domingo, 14 de fevereiro de 2021

XIII - As cobras da cidade.

 

Um dia, Manega foi passear na casa de Latifah levando a filha. Costumava fazer essas visitas sempre para Dorony brincar no jardim da casa e costumava demorar bastante. Nesse dia, por causa do tempo virando, resolveu voltar mais cedo pra casa, e foi surpreendida, encontrando Benjamim, com a filha de santo que a substituía cambonando, na sua própria cama, na maior intimidade.

Não era mulher de ficar quieta. Apanhou a vassoura e meteu bordoada à torto e à direito. Trazia Dorony enganchada na cintura e mesmo assim, fez um escândalo danado.

Bateu, correu atrás da mulher pelo quintal, quebrou pratos e jogou panelas pro alto. Entrou dentro do terreiro feito doida e começou a derrubar tudo pelo chão. Dorony enganchada na cintura...

Alguém pegou a menina. Era Francisca que tinha vindo trazer as duas e já estava voltando para a casa de Latifah quando o “sururú” começou. Voltou correndo a tempo de pegar a neta.

 Meio sem entender o que estava acontecendo, pedia à filha que tivesse calma. Pensou que ela estava “incorporada”. Não sabia o que fazer.

Manega começou a quebrar as “quartinhas”, as louças dos “santos”, totalmente enfurecida. Veio gente de tudo quanto é lado ! Mas Benjamim não ia passar aquela vergonha sozinho. Pegou Manega pelos cabelos e tentou jogá-la no chão. Não sabia que já tinham ido avisar ao pai de sua mulher. Francisco entrou porta à dentro feito um touro. Com uma marrada só derrubou Benjamim que não teve mais reação. Segurou e abraçou a filha, e só então ela se acalmou. Olhou o pai e começou a chorar.

A amante de Benjamim, seminua, foi trazida por outro filho de santo para pegar o resto de suas roupas e depois de vestida, parou em prantos em frente a Manega. Disse estar grávida de Benjamim e que os encontros deles já aconteciam antes da pequena Dorony nascer.

Sem uma palavra, Manega tomou a mão de seu pai e o puxou em direção à saída do barracão onde Francisca já estava com a bebê no colo.

Ao passar por sua mãe, tomou sua mão também e seguiram rua abaixo em direção à subida da Petrina. Nem uma vez olhou para trás e Benjamim também não a seguiu.

Ele se levantou, começou a arrumar a bagunça que havia no local sem olhar pra ninguém. Alguns filhos da casa foram ajudando, os curiosos começaram a ir embora e a noite foi avançando sobre todo estrago causado naquele lugar.

Quando chegaram em casa, Chico e Francisca, mandaram Manega tomar banho, cuidar da sua pequenina se deitar na cama deles e descansar. Amanhã seria um novo dia.

Francisca fez um chá de ervas que deu à filha, e preparou um leitinho pra neta.

Muito rápidamente as duas estavam dormindo.

Ai então, Capora e Cornéis se deram as mãos, se sentaram num banquinho do lado de fora e ficaram conversando com a lua e as estrelas que agora brilhavam no céu. Parece até que tinham armado aquela chuva mais cedo de propósito, pra Manega descobrir a falsidade de seu homem. Ali dormiram, um encostado no outro como nos velhos tempos, lá na Fazenda Hanah.

Quando o dia nasceu, veio encontrar os dois ali juntinhos como se tivessem passado apenas alguns minutos.

Os gritos de Dorony fizeram com que Francisca desse um pulo e corresse para dentro. Ah, lá no quarto, Manega ainda dormia, mas Dorony já estava aprontando sentada debaixo do móvel da máquina de costura, dançando e gritando a mãe. Quando viu Francisca correu desajeitada, as fraldas caindo pelas pernas abaixo e pulou no colo da avó.

___ “Vovó Chiquinha!!! Vovó Chiquinha !!!  Nenê qué mamá !!!”

 Chico entrou porta a dentro todo sorridente.

___ “Então ocê é Nenê, né? Nenê do Vovô Chico !  Vem cá minha cocadinha branca.”

Engraçado é que daquele dia em diante Chico, imitando o que fizera com a filha, passou a chamar a neta de Nenê, e assim a pequenina ficou com dois apelidos: Doró e Nenê !!! E atendia quando chamada por qualquer um deles, parecendo achar muito divertido ter dois nomes.

Manega levantou e foi cuidar da filha, enquanto Francisca se preparava para ir para a casa de Latifah, mas falou que assim que pudesse vinha em casa. Pediu ao Marido para ficar que avisaria a Samir da necessidade de Francisco ficar em casa porque com certeza Benjamim ia aparecer por lá e Manega não podia estar sozinha.

Mal Francisca saiu, aconteceu o que ela pressentira. Benjamim chegou, mas veio manso. Queria conversar com Manega na paz. Francisco disse que ia estar do lado e não adiantava fazer pressão. Qualquer coisa que eles resolvessem, ele tinha que estar sabendo e não abria mão disso, afinal Manega era sua filha única e só tinha ele para protegê-la.

Ela, Manega, não queria conversa, mas foi aconselhada pelo pai a ouvir e decidir com seu marido o que fariam dali para a frente. Aceitou, mandou Benjamim entrar, ofereceu um café e se sentou para escutar o que ele tinha a dizer.

Chico puxou um banquinho, pegou o canivete, puxou um pouco de fumo da gaveta e começou a picar para preparar um cigarro.

Dorony não tinha muita intimidade com o pai, por isso, muito desconfiada, ficou perto das pernas da mãe e de olho no avô. Parecia entender o que estava acontecendo.

Benjamim estava meio sem graça e de olhos baixos parecia não ter coragem de falar nada ou não encontrar o que falar. Manega então se adiantou:

___ Diga, Beija. O que é que você quer comigo agora ?

___ Vim te buscar mais Dorony. Tu é minha mulhé, num tem cabimento vim dá trabáio aos teus pais.

___ Beija, vou falar só uma vez. É para sempre. Não volto mais nunca pra sua casa.

___ Mas isso num tem cabimento, nega. Tu é minha mulhé.

___ Uma das suas mulheres, isso é o que sou. Não volto mais mesmo. Nem casados no papel nós somos. Você registrou Dorony mas nunca ligou pra ela. Agora tem sua cunhã  lá esperando filho teu. Fica com ela e faz bom proveito porque eu não te quero mais.

___E se eu te pedi perdão, nega ?

___Não tem o que perdoar. Não te tenho raiva nem mágoa. Você é assim, sempre foi e nunca vai deixar de ser. Eu que não quero mais essa vida pra mim. Vou trabalhar. Sei ler, escrever e contar e vou procurar emprego. Vou conseguir numa loja, no hotel do Seu Samir. Qualquer lugar. Voltar é que eu não volto.

___Intão, vô tomá Dorony de ti, nega. Como que uma mulhé sozinha vai cuidá de uma menina ???

___ Sózinha não – Francisco entrou na conversa – ela tem eu e a mãe dela pra ajudá a cuidá da minina. Se ocê quisé vai no juiz, mas vai tê que ispricá comé que tem duas muié dentro de casa. Uma com uma fia de dois  anos e a outra buchuda. Vamo vê se argum juiz vai te dá direito.

___Eu não quero brigá, mas quero levá minha mulhé e minha fia de vorta.

___ Pois se ela num qué – disse Francisco – num vai vortá. É mio ocê vortá prá trás e isquecê minha Manega.

___E as obrigação dos santo docês, cume que vai ficá ?  Ocês são meus fios de santo.

___Olha Beija, -disse Manega- você faz o que quiser com nossa louça. Se quiser guardar, guarda. Se quiser me devolver, devolve e se quiser pode jogar fora. Eu não acredito em nada daquilo mais. De hoje em diante eu nunca mais piso num terreiro de macumba. Quero esquecer tudo aquilo.

___ Intão eu vou imbora. Mas lá de casa Manega, tu não tira nada. Vô guardá a louça e cuidá dos orixás. Se um dia tu fô pra ôtra casa de santo, tu vai lá buscá.

___Nem precisa esperar Benjamim. Lá eu não volto mais.

___Como é que eu vô vê a Dorony ?

___ Quando quisé vem aqui – Francisco avisou – Ela vai ta sempre aqui.

___Vô trazê umas coisas pra ela...

___ Num percisa, mas se truxé a gente aceita. Agora vai Benjamim... Vai vivê sua vida e dexa minha fia que eu cuido dela.

Benjamim saiu pisando duro e seu pensamento era só vingança. Ia deixar aquela sem vergonha pelada, sem roupa. Da casa dele ela não ia tirar nada!!! Queria ver ela pedir de joelho pra voltar. Ia preparar um bom trabalho com as coisas do santo deles. Eles iam ver a vira volta que a vida ia dar. Iam ter que pedir arrego. Ah, isso iam. O que era deles estava guardado !

Quando chegou em casa, sua nova mulher o esperava e ficou aliviada quando viu ele chegando sozinho. Ele estava de cara amarrada, mas depois passava.

Agora era aprontar o terreiro, ajeitar tudo que as consultas iam começar na parte da tarde. Era dia de ganhar dinheiro, e ela estava ali pra cambonar os santos.

 

Lá no Morro da Petrina, na parte da tarde, Francisca chegou com Latifah e Samira, trazendo malas de roupas e calçados para Manega e Dorony e vinham com uma proposta de Samir. Na semana seguinte a família se mudaria para um casarão que eles  tinha lá na Rua do Coqueiro.

A casa ali era muito pequena e Dorony precisava de mais espaço. Também ficariam mais perto da casa de Latifah.

 Manega podia descansar aquela semana e na semana seguinte começaria a trabalhar no Grande Hotel como camareira. Assim que houvesse uma vaga melhor ela seria promovida. Por enquanto era a única vaga que tinha, mas apesar de ser um salário baixo, dava pra ir vivendo.

Francisco continuaria com Samir ajudando com os mascates e no hotel e Francisca continuaria na casa de Latifah, podendo levar Dorony todos os dias, até as coisas se assentarem.

Tudo combinado, a vida foi seguindo em frente. Mudaram-se e deixaram a casa da Rua da Petrina fechada. O casarão era tão grande, que mesmo depois de tudo arrumado nos lugares, parecia que estava vazio. Quase em frente ficava a venda de Latifah, e era costume os mascates pararem ali para abastecer suas cargas, pois lá é  que pegavam as mercadorias com que iriam trabalhar durante o mês, visitando as fazendas distantes.

 O que não tinha ali normalmente, Samir comprava em outro local e na época certa que os mascates começavam a chegar, Latifah já tinha tudo preparado.

 Era um sobrado de cômodos grandes que funcionava na verdade como um depósito na parte de cima, e na parte de baixo eram feitas as vendas no varejo. Quando o movimento ficava muito grande eles contratavam ajudantes temporários e o serviço transcorria em tempo sem problemas.

Benjamim quase nunca aparecia, e quando vinha ver Dorony, mal se demorava. Não era carinhoso e nem tinha como agradar a filha, por isso trazia um pirulito, um par de meias e coisas assim.

Sentava na escada do casarão, sempre quando todos estavam em casa, e ficava olhando a filha brincar com algumas outras crianças.

Seus olhares eram mais pra Manega que estava cada vez mais bonita. Mas ela custava a aparecer. Ficava por dentro de casa enquanto ele estava lá, mas ele não tirava os olhos sempre que ela passava fazendo uma coisa ou outra.

Tinha voltado a desejar a mulher, mas percebia que ela não o queria mais, apesar de não ter arrumado outro.

Também naquele tempo e ali naquela cidade, mulher largada não arrumava homem que prestasse. Ninguém queria . Mulher largada era um tabu. Ele podia ficar sossegado que ela não ia ficar com outro homem.

 O que restava ali para as mulheres largadas era a Zona de baixo meretrício, mas isso não era pra Manega que estava trabalhando. Ela podia contar com a família de Latifah.

Enquanto os Libaneses estivessem protegendo eles, Manega não precisaria de ninguém.

Benjamim ficava pensativo, buscando um jeito de fazer Manega se interessar por ele. Começou a agradar mais a menina e a procurar mais assunto com Francisco.

As vezes entrava na venda de Latifah para comprar alguma coisa, mas o que ninguém sabia é que o espírito ruim de Benjamim já estava planejando uma maneira de acabar com toda aquele harmonia que existia ali e que o deixava de fora.

 Começou a articular dentro do seu coração uma maneira de fazer mal à família de Samir, para assim prejudicar a família de Manega.

O destino infelizmente ia ajudar...

 

 

 

 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

XII - O que faz a vida é o correr dos dias.

 

Manega, grávida, sentiu o peso de tantas responsabilidades, e principalmente percebeu que não tinha o dom do charlatanismo que era a maior marca do caráter do seu homem. 

Nem pensava em aborto porque era filha de puris, não podia ir contra as leis dos seus ancestrais. Iria ter aquela criança e tocar a vida como uma verdadeira guerreira, feito sua mãe Capora que não desistiu dela e lhe ensinou todos os preceitos Puris. Agora, principalmente, sendo uma Yaô no terreiro não podia dar mau exemplo e tinha que adotar também os preceitos da religião que estava seguindo e que da mesma forma que as leis puris, proibia o aborto.

Manega se assustou muito quando uma entidade incorporada em Benjamim, lhe  perguntou se queria se livrar da gravidez.

Era um Exu velho que trabalhava muito para o mal, mas que Benjamim adorava incorporar. Era a entidade que mais lhe rendia dinheiro e agrados, e era incrível ver como tanta gente tinha prazer em ver o mal ser praticado. Em pagar para ver o mal de outra pessoa.

A jovem mulher disse com muito jeitinho que ia ter a criança, pois  tinha vontade de ser mãe, e que “o Sr. não se preocupasse”, que qualquer coisa ela avisaria a ele.

Ele, o Exu, deu duas pitadas no charuto, jogou a fumaça sobre ela e disse:

___“Ma suncê fica avisada que essa sua barrigada, só vai te dar pruveito agora. Num tem futuro pra suncê com ela. Mas se qué, deixa vim. Vai sê muito deferente de suncê.”

 E saiu andando debochando com uma risada alucinada.

Manega se mudou de vez pro terreiro e foi viver com Benjamim como um casal. Continuava freqüentando as sessões de macumba, mas estava com a barriga cada vez maior e tinha muita dificuldade para as danças e para os atendimentos.

O marido sempre tinha sido bem ignorante, mas como eles só viviam rodeados de gente durante os dias e as noites, era difícil perceber aquela ignorância dirigida à ela exatamente. Só quando começou a ficar mais no quarto por causa da barriga e do desconforto, é que viu o quanto ele se importava só consigo  mesmo e era orgulhoso ostentando para todos os seus “poderes”.

 Dificilmente Manega o via, pois ele  ficava mais incorporado do que em si próprio, e ela passou a gostar mais de conviver com as entidades que ele incorporava porque se sentia mais bem tratada. Com a criança que ela esperava ele nem se importava. Parecia que era nada. Seus carinhos só aconteciam com a mulher nos momentos íntimos, fora isso ele não perguntava nem como ela estava se sentindo.

Francisca continuava indo ao terreiro normalmente e sempre procurava a filha no quarto levando alguma comidinha gostosa e querendo saber do neto. Do neto não, da neta. Ela tinha certeza que o bebê da filha seria uma menina. Francisco, meio desajeitado, abraçava a filha, perguntava se estava bem e sempre avisava:

___“Óia Manega, a hora que ocê quisé vortá pra casa, pode vortá. Seu quartim ta lá fechado arrumado. A Chica cuida , barre todo dia... Até umas roupa tem no guarda roupa, que ocê dexô. Eu quiria que ocê tivesse lá com nós. Ia tê a criança lá, nós ajudava a cuidá. Mas ocê num qué...”

Manega abraçava o pai e nessa hora o contraste da cor de seus cabelos louros no peito negro do pai era tão forte, que parecia a lua passeando no céu escuro.

___ “Não pai, vou ter o nenê aqui. Tá tudo certo. Tem muita gente na casa pra me ajudar. E assim que eu começar a sentir as dores eu mando avisar, pode deixar.”

Francisca avisava logo:

___“Quem vai apará minha neta sô eu. Ai de ocê Manega, se chamá outra partera. Ocê sintiu dô, manda logo me chamá. Se eu num tivé pur aqui,  eu venho num pulo. É eu que vô apará essa curumim !!!”

Ela, Francisca, nem sonhava que Manega já não estava tão feliz, mas Chico parecia perceber que alguma coisa não ia bem. Por isso falava tanto na volta de Manega para casa.

Mas o dia finalmente chegou. Quando Manega começou a sentir as dores a macumba mal  tinha acabado e Francisca ainda estava no terreiro. Foi um Deus nos acuda !!! Ela  corria de um lado para o outro orientando as filhas da casa para os procedimentos pro parto, e aí, quem ia embora resolveu esperar, quem tinha ido, resolveu voltar e o terreiro encheu de novo.

Lá dentro do quarto do casal  Manega foi ajeitada para dar a luz como as índias puris. De cócoras. Era o dia 14 de novembro de 1927 !

Não tinha medo e era muito valente. Aquilo era só uma dorzinha. Ia passar logo assim que a criança nascesse.

Francisca sentou-se de frente pra filha no chão, e ela, a parturiente agachada, sentia os movimentos da criança dentro do seu ventre. Toda a água já tinha saído e o bebê forçava seu caminho em direção à luz. Só coroou uma vez. Na segunda já botou aquela carinha linda pra fora, e recebeu as mãos da avó na sua cabeça, mas sem nenhuma força, e levada pela própria natureza, deitou-se nos lençóis imaculadamente limpos, arrumados no chão entre as pernas de sua mãe. Os dedos ágeis da avó limparam a boquinha da pequena com muito cuidado e pegando-a pelas perninhas, a ergueu no ar enquanto um chorinho manso se fazia ouvir. Parecia um canto que vinha do fundo as almas. Todos que estavam ali, ficaram encantados. Francisca cortou o cordão com uma pedra preparada para aquela ocasião. Tinha um gume entalhado, fino como de uma faca. Francisca amarrou o côto. Pegou a pedra, colocou  junto umas ervas e pós, amarrou num lenço branco que ela tinha preparado para aquela função e entregou à Francisco mandando ele guardar no embornal que sempre carregava consigo.

___ Guarda Chico, que quando o imbigo cair, vai ficá aí junto. Isso vai dá proteção à nossa curumim. Pegou a menina enrolou, abraçou e avisou: “Eu falei. É uma menina !!!” 

Benjamim tinha estado por ali, falando com um e com outro extremamente calmo. Sorrindo e bebendo cachaça na cuia. Quando Francisca avisou que era uma menina e que se ouviu o “cunhé cunhé” da recém nascida, ele sorriu mais ainda e começou a distribuir cachaça pro povo. Parecia bem feliz. Era um homem realizado.

Sua branca tinha lhe dado uma filha. Claro que ele preferia um menino, mas tinha tempo. Também, diziam as más línguas que ele tinha outros filhos com outras mulheres, e isso mais tarde veio a se confirmar, mas naquele momento ele fazia o papel de um pai feliz.

 Logo, logo, o pessoal começou a assar uma carne na brasa, e a cachaça foi rendendo até a metade do dia. Estavam festejando a chegada de mais uma menina em Manhuaçu.

Clarinha sem ser branquela igual à mãe, muito cabelo, castanho claro, encaracolados. Depois do banho tomado, vestida e agasalhada na manta, parecia uma bonequinha de louça. Mas os olhinhos fechados não deixavam saber a cor que tinham.

Francisca não largava seu  fardozinho cheia de amores. Chico andava igual bobo atrás da mulher querendo pegar também a bebê, mas quem disse que Chica deixava ?  Vovó Chiquinha já demonstrava o quanto ia ser ciumenta,

Manega tinha ficado por conta das filhas da casa e de uma preta velha que só “desincorporou” depois que todo movimento acabou.

Deu banho, penteou e deitou Manega para descansar e receber o marido, que não veio. Ficou lá por fora e depois partiu para fazer um trabalho numa fazenda em Matipó, e por lá ficou três dias. Quando voltou agiu normalmente como se nada tivesse acontecido. Quando trouxeram a bebê para ele, fez festa, brincou... sem exageros, depois entregou para a mãe e pediu comida. Vida que voltava ao normal.

Latifah e Samir foram visitar Manega logo no segundo dia e estranharam a ausência de Benjamim, mas como respeitavam muito o Pai de Santo, não comentaram nada. Só repetiam a toda hora que o que precisassem, podiam contar com eles.

Levaram de presente sacas de arroz e feijão, muito frango vivo, muitos legumes que buscaram na fazenda. Deram para a meninazinha um cordão de ouro estupendo, grosso, pesado,  com um crucifixo enorme! Era uma pequena fortuna em forma de um agrado.

 Manega imediatamente entregou o cordão a Francisco e pediu que guardasse a jóia e que guardasse segredo sobre o presente. Aquilo seria para garantir os estudos de sua filhinha, que havia de ser professora se Deus permitisse. Talvez por um pressentimento ela não quis que se falasse com Benjamim daquele agrado. Benjamim era muito esbanjador e nada de valor durava com ele. Todos concordaram e assim ficou acertado.

Latifah falou logo no batizado da pagãzinha. Era preciso se tornar cristã, mesmo tendo nascido num terreiro de macumba e sendo filha de pais macumbeiros, ora, desde que o mundo é mundo, macumbeiro é católico.

Haviam de batizar a menina logo que Manega pudesse caminhar para ir à Igreja. Como é que ia ser o nome da pequenina mesmo ? Ah, seria Dorothy, disse Manega. Mas como assim ???  De onde surgiu esse nome ?  Ninguém conhecia nenhuma Dorothy...

Ah, foi de Samira, filha da Latifah, que Manega tinha ouvido esse nome pela primeira vez. Ela, Samira, tinha uma professora que era estrangeira, e contou uma história cuja personagem principal se chamava Dorothy. O nome da história era o Maravilhoso Mágico de Oz, que encantou Samira e Manega de uma tal forma que as duas combinaram: a que tivesse uma filha primeiro, ia colocar esse nome lindo na criança. . Por isso o nome seria Dorothy...

 Todos acharam um nome difícil de escrever e até de pronunciar, pra não dizer que Francisco se mostrou horrorizado com aquela “estrangeirice” de Manega. Implorou tanto pra que não batizassem a menina com aquele nome feio que Manega concordou em mudar só um pouquinho. Seria Dorony então... O que achavam ???

Ah, aquele “pisilone” ali era muito feio !!!  mas Manega não abriu mão do “pisilone”. Ficava uma escrita bonita... Ficou toda feliz quando todos concordaram. A madrinha ia ser a Samira e o irmão Valtair. Latifah e Samir podiam consagrar.  Pronto !!!  Todos eram só sorrisos ! Felicidade total !!! 

Benjamim quando voltou concordou logo com tudo dizendo que não ia porque não gostava de igreja, mas que podiam fazer como quisessem. Ele ia batizar ela no terreiro. Ela ia  tomar banho de abô, dar uma obrigação aos seus “santos de frente”,  e os padrinhos seriam a vovó Catarina e o Seu Boiadeiro. No dia da apresentação dela no terreiro, ia ter toque a noite inteira e todos os orixás viriam trazer seu axé para a pequena Dorony. Ia ser mais bonito que lá na igreja. Mais bonito e mais animado !  Estava tudo nos conformes. Vida pra frente!

O batizado na igreja aconteceu como combinado. No domingo marcado todos foram à missa das nove, pois os batizados eram sempre as dez e meia.

Por coincidência, naquele domingo, Dorony foi a única criança a ser batizada e o padre comentou brincando que ela tinha muita sorte, era sinal de que Jesus a escolhera de forma especial.  Dorony não chorou ao receber o óleo e as águas do batismo. Pelo contrário: sorriu e abriu bem os olhinhos castanhos. Parecia apreciar todo ritual e estar muito tranqüila e feliz.

Na hora da consagração, diante da imagem de Nossa Senhora das Graças, Dorony sorria tanto para a Santa, que parecia estar vendo a Virgem sorrindo pra ela. Erguia os bracinhos como se quisesse ir para o colo da imagem e todos acharam muito estranho e interessante aquela reação.

Na hora de sair, ela chorou muito. Estava com quatro mesinhos mas parecia entender que aquele era um lugar de muita paz. Queria ficar ali, e esticava os bracinhos para a imagem de Nossa Senhora. Todos riam muito.

A apresentação no centro de Benjamim nunca aconteceu... Ele deve ter esquecido, tão ocupado andava com os fazendeiros da região, pois cada dia era chamado para um atendimento.

Manega continuava “cambonando” seu marido, mas sabia que ele fazia muita coisa errada.

 Levava num embornal coisas estranhas que usava para enganar as pessoas, como , tufos de cabelo, minhocas vivas, dentes humanos, ossos, pedaços de carne crua, pregos, alfinetes. .. Ele tinha uma destreza para fingir estar tirando certas coisas do corpo das pessoas, que era difícil não acreditar. Preparava remédios de folhas que mandava Manega buscar e tinha tanta sorte que normalmente curava as pessoas e isso aumentava sua fama.

Ele e a mulher andavam por muitas fazendas e a filhinha, ainda muito pequena, ficava com Francisca até o retorno dos pais.

Depois que Dorony nasceu, nunca mais Manega acompanhou Benjamim quando era pra passar mais de um dia. Não conseguia dormir longe da filha.

Nessas ocasiões, Benjamim levava com ele uma outra filha de santo pra ajudá-lo nos trabalhos. Durante dois anos e meio viveram assim sem problemas. Benjamim era um homem que não brincava muito com a filha, nem era muito carinhoso, mas se não carinhava, também não maltratava. Manega percebia que ele estava ficando mais tempo dentro do terreiro que no quarto deles, e quase não a procurava mais para momentos íntimos. Quando precisava de sua ajuda, ele solicitava, ela ajudava no que fosse preciso, mas algo estava bem diferente.

 


terça-feira, 21 de março de 2017

XI - Contos no Conto.

          Francisca já nada tinha da indiazinha que um dia saiu de sua aldeia com o coração partido por deixar os seus, mas que no fundo acreditava que os brancos tinham alguma coisa de superior... uma sabedoria poderosa que de certa forma poderia mudar tudo a sua volta. Achava que aquela raça era ligada aos deuses e que assim sendo, era digna da mais profunda submissão. Agora, seu coração já acumulava a desconfiança e até um certo desprezo pelos brancos. A lembrança de tudo o que havia acontecido com Bento Vaz e com o pai da Galega a perseguia e por vezes era atormentada por pesadelos alucinantes onde via-se penetrada por uma jararaca que lhe mordia as entranhas inoculando no seu interior um veneno ardente como fogo. Despertava apavorada e se agarrava com Francisco buscando no seu calor ameno o alívio para seu desespero. Quando Francisco tocava com as mãos espalmadas, as suas mãos, um frêmito de felicidade a percorria, e o amor que então acontecia assemelhava-se ao desabrochar das flores, ao despencar da cascata, ao amanhecer de um dia de sol.
      
                                           Pausa para explicar.
          Quando menina, mamãe me dizia que eu não deixasse os meninos pisarem na pontinha do meu pé porque era feio e era “saliência”.  Também não podiam tocar ou fazer cosquinhas com o dedo, nas palmas das minhas mãos. Isso era pecado e uma grande “bobiça”. O engraçado é que os meninos realmente costumavam fazer essas coisas, e mesmo quando viemos para o Rio de Janeiro, lembro que também havia esse hábito.
          Lá em Minas, quando o menino pisava a ponta do pé de uma menina, estava pedindo para namorá-la e beijá-la; quando fazia cosquinhas na palma da mão, estava pedindo “aquilo” que “uma mocinha não pode fazer. Só os casados.”
E isso acendia o imaginário feminino infantil. Só de pensar em receber uma dessas “carícias”, já  ficávamos com “fogo no rabo” e meio que provocávamos os meninos. E quando acontecia, ah, Jesus !!!  A sensação era indescritível !
          Claro que não passávamos da “pisadinha” e da “cosquinha” com medo do chão se abrir e o Capeta em pessoa vir nos buscar para o Inferno, mas que causava arrepios e desejos, lá isso causava. E éramos crianças, imagine !
          Lendo sobre os índios do Brasil, verifiquei que em algumas tribos guaranis e  tupinambás a zona erógena pode variar não estando nos órgãos sexuais ou próxima a eles. Em algumas tribos, os pés são os provocadores de excitação sexual, em outras são as mãos. Interessante porque, na tribo de Capora e de Cornéis, as mãos tinham o papel de proporcionar a libido. O ato sexual era sempre iniciado pelo encontro das mãos do casal juntas e espalmadas sobre a cabeça, de onde eram arriadas lentamente até estarem ao longo do corpo quando ainda unidas,  eram introduzidas entre os dois para só então serem separadas e serem erguidas ainda entre os dois corpos, passando pelo sexo, subindo pelo peito e alcançando o pescoço, quando já então o casal  estava tomado pelo desejo, pelo prazer e era só  emoção.
          A minha mãe contava, que ouviu de sua avó, Francisca (cristã), Capora (a india puri) ,que por conta disso, as mulheres da tribo, gostavam de excitar os valentes, manuseando as mandiocas com maliciosos movimentos. Também faziam bolas de massa de mandioca com demorado capricho, simulando carícias. Ao se alimentarem com as mãos, também movimentavam os dedos na comida, e levavam o alimento à boca com gestos sugestivos que aguçavam os desejos dos homens. Nesses momentos lançavam olhares prometedores e comprometedores, torcendo para que o passeio de Guaraci pelo céu fosse muito breve, e rogando a Tupã que Jaci trouxesse uma luz mágica e terna vibrando energia sobre os casais.
          As mãos eram tabu, e não se cumprimentava com elas pois se um rapaz tocasse as mãos de uma virgem, e se isso fosse presenciado por um ancião, já era considerado um compromisso. O cumprimento na aldeia se resumia em tocar a própria testa com a ponta dos dedos da mão esquerda, e levar essa mesma mão em seguida para tocar o próprio ombro direito. Esses gestos significavam “eu te respeito” e “sou teu amigo”. A cuia com mel era servida em seguida como boas vindas ou para testemunhar a alegria da amizade sempre renovada a cada dia.
          Não sei os costumes nas outras tribos de Puris, mas na tribo de Capora e Cornéis, o valente podia ter mais de uma mulher, mas  não podia repudiar a nenhuma durante toda sua vida, e tinha que suprir a quantas tivesse, do necessário para sobreviver, além de cuidar dos filhos até que as meninas se unissem a um parceiro, e os meninos se tornassem valentes.
          As mãos eram consideradas instrumentos sagrados dos deuses para prepararem o corpo da mulher que receberia a semente de um novo ser. Este novo ser viria para abrigar o espírito de um antepassado,  e o respeito que se tinha pelo ato sexual, originava esse quase ritual preliminar.
          Claro que o prazer era considerado porque não se foge dele, mas a responsabilidade vinha em primeiro lugar. O amor entre um valente e uma índia tinha como principal finalidade gerar vida.

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          Não só com os pesadelos Capora voltava ao passado. As vezes ao cantar alguma canção de sua tribo, ao mirar as águas do Rio Manhuaçu, ao cruzar com alguma pessoa que lhe lembrasse alguém...
         Foi através de um mascate que veio pedir emprego a Samir, que ela ficou sabendo de tudo o que aconteceu com a família de Bento Vaz. Marinalva morrera levando no ventre a criança que esperava. Bento Vaz enlouquecera e vivia preso num quartinho no sótão de uma casa que tinha comprado pouco antes da morte da mulher. O pai de  Marinalva  também tinha morrido em conseqüências misteriosas. Tinha sido  encontrado com marcas, como se tivesse sido atacado por alguma fera mas as mordidas que tinha pelo corpo, pareciam humanas. Ninguém entendeu.
A mercearia ia melhor do que nunca, administrada pela Sra. Perciliana que se revelara uma ótima negociante. A nova rica, vestida com roupas caras, vivia pra cima e pra baixo numa charrete elegante, sempre acompanhada de seu ajudante. Diziam as más línguas que tarde da noite, o rapaz deixava o quartinho atrás do comércio, entrava sorrateiramente na casa grande, para dormir aconchegado entre lençóis cheirosos, nos braços da patroa. Isso diziam as más línguas...
          Dona Perciliana só não internava Bento Vaz num hospício, por causa de Rashid. Numa esperteza sem tamanho, Bento, quando ainda em gozo de suas faculdades mentais, deu a Rashid um documento, passando para o mesmo todos os seus bens caso lhe acontecesse alguma coisa.. Era um documento legal do qual todos tinham conhecimento. Ele dizia que era para garantir seu patrimônio, e em caso de sua falta um dia, seria a forma de agradecimento por todo o bem que o amigo de seu pai lhe fizera.
          Acontecendo então o desvario do comerciante, Rashid exigiu que ele fosse muito bem cuidado pela sogra, sob pena de caso isso não acontecesse, ter que abandonar a casa e o comércio, deixando por conta dele a administração e o cuidado do doente. Dos males, o menor.  Bento comia, bebia, dormia e era acompanhado pelo médico da cidade. Rashid também prometeu a Perciliana a posse total dos bens quando seu protegido morresse. Essa promessa animava Perciliana.

                                                                A Partida de Marinalva.
          Nhanderuvuçu adormeceu Capora e levou seu espírito para conhecer os detalhes de tão cruel desfecho. Foi assim:
Francisca deitou-se para dormir depois de falar com seus deuses. Havia pensado em Marinalva quando no céu passou uma “rasga mortalha” com seu grito fúnebre, logo no comecinho da noite.. Já sabia que a Galega tinha partido para a morada de seus deuses, mas nem imaginava como isso tinha acontecido. Pensou com tristeza em tudo que presenciou na casa de Bento Vaz e parecia-lhe ver os olhos azuis de Marinalva a flutuar no espaço. Lembrou da risada bonita da menina quando estavam no banho de cachoeira ou quando apostavam corrida para ver quem mergulhava primeiro. Lembrou do corpo branquinho feito mandioca descascada, dos cabelos avermelhados caindo em cachos pelas costas, das mãos de dedos longos e nervosos. Dormiu na saudade daquela amizade que durara tão pouco tempo. Seu espirito então saiu do corpo e voou por sobre rios, vilas e matas, indo parar na porta da casa onde no passado vivera com Marinalva e seu marido Bento Vaz. A escada com 3 degraus que dava acesso à sala, parecia ter vida. A roseira que lançava seus galhos subindo pelo madeirame, exibia rosas vermelhas brilhantes e cheirosas. Parecia estar amanhecendo e o orvalho estava presente tornando o verde do capinzal que rodeava o caminho, mais intenso e rutilante. De repente a porta se abre e eis que surge Marinalva com a barriga enorme, magra e vacilante. Parecia estar muito doente. Mesmo cambaleando seguiu pelo caminho de terra e sem oihar para trás, embrenhou-se mata a dentro rumo ao rio. Capora seguiu atrás chamando pela Galega que parecia não vê-la. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, Capora seguiu a moça preocupada. Pelo tamanho da barriga, o tempo do parto estava próximo e ela não deveria afastar-se tanto de casa.
          Na beira do rio, Marinalva se sentou, colocou os pés dentro da água e ficou ali  parada olhando o nada. De seus olhos azuis, grossos pingos caiam indo piriricando com as águas que corriam indiferentes. A índia queria perguntar o que estava acontecendo mas já percebera que a menina não a via ou ouvia. Assim ficou Marinalva por um bom tempo, olhando o nada e chorando. De repente deu um sorriso, ficou em pé, despiu-se e entrou no rio. A índia estremeceu ! Todos sabem que ninguém deve entrar nas águas de um rio no meio da mata, sozinho. Quantas vezes tinha  falado isso para a Galega. Agora, se alguma coisa acontecesse, quem poderia ajudá-la ?
          Pesada por causa da barriga, Nalva foi caminhando pelo raso, brincava com a água trazendo as mãos em concha bem cheias e despejando sobre a barriga.Molhava o rosto sardento, olhando os raios de sol que vinham enfeitar a correnteza com um brilho prateado. Um passo, outro... uma pequena braçada e Capora viu quando o braço da Iara saiu da água e abraçou Marinalva pelo pescoço. Olhou horrorizada as águas se fechando sobre a menina, e correu, ou voou até lá.  Mergulhou ansiosa para tentar puxá-la, mas tudo o que viu sob aquele mar, foram dois grandes olhos negros, vivos, expressivos, estáticos. Olhos de morte :os olhos da Iara !
          O soluço de Capora assustou os pássaros que se calaram. A graúna respondeu pouco depois com um canto longo e triste. Nada mais... Nada mais ali. Só os raios do sol furando a vegetação e mergulhando no rio.

                                                      A Doideira de Bento Vaz
          Ainda não estava refeita do susto quando se viu em mata fechada. As árvores altas escureciam tudo, e a vegetação rasteira enroscava-se em seus pés. De repente ouviu um grito. Correu naquela direção e de repente viu-se na frente de Bento Vaz. Não havia sorriso nos seus lábios e seus olhos tinham um brilho estranho. Chamava por  Marinalva  e a procurava por detrás das árvores e  por entre os arbustos.Usava a capa comprida que costumava vestir à noite quando voltava da mercearia para casa. A capa que servia para encobrir suas porcariadas, e suas maldades com a inocente esposa. Abria a capa como se ela fosse as asas de um demônio como Jurupari e parecia que ia voar. A índia escondeu-se, achando que ele pudesse vê-la, mas o que aconteceu a seguir foi o horror dos horrores.
          Deslizando silenciosamente entre as árvores, uma enorme jibóia se aproximava. Seus olhos faiscavam cada vez que encontrava uma réstia de luz. Ameaçadora e terrível a cobra começou a subir numa árvore e lentamente foi ganhando o seu topo. O corpo dela assemelhava-se ao tronco da árvore, e de longe era impossível definir onde ela estava.
          Embaixo, o homem continuava sua busca, ora dizendo palavras carinhosas, ora fazendo ameaças absurdas à sua mulher, porém não a encontrava. Em determinado momento, ele colocou-se bem embaixo da árvore onde a jibóia estava. Capora, de seu esconderijo, tremia de medo, não da cobra, mas do homem. Temia que ele a encontrasse e mais ainda, que ele encontrasse Marinalva fraca e indefesa. Olhou à sua volta para ver se havia alguma coisa que pudesse usar como arma, e então o grito de horror invadiu a mata. Dependurada na árvore, presa pela cauda, a jibóia arriara meio corpo e envolvera Bento Vaz em seus anéis. O homem gritava enquanto se esforçava para se soltar. Seus olhos saltavam das órbitas, e a capa parecia as asas de um morcego. As mãos estavam presas ao longo do corpo e ele só conseguia se remexer como um verme, sem no  entanto conseguir se soltar. A cobra revirou-se, trouxe o homem para o centro do seu corpo e de seus anéis, e veio com sua cabeçorra em direção à cabeça do desesperado rapaz. Capora fechou os olhos. Cobriu o rosto com as mãos. Não ouviu mais gritos. Acabou-se ! Abriu lentamente os olhos e o que viu foi horripilante: a cara de jibóia de frente com o rosto de Bento. Os olhos traiçoeiros fitavam os olhos aterrorizados do homem, enquanto a língua bifurcada explorava o medo dele. Ele já não gritava. Só os olhos parecia que iam saltar da face e não havia mais reação nenhuma dele. Foi aí que a jibóia o soltou. Estava suspenso a uma certa altura do chão, caiu portanto causando um ruído oco, e ali ficou. Olhar fixo na cobra que foi se transformando num caboclinho de cabelos vermelhos, com os pés virados para trás. O Caipora !!!  A mata encobriu seu protetor que em três saltos e uma gargalhada sumiu, deixando o grande Bento a dizer coisas sem nexo, rir e chorar ao mesmo tempo. Completamente desvairado.

                                                               O Velho e a Morte.
          Nem bem se recobrara da surpresa, já a índia estava em outro local. Era um lugar muito bonito, com um rio encachoeirado límpido como um céu de verão. A vegetação da beira era muito florida e borboletas voavam colorindo o lugar com suas asas multicores. Capora subiu numa árvore para melhor apreciar aquele maravilhoso cenário. Recostou-se num galho  pois uma brisa suave convidava ao silêncio para se ouvir a voz da mata.
          Ainda no impacto da beleza, Capora viu o pai da Galega chegar trazendo pela mão uma indiazinha ainda pequena. A menina lutava para se soltar, mas ele a segurava com firmeza enquanto ria alucinadamente. A menina já tinha pequeninos seios e seu corpinho franzino começava a tomar forma. De dentro do coração da índia brotou um frio que lhe percorreu o corpo até chegar aos cabelos. Viu o Velho alisar os cabelos da inocente e deixar as mãos imundas descerem até as ancas. Foi aí que deu-se o inesperado: ouviu-se um rugido feroz e aquele pequeno ser agigantou-se na agilidade. Parecia ter muitos braços, muitas pernas... Os cabelos voavam de um lado para o outro enquanto as unhas iam rasgando roupas e carne. O sangue escorria dos ferimentos. A boquinha pequena arrancava pedaços de carne que ela cuspia para o lado, voltando a morder em outro lugar. Em pouco tempo, pouco restava da roupa do Velho asqueroso, e ele já não lutava e nem gritava mais. Ai, a pequena índia num salto alcançou a árvore onde Capora estava. Era a própria visão de um demônio com olhos amarelos e a  boca ensangüentada.Dali a indiazinha pulou para a outra árvore e já não era uma menina, mas uma enorme pintada de ancas luzidias e patas ligeiras. Foi num relance mata à dentro, urrando para o silencio. Só Capora, assustada ficou ali estática, sem conseguir mover um músculo do corpo e tremendo de medo da onça voltar. De repente, sentiu a árvore se balançar e sacudir. Quando começou a cair, viu-se do lado de Francisco que a chamava com carinho. Nhanderuvuçu havia libertado seu espírito, depois de lhe contar os segredos da mata. Agora ela sabia tudo o que havia acontecido e tinha a certeza de que a natureza fizera justiça.
          Tudo tem seus fundamentos, suas razões e seus mistérios. Capora pensou no passado. Não podia mais se dizer uma puri, mas também não era uma branca, porém agora sabia que seus deuses não a haviam abandonado.
          Confirmava-se seu pensamento: os brancos tinham o poder de mudar vidas sim. A sua mudara, a de Francisco mudara. Os brancos só não sabiam que o poder da natureza era maior que o deles.
        




domingo, 30 de outubro de 2016

X - Tempo, tempo... Senhor das alegrias e das tristezas.

          No tempo certo Latifah deu à luz. Uma linda menina veio para aumentar ainda mais a união do casal. Nasceu em casa. Não deu tempo para que Latifah fôsse para o consultório do Dr. Jorge, e nem deu tempo para chamá-lo.
          Assim que chegou na casa da patroa pela manhã Francisca escutou seu grito. Correu para o quarto e lá chegando, viu a mulher de pé, a camisola suspensa, e ao seu redor uma enorme poça de água. A patroa segurava a camisola e ao mesmo tempo segurava a barriga como se pudesse deter a criança que forçava a própria saída.
          Francisca tirou as colchas da cama deixando só o lençol e ali deitou Latifah que havia agarrado seu pescoço e tinha os olhos arregalados quase saltando. O único som que emitia era um gemido contido e seus lábios tremiam como se tivesse febre.
          As palavras calmas da amiga, foram fazendo o efeito de tranquilizar a parturiente que soltou o pescoço dela e se deitou totalmente na cama posicionando-se como a natureza intui. 
          Naquele momento em que as contrações diminuiram, Francisca correu a por água no fogo, trazer toalhas e lençóis limpos e a chamar a criada da casa para ajudá-la. Na volta ao quarto, percebeu que a criança estava prestes a nascer, preparou-se portanto para apará-la. Ajudou Latifah a se levantar e a se posicionar junto à cama. Colocou as mãos da patroa sobre o madeirame que formava um desenho esférico nos pés da cama, mandou que ela abrisse as pernas e entre elas, no chão, colocou dois lençóis limpos e dobrados, mandou então que ela se agachasse e fizesse força quando a dor viesse.
          Nova contração, muita força de Latifah e a menina nasceu nas mãos de Francisca que prontamente a trouxe para si, ainda presa ao cordão e à placenta. Não foi preciso dar palmada, bastou que sua boquinha fosse limpa pelo dedo hábil de Francisca e ela já gritava e esperneava.
          A essa altura, Samir, alertado pelos outros criados, entrava casa à dentro feito louco. Tão alterado estava que errou a porta do quarto entrando na cozinha, no banheiro, e só parou quando foi contido pelo Dr. Jorge que estava chegando também chamado pelos empregados da casa. Entraram os dois no quarto mas já sabiam que a criança tinha nascido. Só um surdo não ouviria aquele berreiro !
          Ao doutor coube cortar o cordão e fazer as limpezas necessárias no bebê, entregando-a a Francisca para dar-lhe o primeiro banho e vestí-la. Foi então cuidar de Latifah que pedia para ver o bebê mas estava enfraquecida e tonta, ainda de pé, agarrada na cama. 
          Depois de tudo preparado e cuidado, a menina foi trazida para o casal que já estava abraçadinho, ela deitada, ele na beirada da cama, curvado sobre a mulher fazendo carinho no seu rosto. 
          De nada adiantou ter dado banho e vestido a recém nascida. A nova mãezinha tirou toda a roupinha dela e conferiu cada pedacinho, dando gritinhos de alegria como se estivesse descobrindo um tesouro precioso na harmonia daquele corpinho tão frágil e tão maravilhoso.
          Samir quando conseguiu pegar a filha no colo não sabia o que fazer. Desajeitado precisou da ajuda de Francisca para andar com ela pra lá e prá cá. Emitia sons inteligíveis e ria feliz. Balançava a bebê nos braços vigorosos como se ela fosse uma florzinha recém colhida. Falava em seu idioma coisas maravilhosas que seu coração ditava, e beijava um por um, os dedinhos róseos da filhinha. A ternura do pai era tão evidente que Francisca viu-se de repente chorando por entender que cada um é bom a seu modo. Cada um ama da maneira que sabe.  Pensou em Manega e sentiu um desejo enorme de abraçá-la, sentiu uma saudade muito grande de Chico, seu homem, que sabia tocar suas mãos fazendo com que todo seu ser estremecesse em ansiedade.
          Samira seria o nome da menina. Samira quer dizer vigorosa, cheia de vida, e aquela bebezinha era assim. Não parava um minuto, ria e chorava com muita facilidade. Alimentava-se bem e desenvolvia-se plenamente. Com pouco tempo de vida já era linda e meiga. Todos gostavam dela e ela não dava trabalho nenhum.
          Desde que Samira nasceu, Manega começou a acompanhar Francisca para a casa de Latifah e tornaram-se companheiras inseparáveis. Os primeiros passos de Samira, foram incentivados por Manega que tinha pressa em vê-la andando para acompanhá-la em suas traquinagens e a pequerrucha já aos nove meses dava os primeiros passos e não demorou a estar correndo pela casa e quintal. Dava gosto vê-las juntas.
          Latifah deu à luz a mais dois filhos homens, gêmeos, Zayn e Valtair. Aí sim, a casa ficou cheia de crianças. 
          Todos os adultos trabalhando, a fazenda Hana produzindo, Latifah abriu uma pequena venda onde se distraía durante o dia com Samir, enquanto Francisca cuidava da casa como uma governanta. 
          Em Francisca e seu marido não havia ambição. Ganhavam o suficiente para viver e cuidar de Manega. Chico amava a enteada como se fosse filha dele, e quando alguém reparava na diferença de cor ele brincava dizendo que tinha pintado a filha quando ela nasceu. As pessoas naquele tempo sabiam respeitar um homem e portanto, não se falava mais no assunto. 
          As horas viravam dias, os dias semanas, as semanas meses e os meses viravam anos. 
          A tranquilidade às vezes dava sustos na forma de pequenos prejuízos, de algumas doencinhas, algumas traquinagens mais sérias, algumas cenas de ciúme... Coisas do cotidiano.
          A cidade crescia. Novas pessoas vinham fazer parte do dia a dia... Tudo na normalidade.
          Chica e Chico, agora acostumados com a vida dos brancos, quase não lembravam mais da aldeia. Repetiam os costumes pelo hábito. Um desses costumes era usar as mãos para se alimentar. Não se livraram dele porque achavam muito cômodo e tornavam o alimento mais gostoso. Chico não dormia na cama de jeito nenhum, só na esteira e Chica dormia com ele, deixando a cama do único quarto para Manega que continuava crescendo e era linda demais.
          Uma professora foi contratada para alfabetizar os filhos de Latifah e ela fez questão que Manega recebesse as mesmas instruções dadas aos seus filhos. Com isso, Manega aos 10 anos portanto, começou a ler e escrever, e como tudo que fazia, muito bem. Antes disso não tinha estudado pois seus pais não viam valor nisso. Não pensavam no futuro. Não conseguiam pensar. De alguma forma, dentro de suas cabeças os pensamentos eram primitivos ainda.
Dependiam totalmente de Samir e Latifah, embora trabalhassem para receber salário, mas não entendiam que aquilo um dia podia se acabar.
          Quando não estavam trabalhando, ou quando Latifah e Samir iam passar dias na fazenda, Chico e Chica ficavam em casa sem ter pra onde ir. Foram um dia convidados por uma vizinha a ir no Centro Espírita Caboclo Ubirajara que ficava bem perto, nas margens do Rio Manhuaçu. Ficaram curiosos com o fato do "Pai de Santo" ser um negro, cujo nome era Ekon, descendente de escravos, que tinha o poder de incorporar os deuses africanos que se pareciam com os deuses indígenas. Sentiram saudades dos rituais da aldeia e resolveram ir para ver como era essa tal de "macumba".
          O "Pai de Santo", conhecido como Benjamim era um negro bonito, dentes muito alvos, sorriso aberto e um olhar profundo. 
          A macumba tinha alguma semelhança com as festas das aldeias puris. O batuque era avassalador e remetia a mente ao sobrenatural. Provocava visões e convulsões torturantes, e quase sem sentir o casal Chico e Chica se viram tomados pela magia daquele lugar, e com pouco tempo já estavam entrosados com os "filhos" da casa.
        Chico sentiu-se bem batendo tambor, mas Chica, rapidamente 
fez roupas para os orixás e começou a incorporá-los com a segurança de uma "feita".
          A cachaça servida durante todo o ritual, facilitava o fanatismo, e embora, bebida com limites pelo casal puri, era o que dava aos dois a euforia que os assistentes precisavam para acreditar e buscar ajuda com os espíritos que ali passavam. 
          Chica "recebia" um espírito de "preta velha" conhecido como vovó Catarina que "resolvia" qualquer problema, conhecia chás de erva para todas as doenças (curava até a tísica),e rezava "quebranto", "espinhela caída", "risipela", "mau olhado", "aguamento", "mijacão" e tudo que se possa imaginar.
          Manega acompanhava os pais e gostava de entrar na roda para saudar os orixás. Usando as saias e as blusas que Chica fazia para ela, a mocinha se sentia feliz de participar dos rituais do terreiro.
          Benjamim, quando incorporava o Caboclo Ubirajara, sempre queria Manega do seu lado "cambonando". Ela acendia o charuto, ela oferecia a cachaça, ela acompanhava as consultas, e quando o orixá ia "subir" lá estava Manega para amparar Benjamim no rodopio que a entidade provocava.
          Continuavam trabalhando com os libaneses, mas agora tinham um outro interesse. Eram adeptos da Umbanda e frequentavam um terreiro. A macumba acontecia sempre nos finais de semana e assim não atrapalhava o trabalho dos dois, e para Latifah, era uma segurança muito grande ter em casa pessoas com aqueles poderes. Lembrava sempre que fora uma entidade incorporada em Capora que a fizera engravidar. Chegou até a ir no terreiro, mas como era muito dengosa, não aguentava uma noite inteira acordada, por isso só ia nas festas de vez em quando.
          Quando Manega completou 12 anos, "Pai Benjamim" disse que os orixás pediam que ela fosse iniciada nos segredos da religião. Precisava "deitar para o santo" e ser "catulada". Era uma obrigação que ficava muito cara mas Samir se prontificou a pagar o que fôsse preciso. Latifah estava exultante com a possibilidade de ter uma "sacerdotiza" da umbanda tão próximo a ela.
          Foram feitos os preparativos e Manega foi recolhida para "fazer a cabeça". Filha de Oxum com Xangô esteve 21 dias reclusa no terreiro para cumprir as obrigações e conhecer os "fundamentos" de seus orixás. Após esse tempo, em meio a uma grande festa no centro, Manega foi recebida no terreiro pronta para exercer funções mais importantes e esperar o tempo necessário para ser também uma "mãe de santo".
          A nova "iniciada" tinha prazer de estar no terreiro. Vivia mais na "casa de santo" cuidando dos orixás e fazendo caridade. Seguia Benjamim aonde ele fôsse. Para atender fazendeiros em outras cidades, para arriar obrigações nos mais diversos lugares, para atender doentes em casa...
           Rapidamente entendeu que a "caridade" de Benjamim sempre tinha um preço. Cobrava caro por seus trabalhos e para convencer as pessoas usava de inúmeros meios, inclusive enganando. Mas a essa altura não adiantava nada saber que Benjamim era um charlatão pois Manega já estava grávida.