terça-feira, 11 de outubro de 2016

VIII - Transformações.

          A gravidez de Latifah fez um grande alvoroço na Fazenda Hana. Até no galinheiro ela foi para contar pra Pardinha (sua franguinha de estimação) que estava esperando bebê. "Vê Pardinho, Samir fez bebê aqui e mamã quase morta  felicidade. Você muito novinho, não sabe dessas coisa ainda, mas dia desse o Fanfarron (Fanfarrão era o galo do quintal)  vai te pegar e ó, você também vai ser mamã !!! "
         A alegria era geral e todos ficavam curiosos pra ver a barriguinha crescer. Samir ria o tempo todo.      " Eu vai ser papai ! Uma homem precisa ter filhas para deixar seu  herança, se não, pra que ter dinheirra ?"  E ria, ria, balançando a barriga e as bochechas numa felicidade indescritível, e beijava as mãos de Chica agradecendo como se ela fôsse a "milagreira".
          Os dias iam passando e Latifah já sentia as primeiras reações da gestação. Não podia nem sentir cheiro de comida que danava a vomitar, e era uma correria geral. Todo mundo queria acudir ao mesmo tempo e terminava que se atrapalhavam mais que ajudavam. Só Chica tinha a calma comum às mulheres puris. Queimava ervas numa latinha e colocava próximo da patroa para que a fumaça aromática acalmasse o enjôo. Pegava um pedaço de rapadura botava no fogo pra dissolver e quando o melado estava no ponto, juntava o leite fresquinho e deixava ferver, depois esfriava a bebida do mesmo jeito que fazia na aldeia quando um irmão estava enfraquecido. Usando duas canecas, passava a bebida de uma para a outra sucessivamente até estar morna, para então oferecer a patroa aquele leite caramelado que estimulava e alimentava.
          Comida mesmo não parava no estômago de Latifah e ela começou a emagrecer. Com pouco tempo de gravidez, ela estava tão magrinha e com olheiras tão profundas que a alegria geral foi se transformando em preocupação. Samir não tinha coragem de deixá-la só pois ela tinha adquirido um aspecto tão frágil que parecia uma boneca de porcelana.
         O que fazer para resolver aquela situação ? Mesmo com as mezinhas de Chica o estado da futura mãezinha piorava dia após dia. Samir então resolveu levar a mulher ao médico na cidade mais próxima que era Manhuaçu. Quando não podia ir a São Paulo, ele costumava ir lá para comprar tecido e sal, e era lá que abastecia os mascates, seus empregados, que visitavam as fazendas dos arredores vendendo toda sorte de mercadoria.
           Em Manhuaçu  ele tinha diversas propriedades alugadas e isto aumentava bastante sua renda pois eram casas boas e bem situadas que nunca ficavam sem inquilinos. Também nessa cidade Samir tinha adquirido um pequeno hotel que tinha o nome de Grande Hotel, e só os hóspedes permanentes já garantiam o pagamento dos funcionários e algum lucro que era depositado no banco da cidade em nome de Latifah.
          Em Manhuaçu morava e clinicava o Dr. Jorge, um excelente profissional na opinião dos moradores da cidade. E foi ele quem examinou a mulher e após dizer a Samir que tudo aquilo era normal na gravidez prescreveu alguns remédios que foram imediatamente encomendados na botica. Ele também deu algumas orientações e aconselhou a que ela continuasse com os remedinhos caseiros de Chica e que procurasse comer alguma coisa bem forte todos os dias. Os enjôos iam melhorar e ela provavelmente ia voltar a ganhar peso e se sentir melhor.
          Aquela noite dormiram no hotel pois os remédios só ficariam prontos no dia seguinte, e logo cedinho Samir acordou a mulher: "Latifah, Samir vai no botica buscar as remédio. Enquanto isso, toma sua café e se apronta que nós volta ainda cedo pra fazenda, sim minha docinha ?"  Cheia de sono, ela balançou a cabeça concordando e ele então saiu.
          Quando Samir voltou entrou todo animado no quarto e quase morreu de susto quando viu a esposa caída no chão ainda de camisola. Ficou enlouquecido gritando feito uma criança. Acordou os hóspedes que estavam ainda dormindo e os que já estavam acordados correram pro quarto do casal. Ele chorava sem parar chamando a esposa e um engraxate que trabalhava na porta do hotel, menino muito esperto e prestativo, foi correndo chamar o Dr. Jorge. Em pouco tempo o médico chegava e usando sais aromáticos conseguiu que a mulher despertasse.
          Novamente ele a examinou e explicou para o desconsolado marido que a esposa estava bem. Tinha sido um desmaio talvez consequência da fraqueza, mas o quadro geral dela era bom, e que aquilo tudo ia passar tão logo ela começasse a tomar os remédios.
          Depois que todos se foram, mais calmo, ele se sentou do lado da mulher e disse que tinha tomado uma decisão muito importante: não voltariam pra fazenda até o neném nascer. Não se sentiria tranquilo longe do Dr. Jorge, que tinha em seu consultório acomodações onde Marinalva poderia dar a luz com tranquilidade e bem assistida. O resguardo ela passaria no hotel ou em uma das casas de propriedade deles. Em tudo poderia se dar um jeito. Voltar para a fazenda naquele momento estava fora de questão.
          Latifah não queria ficar na cidade mas também tinha medo de morrer ou perder seu filhinho antes de nascer. Ela sabia que seria um período difícil e lá na fazenda eles estavam longe de tudo.                 Concordava em ficar na cidade, mas Samir teria que trazer Chico, Chica e Manega. Sem Chica ela não ficava não, e Chica só viria se o marido e a filha viessem. Então era assim que tinha que ser.
          Samir despachou seu carroceiro de volta com a ordem de Chica seu marido e a filha virem pra Manhuaçu imediatamente. Mandou que seu empregado falasse que Latifah precisava de Chica pois só confiava nela. Autorizou o empregado a contar todo o acontecido e explicar os riscos que a patroa correria, caso tivesse que ficar longe dos recursos.
          Quando o carroceiro chegou na fazenda sem os patrões, todos se apavoraram com medo de que o pior tivesse acontecido. Ninguém tinha coragem de perguntar.  Chica já chorava desesperada antes que o homem falasse qualquer coisa. Quando ele explicou as ordens do patrão, Chica foi com o marido para o quintal, e como já era noite e Manega dormisse, sentaram-se bem distante pra conversar e decidir o que fazer sem incomodar a ninguém.
           Deviam muito ao casal amigo, mas amavam a fazenda. Ela não tinha coragem de pedir a Chico que fosse com ela pra cidade, mas sabia que tinha que ir ou não seria digna da amizade que a patroa lhe devotava. Sabia que seria muito difícil para o marido deixar aquele lugar por isso propôs ir com Manega e ele ficar, ela viria vê-lo toda semana, e assim que a criança nascesse ela voltaria e não sairia mais do lado dele.
         Chico escutava atentamente as palavras da mulher olhando fixamente para seu rosto, vendo o brilho da lua faiscar no negrume daqueles olhos tão queridos. " Eu vai com ocê minha muié. Ocê é meu chão, meu rio, minha mata virge. Ocê é tudo pra mim. Eu nunca qui ia podê vivê sem oiá teus óio, sem senti seu chêro. Onde tu tivé, eu tô tamém."
          Suas mãos se uniram e entrelaçando os dedos se juntaram num abraço forte e dolorido. Marido e mulher, uma só criatura. Não falavam de amor pois não conheciam a palavra, mas eram o próprio amor real, palpável. Assim ficaram um bom tempo, um bebendo a presença do outro até que o galo começou a cantar anunciando a madrugada. Era hora de acordar Manega, juntar as tralhas, subir na carroça e seguir pra cidade.
          Chico ainda deu uma olhada nas criações, passou orientações aos outros empregados enquanto Chica chamava Palmira, uma das melhores serviçais da casa para ficar no seu lugar e cuidar de tudo direitinho.
          Tudo pronto, partiram. Manega estava radiante. Tinha já tres aninhos e continuava serelepe como ela só. Qualquer novidade era motivo pra pular feito uma perereca doida e repetia sem parar: "cidade, cidade !"
          Enquanto a carroça seguia pela estrada de barro, as árvores sacudiam suas folhas, os pássaros cantavam a melodia da matinada e os bichos barulhavam por dentro da mata como em despedida.
          Chico sacudia a mão em adeus e lágrimas corriam do seu rosto. Parecia ouvir na voz do vento a sentença final: "Adeus Cornéis, aqui ocê num vorta mais !"
          Com as mãos, Chica secou aquelas lágrimas e trouxe a cabeça de Chico para sem ombro, e acariciando o rosto do seu homem começou a cantar as cantigas dos puris na sua lingua natal. O coração dele foi se acalmando e ele pensou: " Meu chão tá aqui cumigo."
          Quando Latifah viu a amiga, chorou muito. Ficaram no quarto conversando, Manega saltando na cama e pedindo comida enquanto os homens conversavam no salão do hotel.
          Ficou decidido que Altair, irmão de Samir viria de São Paulo para cuidar da fazenda, traria a esposa que cuidaria da casa. Ele e Chico iriam de quinze em quinze dias ver como estavam as coisas e correndo tudo bem, depois que o bebê nascesse e desmamasse, voltariam todos. Por hora, o casal Latifah e Samir iriam ocupar um casarão de propriedade deles que ficava na Vila Roseiral, e que por um feliz acaso, estava desocupado naquele momento. A familia de Chico ficaria com eles morando na casa.
          Chico não aceitou essa proposta. Tinha se acostumado a ficar no seu cantinho lá na fazenda. Gostava de ter o tempinho para estar sozinho com sua mulher e pediu a Samir que adquirisse uma casinha para ele e Chica ficarem. Uma casinha modesta que ele procuraria pagar com seu trabalho. Só isso.
          Chica concordou com o marido. Já tinha recebido muito dele para exigir que ele abrisse mão de sua única vontade para mais uma vez concordar com ela.
          Foi adquirida uma casinha no Morro da Petrina (uma velha mestiça, filha de um caixeiro viajante grego chamado Pietro com uma mulata conhecida como Loló. Eles possuiam algumas casinhas simples, espalhadas pelo morro que os dois cercaram e defenderam com unhas e dentes por ocasião da ocupação da cidade) com uma semana mais ou menos as duas familias estavam instaladas, deixando portanto o hotel.
          A casinha simples era formada de quatro cômodos com um grande quintal nos fundos e um pequeno na entrada. Junto a porta da sala, do lado de fora, havia um banco de madeira, fixo no chão, e um projeto de jardim que nunca foi pra frente porque não havia cerca, o solo era muito seco e Manega pisava qualquer coisa que se tentasse plantar, já que não parava quieta. Nos fundos porém, Chico armou um belo galinheiro e uma boa horta onde plantou as mudas que trouxera da fazenda.
Um pé de mamão, uma goiabeira e um pé de graviola já existiam no quintal e logo logo, a menina já trepava neles caçando frutas.
          Latifah todos os dias recebia sua amiga e Chica cuidava da patroazinha com todo carinho. O serviço da casa ficava por conta das empregadas novas, a ela cabia só fazer companhia a Latifah, ajudar a preparar o enxoval do bebê e fazer as comidinhas que a patroa gostava. De tardezinha Chica voltava para sua casinha onde seu homem e sua filha a esperavam. Ai, todos os dias, sentavam no banco e ficavam espiando a torre da igreja, conversando e cantando enquanto Manega brincava de pique ou de roda com as amiguinhas.
          Chico continuou trabalhando com Samir na organização dos mascates e no controle do hotel, mas não quis mais voltar na fazenda. Recebia seu saláriozinho e estava tranquilo e quase feliz com seu chão.
          Chica também ganhava seu dinheirinho e cuidava de sua filha com muito carinho. A menina vivia cheia de mimos e era linda demais, porém, não se sabe porque, Francisca não engravidou mais.
E o tempo caminhava ajeitando tudo nos lugares e transformando a saudade em calma.



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