segunda-feira, 3 de outubro de 2016

VI - Agonia e decisão

          O pior crime na Aldeia Caatuã dos puris era a mentira. Tanto Cornéis quanto Capora sabiam disso. 
          A lembrança do deus Sumé, que era o criador da organização e das leis, não saía da cabeça dos dois e por esse motivo, por mais que a tribo festejasse eles não sorriam e nem pareciam felizes.
          A mãe de Capora estranhava a filha e também o fato de nunca ter percebido antes o interesse dela pelo rapaz. Como podia ter acontecido aquilo, se até antes dela ir morar em casa de Bento Vaz não demonstrava vontade nenhuma de estar com qualquer valente da tribo ?
          Só as jovens indias e os jovens valentes achavam normal que Rudá tivesse tocado os dois. Era tão bonito saber que a natureza estava presente em todos os corpos para perpetuar a criação de Nhanderuvuçu a força mágica da criação.
          Mas a pureza de coração não permite o remorso por isso, naquela noite, antes que Jaci estivesse no meio do céu, o casal se afastou, se sentaram ambos na Pedra Grande, e olhando as estrelas que piscavam, pela primeira vez, um novo guerreiro valente e uma mulher resolveram confessar um ao outro todo o seu intimo e segredos.
__ Cornéis irmão, Capora vai simbora da aldeia.
__ Pruquê Capora ?  Cornéis num qué que cê vai. Sem ocê aqui, paricia que as coisa num tinha graça, num tinha cô. Cornéis num iscutava mais a sabiá e toda veiz que via a graúna se alembrava dos seus cabelo.
__Se alembrava pru quê ? Num tinha merecimento nisso.
__Tinha sim minha fulô. Sem ocê Cornéis tinha vontade de se atirá no rio pra ficá pra sempre no reino de Iara.
__Num fala ansim Cornéis. Capora num pode ficá. Nóis num pode deixá essa mintira crecê. Num vai tê perdão.Num foi ocê que plantou o curumim ni mim.
__Nóis num fala a verdade. Eu já credito que o curumim que tá na sua barriga é meu sim. Nóis num percisa falá a verdade. Quem vai adescobri ?
__Nóis num pode minti Cornéis. O curumim que tá na minha barriga é de um cari. Capora num qué inganá ninguém. Capora vai simbora pra não invergonhá ocê e meus irmãos.
__Intão, Cornéis vai tamém. Só num vai se ocê num quisé.
__Num quero tirá ocê daqui não. Ocê é que nem a cará e aqui é seu rio. É aqui que ocê sabe vivê, é aqui qui ocê tá longe dos pirigo.
__Meu rio é seus zóio. Minha terra é ocê. Rudá juntou nóis dois e é ansim qui fico socegado. Mim dexa i com ocê Capora se não, nunca mais vai sabê de Cornéis, pruquê eu vô pro iwa e ansim co o coração livre eu vô tê sucego.
__Intão vamo junto Cornéis, mais inhantes vamo falá com os Mais Velho. Contá a verdade e í imbora.
          Nesse instante, Jaci escondeu-se atrás das nuvens e a mão de Cornéis encontrou a de Capora. Um calor penetrou o corpo dos dois e eles se abraçaram e rolaram sobre a Pedra Grande, moldando-se um ao outro como se fossem um só. Tanta agonia havia naquele abraço que o pranto dos dois formou um córrego escorrendo da face de Capora, descendo pelo queixo e se entranhando entre os dois. O peito do guerreiro e os seios de Capora foram batizados por Rudá naquele instante.
          O Conselho dos Anciãos foi unânime. Ambos tinham mentido. Não mereciam mais a honra de serem puris. Na aldeia não havia mais lugar para eles e nem seriam mais respeitados pois desprezaram o principal princípio da tribo: a verdade.
          Houve um ritual de desagravo para com os karawaras, que são os espíritos da floresta, e ali naquele momento os dois simbolicamente perdiam seus nomes. Andariam sem nomes pois que não eram mais dignos dos seus, assim mandavam os deuses. Estavam desligados de sua tribo. Ali não poderiam voltar. Os irmãos que quisessem vê-los no futuro poderiam fazê-lo mas praticando um ritual de limpeza antes e após a visita. Não poderiam trazer para a tribo o germem da mentira que tanta tristeza trazia aos deuses.
          Assim, partiram os dois. Não puderam levar nada e saíram nus. 
          Anoitecia pois todo o dia tinha sido tomado pelos rituais. Assim que se afastaram da aldeia, os dois pediram proteção, não mais aos deuses dos puris, mas ao Deus que Marinalva tinha apresentado a Capora. Esse Deus tinha um Filho que protegia as pessoas arrependidas e seu nome era Jesus Cristo. Ele iria ter pena deles.
          Com palhas, fabricaram um abrigo, e fizeram uma fogueira para afastar os predadores da noite. O homem recostou-se numa pedra e trouxe a mulher por sobre o seu peito, e ali, por toda noite velou o sono da sua companheira. Não sentia a dureza do solo mas a maciez do corpo tão querido, adormecido sobre o seu.
          A manhã veio surpreendê-los agarrados e tranquilos. Um bem te vi passou avisando que já era dia e que portanto era hora de caminhar.
          Teceram com folhas vestimentas para cobrir sua nudez e a mulher sugeriu ao homem que seguisse um caminho oposto ao que daria na casa de Bento Vaz. E foi assim que chegaram a fazenda de Samir, um libanes bonachão que vivia com Latifah. A Fazenda Hana.
          O casal era ainda bem jovem e tinham migrado para o Brasil por causa das dificuldades econômicas no seu pais. Já estavam totalmente adaptados e possuíam muitos bens pois eram de famílias muito ricas no Líbano. As famílias, querendo preservar as riquezas e temendo a crise no país conseguiram mandar o casal para o Brasil com a maior parte da fortuna, e a finalidade era só uma: aumentar o patrimônio de forma a dar garantia a todos quando fosse preciso. E isso fizeram muito bem.  
          Com tino para os negócios, Samir tinha conseguido aumentar e muito a fortuna que tinha trazido. Agora com muito dinheiro empregado e rendendo lucros, mais uma grande parte guardada, aproveitava o tempo e fazia mais dinheiro com uma enorme lavoura de café. A fazenda Hana era das mais produtivas da região. Sem filhos, o casal aproveitava a vida tornando a sua casa um lugar onde todos se sentiam bem e eram bem pagos.
          Cristãos,praticavam a caridade constantemente e foi nesse clima que receberam aquela india grávida, acompanhada de seu marido, o "homem sem nome".
          Latifah ficou encantada com a barriguinha da mulher e sem nenhuma má intenção, deu-lhe roupas, calçados e enfeites femininos, e prometeu que o bebê teria tudo do bom e do melhor enquanto vivessem na fazenda. O bebê nasceria lá com uma boa parteira e seria criado ali mesmo, em contacto com os bichos e a natureza. Ela Francisca, ajudaria nos serviços da casa, e ele, o marido, trabalharia na lavoura, e ambos teriam um salário. 
          Ficou horrorizada ao saber que o homem não tinha nome,nem tinha sido batizado. Mandou chamar o padre na fazenda para ensinar um pouco da doutrina e batizar o rapaz. Em poucos dias isso foi feito e no dia do batismo ele escolheu chamar-se Francisco de Jesus. Dentro do seu coração já amava os deuses cristãos que não se ofendiam com as criaturas e eram só bondade e perdão.
          Francisco de Jesus e Francisca Perciliana de Jesus receberam uma pequena casinha do lado da fazenda para ali viverem os dias que agora eram cheios da mais pura alegria. 
          A casinha recebeu móveis rústicos que o habilidoso Francisco fazia e até um balaio ele teceu com palha de palmeira e que serviria de berço para quando o neném chegasse. O balaio ficava dependurado no eitão da casinha por uma corda também trançada com palhas e serviria para balançar a criança quando chorasse.
          As roupinhas foram sendo feitas por Latifah e Francisca que rapidamente aprendeu a costurar, e quando chegou o tempo, tudo estava pronto para receber a nova criatura.
          Francisca começou a sentir as dores no entardecer e entrou a noite naquela agonia, porém assim que a parteira chegou foi tudo muito rápido. Na salinha Francisco nervoso olhava Jaci da janela e não sabia a quem pedir proteção, se a Ceuci ou a Virgem Maria. Na duvida, pedia as duas. E não conseguia parar de andar de um lado para o outro. Da porta do quarto até a janela mais de mil vezes, até ouvir o chorinho espantar o medo.
          Com mais um pouco mandaram ele entrar. Francisca estava deitada, pálida como a luz noturna, mas bela como a flor do campo. Alisou o cabelo dela, acariciou sua fina mão e deitou a cabeça sobre seu peito e chorou. Enquanto ele chorava e suas lágrimas molhavam o lençol que cobria seu corpo, ela o acariciava e lhe balbuciava palavras doces.
          Latifah chamou com seu sotaque forte: Ei, olha seu menina. Anda !
          Entregou o bebê enrolado num paninho fino. Era uma menina !!! Branquinha, branquinha !!! O pinguinho de cabelos era de um amarelo avermelhado e parecia a penugem dos patinhos novos.
Pegou a menina com muito cuidado e foi pra janela. "Óia Jaci, ela é mais bunita que ocê ! Essa á a fia que eu quis pruquê ela brotô no chão da minha vida."
          Não tardou a acontecer o batizado. Ali naquela fazenda era importante logo logo tornar-se cristão. Afinal Deus era o Criador de todas as coisas e criaturas e Cristo era o Salvador de todos.
Ao receber as águas do batismo a linda menina recebeu o nome de Maria Líbia da Conceição. 
          Maria da Conceição em homenagem a Mãe de Jesus Cristo, e Líbia para homenagear o país  onde Samir e Latifah tinham nascido.
          Aquela seria a minha saudosa avó.


  

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