No tempo certo Latifah deu à luz. Uma linda menina veio para aumentar ainda mais a união do casal. Nasceu em casa. Não deu tempo para que Latifah fôsse para o consultório do Dr. Jorge, e nem deu tempo para chamá-lo.
Assim que chegou na casa da patroa pela manhã Francisca escutou seu grito. Correu para o quarto e lá chegando, viu a mulher de pé, a camisola suspensa, e ao seu redor uma enorme poça de água. A patroa segurava a camisola e ao mesmo tempo segurava a barriga como se pudesse deter a criança que forçava a própria saída.
Francisca tirou as colchas da cama deixando só o lençol e ali deitou Latifah que havia agarrado seu pescoço e tinha os olhos arregalados quase saltando. O único som que emitia era um gemido contido e seus lábios tremiam como se tivesse febre.
As palavras calmas da amiga, foram fazendo o efeito de tranquilizar a parturiente que soltou o pescoço dela e se deitou totalmente na cama posicionando-se como a natureza intui.
Naquele momento em que as contrações diminuiram, Francisca correu a por água no fogo, trazer toalhas e lençóis limpos e a chamar a criada da casa para ajudá-la. Na volta ao quarto, percebeu que a criança estava prestes a nascer, preparou-se portanto para apará-la. Ajudou Latifah a se levantar e a se posicionar junto à cama. Colocou as mãos da patroa sobre o madeirame que formava um desenho esférico nos pés da cama, mandou que ela abrisse as pernas e entre elas, no chão, colocou dois lençóis limpos e dobrados, mandou então que ela se agachasse e fizesse força quando a dor viesse.
Nova contração, muita força de Latifah e a menina nasceu nas mãos de Francisca que prontamente a trouxe para si, ainda presa ao cordão e à placenta. Não foi preciso dar palmada, bastou que sua boquinha fosse limpa pelo dedo hábil de Francisca e ela já gritava e esperneava.
A essa altura, Samir, alertado pelos outros criados, entrava casa à dentro feito louco. Tão alterado estava que errou a porta do quarto entrando na cozinha, no banheiro, e só parou quando foi contido pelo Dr. Jorge que estava chegando também chamado pelos empregados da casa. Entraram os dois no quarto mas já sabiam que a criança tinha nascido. Só um surdo não ouviria aquele berreiro !
Ao doutor coube cortar o cordão e fazer as limpezas necessárias no bebê, entregando-a a Francisca para dar-lhe o primeiro banho e vestí-la. Foi então cuidar de Latifah que pedia para ver o bebê mas estava enfraquecida e tonta, ainda de pé, agarrada na cama.
Depois de tudo preparado e cuidado, a menina foi trazida para o casal que já estava abraçadinho, ela deitada, ele na beirada da cama, curvado sobre a mulher fazendo carinho no seu rosto.
De nada adiantou ter dado banho e vestido a recém nascida. A nova mãezinha tirou toda a roupinha dela e conferiu cada pedacinho, dando gritinhos de alegria como se estivesse descobrindo um tesouro precioso na harmonia daquele corpinho tão frágil e tão maravilhoso.
Samir quando conseguiu pegar a filha no colo não sabia o que fazer. Desajeitado precisou da ajuda de Francisca para andar com ela pra lá e prá cá. Emitia sons inteligíveis e ria feliz. Balançava a bebê nos braços vigorosos como se ela fosse uma florzinha recém colhida. Falava em seu idioma coisas maravilhosas que seu coração ditava, e beijava um por um, os dedinhos róseos da filhinha. A ternura do pai era tão evidente que Francisca viu-se de repente chorando por entender que cada um é bom a seu modo. Cada um ama da maneira que sabe. Pensou em Manega e sentiu um desejo enorme de abraçá-la, sentiu uma saudade muito grande de Chico, seu homem, que sabia tocar suas mãos fazendo com que todo seu ser estremecesse em ansiedade.
Samira seria o nome da menina. Samira quer dizer vigorosa, cheia de vida, e aquela bebezinha era assim. Não parava um minuto, ria e chorava com muita facilidade. Alimentava-se bem e desenvolvia-se plenamente. Com pouco tempo de vida já era linda e meiga. Todos gostavam dela e ela não dava trabalho nenhum.
Desde que Samira nasceu, Manega começou a acompanhar Francisca para a casa de Latifah e tornaram-se companheiras inseparáveis. Os primeiros passos de Samira, foram incentivados por Manega que tinha pressa em vê-la andando para acompanhá-la em suas traquinagens e a pequerrucha já aos nove meses dava os primeiros passos e não demorou a estar correndo pela casa e quintal. Dava gosto vê-las juntas.
Latifah deu à luz a mais dois filhos homens, gêmeos, Zayn e Valtair. Aí sim, a casa ficou cheia de crianças.
Todos os adultos trabalhando, a fazenda Hana produzindo, Latifah abriu uma pequena venda onde se distraía durante o dia com Samir, enquanto Francisca cuidava da casa como uma governanta.
Em Francisca e seu marido não havia ambição. Ganhavam o suficiente para viver e cuidar de Manega. Chico amava a enteada como se fosse filha dele, e quando alguém reparava na diferença de cor ele brincava dizendo que tinha pintado a filha quando ela nasceu. As pessoas naquele tempo sabiam respeitar um homem e portanto, não se falava mais no assunto.
As horas viravam dias, os dias semanas, as semanas meses e os meses viravam anos.
A tranquilidade às vezes dava sustos na forma de pequenos prejuízos, de algumas doencinhas, algumas traquinagens mais sérias, algumas cenas de ciúme... Coisas do cotidiano.
A cidade crescia. Novas pessoas vinham fazer parte do dia a dia... Tudo na normalidade.
Chica e Chico, agora acostumados com a vida dos brancos, quase não lembravam mais da aldeia. Repetiam os costumes pelo hábito. Um desses costumes era usar as mãos para se alimentar. Não se livraram dele porque achavam muito cômodo e tornavam o alimento mais gostoso. Chico não dormia na cama de jeito nenhum, só na esteira e Chica dormia com ele, deixando a cama do único quarto para Manega que continuava crescendo e era linda demais.
Uma professora foi contratada para alfabetizar os filhos de Latifah e ela fez questão que Manega recebesse as mesmas instruções dadas aos seus filhos. Com isso, Manega aos 10 anos portanto, começou a ler e escrever, e como tudo que fazia, muito bem. Antes disso não tinha estudado pois seus pais não viam valor nisso. Não pensavam no futuro. Não conseguiam pensar. De alguma forma, dentro de suas cabeças os pensamentos eram primitivos ainda.
Dependiam totalmente de Samir e Latifah, embora trabalhassem para receber salário, mas não entendiam que aquilo um dia podia se acabar.
Quando não estavam trabalhando, ou quando Latifah e Samir iam passar dias na fazenda, Chico e Chica ficavam em casa sem ter pra onde ir. Foram um dia convidados por uma vizinha a ir no Centro Espírita Caboclo Ubirajara que ficava bem perto, nas margens do Rio Manhuaçu. Ficaram curiosos com o fato do "Pai de Santo" ser um negro, cujo nome era Ekon, descendente de escravos, que tinha o poder de incorporar os deuses africanos que se pareciam com os deuses indígenas. Sentiram saudades dos rituais da aldeia e resolveram ir para ver como era essa tal de "macumba".
O "Pai de Santo", conhecido como Benjamim era um negro bonito, dentes muito alvos, sorriso aberto e um olhar profundo.
A macumba tinha alguma semelhança com as festas das aldeias puris. O batuque era avassalador e remetia a mente ao sobrenatural. Provocava visões e convulsões torturantes, e quase sem sentir o casal Chico e Chica se viram tomados pela magia daquele lugar, e com pouco tempo já estavam entrosados com os "filhos" da casa.
Chico sentiu-se bem batendo tambor, mas Chica, rapidamente
fez roupas para os orixás e começou a incorporá-los com a segurança de uma "feita".
A cachaça servida durante todo o ritual, facilitava o fanatismo, e embora, bebida com limites pelo casal puri, era o que dava aos dois a euforia que os assistentes precisavam para acreditar e buscar ajuda com os espíritos que ali passavam.
Chica "recebia" um espírito de "preta velha" conhecido como vovó Catarina que "resolvia" qualquer problema, conhecia chás de erva para todas as doenças (curava até a tísica),e rezava "quebranto", "espinhela caída", "risipela", "mau olhado", "aguamento", "mijacão" e tudo que se possa imaginar.
Manega acompanhava os pais e gostava de entrar na roda para saudar os orixás. Usando as saias e as blusas que Chica fazia para ela, a mocinha se sentia feliz de participar dos rituais do terreiro.
Benjamim, quando incorporava o Caboclo Ubirajara, sempre queria Manega do seu lado "cambonando". Ela acendia o charuto, ela oferecia a cachaça, ela acompanhava as consultas, e quando o orixá ia "subir" lá estava Manega para amparar Benjamim no rodopio que a entidade provocava.
Continuavam trabalhando com os libaneses, mas agora tinham um outro interesse. Eram adeptos da Umbanda e frequentavam um terreiro. A macumba acontecia sempre nos finais de semana e assim não atrapalhava o trabalho dos dois, e para Latifah, era uma segurança muito grande ter em casa pessoas com aqueles poderes. Lembrava sempre que fora uma entidade incorporada em Capora que a fizera engravidar. Chegou até a ir no terreiro, mas como era muito dengosa, não aguentava uma noite inteira acordada, por isso só ia nas festas de vez em quando.
Quando Manega completou 12 anos, "Pai Benjamim" disse que os orixás pediam que ela fosse iniciada nos segredos da religião. Precisava "deitar para o santo" e ser "catulada". Era uma obrigação que ficava muito cara mas Samir se prontificou a pagar o que fôsse preciso. Latifah estava exultante com a possibilidade de ter uma "sacerdotiza" da umbanda tão próximo a ela.
Foram feitos os preparativos e Manega foi recolhida para "fazer a cabeça". Filha de Oxum com Xangô esteve 21 dias reclusa no terreiro para cumprir as obrigações e conhecer os "fundamentos" de seus orixás. Após esse tempo, em meio a uma grande festa no centro, Manega foi recebida no terreiro pronta para exercer funções mais importantes e esperar o tempo necessário para ser também uma "mãe de santo".
A nova "iniciada" tinha prazer de estar no terreiro. Vivia mais na "casa de santo" cuidando dos orixás e fazendo caridade. Seguia Benjamim aonde ele fôsse. Para atender fazendeiros em outras cidades, para arriar obrigações nos mais diversos lugares, para atender doentes em casa...
Rapidamente entendeu que a "caridade" de Benjamim sempre tinha um preço. Cobrava caro por seus trabalhos e para convencer as pessoas usava de inúmeros meios, inclusive enganando. Mas a essa altura não adiantava nada saber que Benjamim era um charlatão pois Manega já estava grávida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário