia palavras, só sons que seus ouvidos sensíveis   captavam. Tinha medo que Bento viesse até ela. Lembrava o toque de suas mãos e tudo o mais que havia acontecido entre ela e ele quando saíram de sua casa. Sabia que não queria mais aquilo. Tinha sido uma experiência muito ruim. Suas entranhas ainda queimavam e ela fechava entre as próprias pernas a flor, lembrança de Cornéis como se fosse um bálsamo e uma proteção.
          A uma certa hora começou a ouvir sussurros agoniados, e os gemidos eram de Marinalva. Levantou-se devagar e espiou na cozinha. O que viu a deixou assustada e sem compreender. Bento estava sobre Marinalva como os galos cobrem as galinhas no quintal. Ela de roupa ainda, arriada no chão, quieta, só gemia como se lhe faltasse o ar. Ele, vestido também espadanava seu casaco como uma grande asa e com a cabeça apertava a cabeça da mulher no chão e grunhia como os porcos disputando a lavagem.
          Rápido como começou, ele levantou-se e se dirigiu para o quarto, ela ainda ficou muito tempo na mesma posição, imóvel. Capora pensou que ela estivesse morta, mas depois de algum tempo ouviu seus soluços e compreendeu que naquele momento nada podia fazer. Voltou para seu lugar e tentou dormir. Não conseguiu. Nem tão pouco Marinalva foi para o quarto. Ficou na beira do fogão, tremendo de frio e esquentando-se nas brasas. Olhando do seu canto, a india via o brilho das lágrimas no rosto da galega.
          Indiferente o dia amanheceu lindo !  A india acordou e foi para o rio lavar-se. Quando voltou Bento ralhou:
          ___Ei, tu tens que ajudar a ela. Vamos lá, fazendo café, assando umas broas que eu vou pra lida.
          Serviram o café e tomaram também. Assim que Bento saiu, Capora convenceu Marinalva a irem tomar banho no rio. Depois de muito brincarem, esquecidas de tudo e feito duas crianças, voltaram para o almoço e Nalva parecia mais feliz. A india ensinava a ela o que sabia e ela ensinava a india o que sabia. Já não havia mais queixas de Bento. As duas davam conta do serviço direitinho.
          O homem nunca mais tocou em Capora e ela estava muito feliz com isso, em compensação a cena da cozinha se repetia todos os dias, porém Marinalva não reclamava.
          Um belo dia resolveram:
          ___Capora, você não é cristâ !!! Precisa das águas do batismo,
          Conversaram com o padre da capela e ele concordou em batizar a moça. Deu a ela algumas aulas da doutrina e após, marcou a data do batizado. Marinalva seria a madrinha e o nome escolhido pelo padre foi Francisca de Jesus, mas para fazer um agrado, Marinalva colocou no meio do nome cristão de Capora, o nome de sua mãe: Perciliana
Naquele dia nascia Francisca Perciliana de Jesus, minha bisavó !!!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

II - Bento Vaz,

          Bento Vaz tinha 26 anos e era um moço de pouca beleza. Mãos rudes, cabelos enormes e maltratados, sempre amarrados na nuca. Seu traço mais marcante era o sorriso jovial que facilmente cativava a quantos o vissem sorrir. É que passava uma ideia de franqueza e de força. Impossível duvidar de Bento Vaz sorrindo.
          Português, da cidade  de Matosinhos, distrito do Porto  era de lá que trazia aquela alegria constante no sorriso. Quando ria parecia um menino sonhador e bondoso, mas sua alma refletia-se no olhar irrequieto e perturbador. Olhá-lo nos olhos era mergulhar na incerteza e no medo e ninguém queria fitar por um só segundo aquele mar castanho onde boiavam a ganância e a ignorância,
           Tinha vindo com o pai para o Brasil, desde que sua mãe morrera,deixando-o com ainda rapazote. Lembrava vagamente de seus pais juntos. A mãe, vivia pelas igrejas e periferias praticando a caridade enquanto o pai trabalhava como ourives. Assistia aos mal tratos que o pai infligia à sua mãe, mas nada podia fazer pois morria de medo de se virarem contra ele., e assim, assimilava como normal tudo o que acontecia.
          Foi nessa ocasião que o menino criou para si aquele sorriso diferente e cativante. Precisava convencer as pessoas que estava bem, que estava feliz. Aos amigos com família unida, queria convencer de que a sua também era. Passar uma imagem de perfeição tornou-se quase uma obsessão e sorria de tudo e para todos.
          O pai satisfazia seus caprichos de criança, comprando para ele tudo o que ele pedia, mas nunca o abraçou, nunca conversou com ele, jamais vira o pai sorrir. Quando perguntava alguma coisa ao pai, ele dizia estar ocupado. Se procurasse pela mãe, ela estava sempre triste e nunca tinha resposta para nada.Habituou-se a não pensar muito nas coisas que ia fazer pois corria o risco de não fazê-las por causa da indiferença do pai ou da mãe. Por tanto, não buscava opinião e nem afeto. Agia sempre na certeza de que ele era quem decidia tudo e fim. E sorria... Estava tudo muito bom.
          O pai, ainda bem novo, começou a ter dificuldades para executar seu trabalho pois que seus dedos foram pouco a pouco perdendo os movimentos e assim, juntando as economias que tinha, abriu uma mercearia, onde vendia de tudo mas principalmente peixe, que por ser barato, oferecia uma maior margem de lucro.
          Com a doença, o pai tornou-se ainda mais ignorante e tratava a mulher como um objeto qualquer, sem nenhuma consideração. Não havia nos gestos dele nenhum sinal de carinho e de amor.           Alimentava a família como se alimenta os bichos e agia como os bichos, dominado pelos instintos.
          Quando a mãe de Bento morreu, Portugal passava por uma grande crise e seu pai resolveu se mudar do país. Pela primeira vez parecia impactado por alguma coisa, mas não entendia e portanto, não conseguia explicar os motivos que o levavam a abandonar sua terra natal.
          Escolheu o Brasil porque tinha conhecidos no pais, que o ajudariam a abrir um comércio para recomeçar a vida, mas ainda no navio, adoeceu e veio a falecer.
          Antes de morrer, chamou Bento, então com 17 anos, entregou-lhe todo o dinheiro que levava e que era muito. ensinou-o a agir com discrição, a esconder o dinheiro, e a levar avante os seus planos que era trabalhar como comerciante.
          Quando desembarcasse na Bahia, deveria procurar, um Sr. Rashid dono do Bar Tempestade, que ficava próximo ao porto e recebia viajantes recém chegados. Esse grande amigo, que lhe devia favores no passado, o ajudaria a comprar um local para se estabelecer e lhe daria as orientações necessárias. Num envelope enviava uma carta a Rashid, apresentando o filho e pedindo com suas próprias palavras, o favor de encaminhar o rapaz.
          Bento Vaz, guardou na memória as palavras do pai, e a última imagem que teve dele: um corpo enrolado em panos brancos, atirado ao mar.
          Com Rashid, homem experiente e leal, agiu tudo como o pai dissera. Da Bahia, partiram para Minas Gerais, chegando a cidade de Muriaé, onde Rashid sabia que não havia uma boa loja de comércio para atender aos fazendeiros e aos trabalhadores rurais da redondeza. Compraram uma grande casa com um belo galpão do lado. Passaram então a comprar de tudo que os fazendeiros quisessem vender, desde produtos da terra a animais para abate e para criação. Estes em pouca quantidade, com a intenção de suprir as necessidades diárias do rapaz e dos empregados que teria que arranjar.
          Dos alambiques da redondeza, compraram pinga da boa e contrataram o primeiro Puri, mestre em preparar a pinga com frutas da região de forma que o sabor e o perfume atraíam como o canto da Iara.
          Compraram tecidos nas fábricas e mandaram vir calçados do Rio de Janeiro. Rashid sabia negociar bons preços e ensinou esta arte ao rapaz que rapidamente aprendeu. Com seu sorriso e simpatia logo logo superou o mestre na matéria e assim, com o dinheiro que trouxera conseguiu abastecer seu comércio e ter provisão para seu sustento durante um bom período, até conseguir sobreviver do lucro de seu comércio.
          Depois da venda aberta,( não houve inauguração porque não viram necessidade. Abriram e pronto.) o povo da cidade e dos arredores começou a procurar principalmente as novidades, que até aquele dia só eram trazidas pelos mascates.
           Agora podiam comprar ali mesmo carmim para os lábios, verniz para as unhas, lápis de olho, chitas com estampas lindas e sandalinhas delicadas para as festas noturnas.
          No alto da porta um letreiro apresentava: ARMAZÉM VAZ, e Bento Vaz tornava-se conhecido principalmente porque sorria sempre e seu sorriso contagiava.

          Rashid ficou algum tempo ensinando o moço a fazer a contabilidade, a fugir do prejuízo e a gastar só o suficiente sempre guardando alguma coisa para os tempos de crise. Depois partiu de volta para a Bahia pois o Tempestade já estava a muito tempo na mão dos administradores e "o que engorda boi é o olhar do dono."
          Recusou o dinheiro que Bento ofereceu ficando até ofendido, mas levou de presente algumas garrafas da pinga com sabor de pequi e de pitanga. Prometeu voltar e comprar mais para vender no Tempestade.
          Antes de viajar, Rashid aconselhou Bento a procurar uma moça e se casar. Ele ia precisar de uma mulher para administrar a casa enquanto trabalhava. Além do mais a idade já pedia o que a natureza manda.
          Bento já andava olhando umas meninas, mas observara uma branquinha feito leite, cabelos cor de fogo, muito recatada e envergonhada, filha de um casal de colonos de uma fazenda próxima, que já eram fregueses da Mercearia.  Marinalva era o nome dela, já assuntara.
          Interessado estava, mas coragem pra abordar a moça é que não aparecia.
          Enquanto isso, quando a natureza se manifestava, Bento ia pro terreiro e se acostumou a pegar as criações do quintal para descarregar sua ânsia masculina. Uma coisa que lhe acontecia esporadicamente, passou a ser quase diária e ele não tinha a menor dificuldade em praticar tais atos .
Não comentava com ninguém, e como sempre, não cultivava amigos. Era só sorrisos durante o dia. Atendia com educação e fazia o que podia para que nada faltasse aos seus fregueses.
          Recebia muitas vezes o pagamento em forma de víveres que ele revendia. Nada dava prejuízo. E por ser assim, através desta forma de comercializar, apareceu a oportunidade de ter para si a moça que o interessava.
          A familia dela passava por um aperto como consequência da colheita fraca do fazendeiro patrão. Para não passar fome tiveram que comprar fiado no Armazém, e como a situação não melhorasse e não tivessem como saldar a dívida, foram conversar com Bento para encontrarem uma solução. Gente direita, não queria causar prejuízo e nem ficar devendo.
          O pai de Marinalva ofereceu-se para trabalhar no Armazém sem receber pagamento. A mãe da moça também faria comida e lavaria as roupas do rapaz sem pagamento até que a dívida fosse saldada. Ele viu aí a possibilidade de acabar com suas idas ao quintal quase todas as noites. Pediu a mão da moça em troca do perdão da dívida.
          Os pais, tentados, mas amando muito a filha, não concordaram, mas Marinalva quando soube, encheu-se de desejos pelo português e pediu aos pais que aceitassem. Ela queria muito se casar com ele.
          Os pais ainda tentaram convencê-la, mas a natureza age em todos os seres vivos. Com ela não era diferente. Já estava na hora de tocar um homem. De conhecer o segredo  daquele calor que a envolvia  quando sentia o cheiro de qualquer rapaz. Queria entender porque queria chorar toda vez que seus pais entravam pro quarto e ela ouvia seus gemidos.
          Tudo acertado, o casamento aconteceu. O padre da igrejinha local celebrou o casamento e uma festinha foi preparada na casa da moça, para os amigos.
          Marinalva tinha trocado poucas palavras com Bento mas observava cada detalhe do marido enquanto ele conversava com os convidados. Observava seu jeito de morder o lábio inferior quando olhava para ela, olhava o dente encavalado que aparecia quando ele sorria, admirava as pernas escondidas sob as calças, mas que eram rijas e grossas. As mãos de seu marido também eram grandes e limpas e o peito que aparecia sob a camisa tinha pelos negros saltando para fora contrastando com o branco da camisa.
          A festa acontecia no quintal do casebre e a noite era iluminada por uma lua cheia e por um céu totalmente limpo e estrelado.
          Atraída por um vaga-lume a menina se afastou o suficiente para que Bento percebesse. Deu um jeito de distrair o pessoal que estava ao seu lado e saiu para encontrá-la. Ela se assustou quando ele pegou sua mão e a conduziu para o mato, mas acompanhou-o sem medo e curiosa. Era seu marido... O que iria acontecer agora ?
          Mal estavam distantes do vozerio da festa, Bento a atraiu para si, e ali mesmo, erguendo seu vestido branco, abrindo sua própria roupa a possuiu, da mesma forma que possuia as galinhas do quintal. Tempo suficiente para sua natureza se sentir saciada.
          Terminado, ante o espanto dela, ele mesmo lhe arrumou o vestido, ajeitou-se, e tomando sua mão como quando a trouxe retornou com ela para a festa.
          Lágrimas corriam pelo seu rosto quando sua mãe veio ter com ela e sentiu uma enorme vergonha.
          Era hora de acompanhar seu marido para a casa dele. Hora de começar uma nova vida.
          Mais uma vez, tomada pela mão, ela foi.
          E agora ???

terça-feira, 6 de setembro de 2016

I - Fragmentos...

          Em 1912, na Zona da Mata nas Minas Gerais, a cidade de Muriaé, quase um vilarejo, era rodeada por uma mata exuberante, cheia de lagoas cristalinas e rios maravilhosos. A flora e a fauna da região eram tão abundantes, que chegavam a ser inacreditáveis. Nas copas das árvores sabiás, canários da terra, sanhaçus, coleiras, saíras, saracuás, graúnas e bem te vis, enchiam o ar de lindas cantorias enquanto as araras, maritacas, papagaios, biquinhos de lacre e outros enfeitavam a floresta com suas cores exuberantes e sua ruidosa alegria.
          As sempre vivas, crisântemos, flores de maracujá, flor do pequi, petúnias e flores de laranjeira , beijos brancos, vermelhos, miosótis e outras flores adormecidas entre a vegetação, brilhavam ao toque de qualquer luz, tornando-se assim mais formosas. No amanhecer, o pranto da madrugada que alguns ousam chamar de orvalho, tornavam-se em cada folha como uma pedra preciosa.
          Laranjeiras, jabuticabeiras, jaqueiras, pitangueiras lançavam o perfume de seus frutos, que se espalhavam por todos os lugares enquanto as palmeiras, as árvores de pau brasil, os jacarandás e as perobas lançavam a sombra de seus galhos sobre a vegetação miúda e úmida onde pequenos animais se moviam com rapidez, sempre procurando alimento, cavando suas tocas, construindo seus abrigos.
          A aldeia Puri estava plantada no meio desta mata atlântica, ainda selvagem. Abrigos construídos com barro e folhas de palmeira pareciam simplesmente mais um pedaço da mata e tal como a mata, exalava vida !
          No centro da grande clareira, as cabanas formavam uma meia lua, e distante delas uns poucos metros, um pequeno rio descia do morro, encachoeirava e despejava sua água cristalina sobre pequenos que brincavam . Mais ao fundo, entoando cantigas da tribo, as mulheres raspavam a mandioca enquanto aguardavam seus homens que caçavam. A farinha branquinha ia enchendo os tachos e as vozes eram cada vez mais animadas.
          A canção da mata chegava até ali, fazendo uma segunda voz na melodia diária. Eram o bugio, o macaco muriqui, a capivara, a jaguatirica, a onça pintada, o tamanduá bandeira, o tatu canastra que emitiam seus sons, cada um com seu significado, cada um com sua tonalidade, cada um com sua beleza.
          Os Puris ali estavam desde quando ninguém se lembrava. Descendiam dos goitacás e tinham chegado aquelas terras empurrados pelos Tamoios  que foram derrotados e perseguidos pelas tropas de Mem de Sá. Esses, ao chegarem às terras dos Puris, vendo que eram pacíficos os expulsaram, e eles após caminharem a procura de um outro lugar para habitarem, encantaram-se com a harmonia selvagem daquela paragem e ali ficaram. Plantaram suas raízes, fixaram seus deuses e descarregaram suas esperanças.
          Já então, não eram tão apegados às tradições de seu povo e a cada contacto com a civilização, perdiam mais um pouco de sua identidade.
          Chefiava-os um nativo bravo, inteligente, forte e bem humorado.
          Eram curados por um ancião que conhecia rezas e mandingas dos ancestrais, mas em compensação eram constantemente visitados por gente da cidade que procurava mão de obra barata uma vez que a escravidão não existia mais e os negros agora não estavam mais disponíveis. Esse contacto por mais esporádico e breve que fosse, trazia as doenças, a malícia civilizada e a ganância.
          Neste cenário, Capora crescia livre e arisca como a cará no rio. Tinha nascido em 1898 forte e linda. Crescera no meio da mata, brincando com os bichos e respeitando a natureza. Conhecia os segredos da mata e acreditava piamente nos deuses da sua gente. Agora era uma menina ainda com seus 14 anos,mas bem  desenvolvida, já que tinha os seios perfeitos e quadris bem largos. Sua nudez coberta com as pinturas e penas que lhe enfeitavam, faziam dela um misto de pássaro e borboleta, mas a sua sutileza ao caminhar lembrava o deslizar de uma jararaca. O olhar varava a cortina de folhas sempre procurando uma flor bonita para colocar nos cabelos, um inseto interessante para brincar, um bichinho machucado para cuidar.
          Já tinha sido iniciada e lembrava perfeitamente do susto que tomara ao ver sangue saindo de dentro de si mesma, sem haver se machucado. As indias mais velhas a levaram para a grande cabana onde outras meninas estavam recolhidas pelo mesmo motivo. Na grande cabana também estavam as indias barrigudas já nas dores, mas as anciãs cuidavam de todas com muito carinho, fazendo as pinturas rituais, cozinhando as comidas permitidas pelos deuses e ensinando tudo que era preciso saber naquele período.
          Passado o tempo de seu incômodo e tendo cumprido todas as obrigações relacionadas com sua fé, a menina viu-se novamente livre a correr pelos descampados e sentia-se assim, como se fosse um vento ruidoso, a entrar em todos os cantinhos, a alcançar desde o capim rasteiro até as mais altas folhas no interior da floresta.
          Linda e misteriosa, Capora já tinha um pretendente entre os jovens da tribo. Era Cornéis que suspirava cada vez que a via. Para ela fazia mil peripécias e para ela dava mil agrados, mas ela parecia não ver e não entender. Cornéis ansiava pelo momento em que a natureza lhe permitisse matar aquela secura que sentia no corpo quando a noite chegava e ele queria estar com ela. Parecia-lhe adivinhar o calor daquele corpo e a maciez daquelas mãos.
          Quando Bento veio a tribo Puri, queria encontrar uma mocinha para levar pra Muriaé.Tinha se casado com Marinalva, menina de 15 anos, criada com mimos e que não sabia cuidar da casa ainda.           Já estava acostumado a levar os jovens Puris para trabalharem em seu comércio na cidade. Eram homens fortes e parrudos que carregavam as sacas de mantimentos como se fossem penas e eram pagos principalmente com sal, açúcar, algum arroz, espelhos e enfeites para as mulheres e coisas que não podiam produzir.
          Certamente uma mocinha seria uma mão na roda em sua casa. Faria o serviço caseiro e companhia para Marinalva. Pagaria com casa e comida e algum dinheiro.
          Quando pôs os olhos sobre Capora, quis se enganar que seu interesse era pura e simplesmente o trabalho que ela poderia realizar, e assim, armado de boa fé, conversou com a mãe da moça (ela já não tinhas pai) e com o chefe do grupo. Todos eram encantados com o palavreado de Bento,por isso permitiram imediatamente, amaciados principalmente pela promessa de um bom salário que ajudaria muito a sua mãe. Só Capora mesmo é que não queria ir. Vestir roupa ?  Não gostava. Calçar sapato ? Ah, não queria não...
          Mas não teve jeito... Acostumada a obedecer, pegou suas coisinhas e partiu com Bento.
          Não muito longe da aldeia, quando a mata se fechou sobre eles, Bento parou com Capora, começou a acariciar seu corpo e ela por natureza mesmo, sentia alguma coisa diferente. Uma ansiedade, um chamado, uma curiosidade feito a da paca ao pressentir perigo,mas querendo primeiro visualizar de onde ele vinha sem pensar logo em fugir. Assim, na mais singela inocência, deitou-se na relva e se entregou. Feito a cará que se aproxima da margem do rio, atraída por qualquer pedacinho de fruta e cai na armadilha que na maioria das vezes é tão somente as mãos unidas que prendem e puxam para fora da água. Entregou-se dócil sem luta, diferente da cará que depois de presa e arrastada para fora da água, ainda se debatia muito até voltar para seu habitat ou até morrer.
          Do alto de uma árvore, cheio da mais profunda tristeza, Cornéis assistiu a tudo . Não sentiu raiva nem ciúme, pois não conhecia esses sentimentos, só seu corpo tremeu de angústia e ele se esfregou no tronco da árvore até sangrar o peito, quando então sua agonia acabou. Então abriu os olhos. O casal já havia partido e a folhagem da mata novamente havia escondido os dois.
Cornéis voltou para a aldeia. Era uma nova criatura.
          Tinha agora no seu interior uma esperança louca e a certeza de que o mundo não era mais o mesmo.
          Desde aquele dia, não sorriu e nem brincou mais. Guardava sua alegria para ofertar a Capora no dia em que ela voltasse.