domingo, 14 de fevereiro de 2021

XIII - As cobras da cidade.

 

Um dia, Manega foi passear na casa de Latifah levando a filha. Costumava fazer essas visitas sempre para Dorony brincar no jardim da casa e costumava demorar bastante. Nesse dia, por causa do tempo virando, resolveu voltar mais cedo pra casa, e foi surpreendida, encontrando Benjamim, com a filha de santo que a substituía cambonando, na sua própria cama, na maior intimidade.

Não era mulher de ficar quieta. Apanhou a vassoura e meteu bordoada à torto e à direito. Trazia Dorony enganchada na cintura e mesmo assim, fez um escândalo danado.

Bateu, correu atrás da mulher pelo quintal, quebrou pratos e jogou panelas pro alto. Entrou dentro do terreiro feito doida e começou a derrubar tudo pelo chão. Dorony enganchada na cintura...

Alguém pegou a menina. Era Francisca que tinha vindo trazer as duas e já estava voltando para a casa de Latifah quando o “sururú” começou. Voltou correndo a tempo de pegar a neta.

 Meio sem entender o que estava acontecendo, pedia à filha que tivesse calma. Pensou que ela estava “incorporada”. Não sabia o que fazer.

Manega começou a quebrar as “quartinhas”, as louças dos “santos”, totalmente enfurecida. Veio gente de tudo quanto é lado ! Mas Benjamim não ia passar aquela vergonha sozinho. Pegou Manega pelos cabelos e tentou jogá-la no chão. Não sabia que já tinham ido avisar ao pai de sua mulher. Francisco entrou porta à dentro feito um touro. Com uma marrada só derrubou Benjamim que não teve mais reação. Segurou e abraçou a filha, e só então ela se acalmou. Olhou o pai e começou a chorar.

A amante de Benjamim, seminua, foi trazida por outro filho de santo para pegar o resto de suas roupas e depois de vestida, parou em prantos em frente a Manega. Disse estar grávida de Benjamim e que os encontros deles já aconteciam antes da pequena Dorony nascer.

Sem uma palavra, Manega tomou a mão de seu pai e o puxou em direção à saída do barracão onde Francisca já estava com a bebê no colo.

Ao passar por sua mãe, tomou sua mão também e seguiram rua abaixo em direção à subida da Petrina. Nem uma vez olhou para trás e Benjamim também não a seguiu.

Ele se levantou, começou a arrumar a bagunça que havia no local sem olhar pra ninguém. Alguns filhos da casa foram ajudando, os curiosos começaram a ir embora e a noite foi avançando sobre todo estrago causado naquele lugar.

Quando chegaram em casa, Chico e Francisca, mandaram Manega tomar banho, cuidar da sua pequenina se deitar na cama deles e descansar. Amanhã seria um novo dia.

Francisca fez um chá de ervas que deu à filha, e preparou um leitinho pra neta.

Muito rápidamente as duas estavam dormindo.

Ai então, Capora e Cornéis se deram as mãos, se sentaram num banquinho do lado de fora e ficaram conversando com a lua e as estrelas que agora brilhavam no céu. Parece até que tinham armado aquela chuva mais cedo de propósito, pra Manega descobrir a falsidade de seu homem. Ali dormiram, um encostado no outro como nos velhos tempos, lá na Fazenda Hanah.

Quando o dia nasceu, veio encontrar os dois ali juntinhos como se tivessem passado apenas alguns minutos.

Os gritos de Dorony fizeram com que Francisca desse um pulo e corresse para dentro. Ah, lá no quarto, Manega ainda dormia, mas Dorony já estava aprontando sentada debaixo do móvel da máquina de costura, dançando e gritando a mãe. Quando viu Francisca correu desajeitada, as fraldas caindo pelas pernas abaixo e pulou no colo da avó.

___ “Vovó Chiquinha!!! Vovó Chiquinha !!!  Nenê qué mamá !!!”

 Chico entrou porta a dentro todo sorridente.

___ “Então ocê é Nenê, né? Nenê do Vovô Chico !  Vem cá minha cocadinha branca.”

Engraçado é que daquele dia em diante Chico, imitando o que fizera com a filha, passou a chamar a neta de Nenê, e assim a pequenina ficou com dois apelidos: Doró e Nenê !!! E atendia quando chamada por qualquer um deles, parecendo achar muito divertido ter dois nomes.

Manega levantou e foi cuidar da filha, enquanto Francisca se preparava para ir para a casa de Latifah, mas falou que assim que pudesse vinha em casa. Pediu ao Marido para ficar que avisaria a Samir da necessidade de Francisco ficar em casa porque com certeza Benjamim ia aparecer por lá e Manega não podia estar sozinha.

Mal Francisca saiu, aconteceu o que ela pressentira. Benjamim chegou, mas veio manso. Queria conversar com Manega na paz. Francisco disse que ia estar do lado e não adiantava fazer pressão. Qualquer coisa que eles resolvessem, ele tinha que estar sabendo e não abria mão disso, afinal Manega era sua filha única e só tinha ele para protegê-la.

Ela, Manega, não queria conversa, mas foi aconselhada pelo pai a ouvir e decidir com seu marido o que fariam dali para a frente. Aceitou, mandou Benjamim entrar, ofereceu um café e se sentou para escutar o que ele tinha a dizer.

Chico puxou um banquinho, pegou o canivete, puxou um pouco de fumo da gaveta e começou a picar para preparar um cigarro.

Dorony não tinha muita intimidade com o pai, por isso, muito desconfiada, ficou perto das pernas da mãe e de olho no avô. Parecia entender o que estava acontecendo.

Benjamim estava meio sem graça e de olhos baixos parecia não ter coragem de falar nada ou não encontrar o que falar. Manega então se adiantou:

___ Diga, Beija. O que é que você quer comigo agora ?

___ Vim te buscar mais Dorony. Tu é minha mulhé, num tem cabimento vim dá trabáio aos teus pais.

___ Beija, vou falar só uma vez. É para sempre. Não volto mais nunca pra sua casa.

___ Mas isso num tem cabimento, nega. Tu é minha mulhé.

___ Uma das suas mulheres, isso é o que sou. Não volto mais mesmo. Nem casados no papel nós somos. Você registrou Dorony mas nunca ligou pra ela. Agora tem sua cunhã  lá esperando filho teu. Fica com ela e faz bom proveito porque eu não te quero mais.

___E se eu te pedi perdão, nega ?

___Não tem o que perdoar. Não te tenho raiva nem mágoa. Você é assim, sempre foi e nunca vai deixar de ser. Eu que não quero mais essa vida pra mim. Vou trabalhar. Sei ler, escrever e contar e vou procurar emprego. Vou conseguir numa loja, no hotel do Seu Samir. Qualquer lugar. Voltar é que eu não volto.

___Intão, vô tomá Dorony de ti, nega. Como que uma mulhé sozinha vai cuidá de uma menina ???

___ Sózinha não – Francisco entrou na conversa – ela tem eu e a mãe dela pra ajudá a cuidá da minina. Se ocê quisé vai no juiz, mas vai tê que ispricá comé que tem duas muié dentro de casa. Uma com uma fia de dois  anos e a outra buchuda. Vamo vê se argum juiz vai te dá direito.

___Eu não quero brigá, mas quero levá minha mulhé e minha fia de vorta.

___ Pois se ela num qué – disse Francisco – num vai vortá. É mio ocê vortá prá trás e isquecê minha Manega.

___E as obrigação dos santo docês, cume que vai ficá ?  Ocês são meus fios de santo.

___Olha Beija, -disse Manega- você faz o que quiser com nossa louça. Se quiser guardar, guarda. Se quiser me devolver, devolve e se quiser pode jogar fora. Eu não acredito em nada daquilo mais. De hoje em diante eu nunca mais piso num terreiro de macumba. Quero esquecer tudo aquilo.

___ Intão eu vou imbora. Mas lá de casa Manega, tu não tira nada. Vô guardá a louça e cuidá dos orixás. Se um dia tu fô pra ôtra casa de santo, tu vai lá buscá.

___Nem precisa esperar Benjamim. Lá eu não volto mais.

___Como é que eu vô vê a Dorony ?

___ Quando quisé vem aqui – Francisco avisou – Ela vai ta sempre aqui.

___Vô trazê umas coisas pra ela...

___ Num percisa, mas se truxé a gente aceita. Agora vai Benjamim... Vai vivê sua vida e dexa minha fia que eu cuido dela.

Benjamim saiu pisando duro e seu pensamento era só vingança. Ia deixar aquela sem vergonha pelada, sem roupa. Da casa dele ela não ia tirar nada!!! Queria ver ela pedir de joelho pra voltar. Ia preparar um bom trabalho com as coisas do santo deles. Eles iam ver a vira volta que a vida ia dar. Iam ter que pedir arrego. Ah, isso iam. O que era deles estava guardado !

Quando chegou em casa, sua nova mulher o esperava e ficou aliviada quando viu ele chegando sozinho. Ele estava de cara amarrada, mas depois passava.

Agora era aprontar o terreiro, ajeitar tudo que as consultas iam começar na parte da tarde. Era dia de ganhar dinheiro, e ela estava ali pra cambonar os santos.

 

Lá no Morro da Petrina, na parte da tarde, Francisca chegou com Latifah e Samira, trazendo malas de roupas e calçados para Manega e Dorony e vinham com uma proposta de Samir. Na semana seguinte a família se mudaria para um casarão que eles  tinha lá na Rua do Coqueiro.

A casa ali era muito pequena e Dorony precisava de mais espaço. Também ficariam mais perto da casa de Latifah.

 Manega podia descansar aquela semana e na semana seguinte começaria a trabalhar no Grande Hotel como camareira. Assim que houvesse uma vaga melhor ela seria promovida. Por enquanto era a única vaga que tinha, mas apesar de ser um salário baixo, dava pra ir vivendo.

Francisco continuaria com Samir ajudando com os mascates e no hotel e Francisca continuaria na casa de Latifah, podendo levar Dorony todos os dias, até as coisas se assentarem.

Tudo combinado, a vida foi seguindo em frente. Mudaram-se e deixaram a casa da Rua da Petrina fechada. O casarão era tão grande, que mesmo depois de tudo arrumado nos lugares, parecia que estava vazio. Quase em frente ficava a venda de Latifah, e era costume os mascates pararem ali para abastecer suas cargas, pois lá é  que pegavam as mercadorias com que iriam trabalhar durante o mês, visitando as fazendas distantes.

 O que não tinha ali normalmente, Samir comprava em outro local e na época certa que os mascates começavam a chegar, Latifah já tinha tudo preparado.

 Era um sobrado de cômodos grandes que funcionava na verdade como um depósito na parte de cima, e na parte de baixo eram feitas as vendas no varejo. Quando o movimento ficava muito grande eles contratavam ajudantes temporários e o serviço transcorria em tempo sem problemas.

Benjamim quase nunca aparecia, e quando vinha ver Dorony, mal se demorava. Não era carinhoso e nem tinha como agradar a filha, por isso trazia um pirulito, um par de meias e coisas assim.

Sentava na escada do casarão, sempre quando todos estavam em casa, e ficava olhando a filha brincar com algumas outras crianças.

Seus olhares eram mais pra Manega que estava cada vez mais bonita. Mas ela custava a aparecer. Ficava por dentro de casa enquanto ele estava lá, mas ele não tirava os olhos sempre que ela passava fazendo uma coisa ou outra.

Tinha voltado a desejar a mulher, mas percebia que ela não o queria mais, apesar de não ter arrumado outro.

Também naquele tempo e ali naquela cidade, mulher largada não arrumava homem que prestasse. Ninguém queria . Mulher largada era um tabu. Ele podia ficar sossegado que ela não ia ficar com outro homem.

 O que restava ali para as mulheres largadas era a Zona de baixo meretrício, mas isso não era pra Manega que estava trabalhando. Ela podia contar com a família de Latifah.

Enquanto os Libaneses estivessem protegendo eles, Manega não precisaria de ninguém.

Benjamim ficava pensativo, buscando um jeito de fazer Manega se interessar por ele. Começou a agradar mais a menina e a procurar mais assunto com Francisco.

As vezes entrava na venda de Latifah para comprar alguma coisa, mas o que ninguém sabia é que o espírito ruim de Benjamim já estava planejando uma maneira de acabar com toda aquele harmonia que existia ali e que o deixava de fora.

 Começou a articular dentro do seu coração uma maneira de fazer mal à família de Samir, para assim prejudicar a família de Manega.

O destino infelizmente ia ajudar...

 

 

 

 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

XII - O que faz a vida é o correr dos dias.

 

Manega, grávida, sentiu o peso de tantas responsabilidades, e principalmente percebeu que não tinha o dom do charlatanismo que era a maior marca do caráter do seu homem. 

Nem pensava em aborto porque era filha de puris, não podia ir contra as leis dos seus ancestrais. Iria ter aquela criança e tocar a vida como uma verdadeira guerreira, feito sua mãe Capora que não desistiu dela e lhe ensinou todos os preceitos Puris. Agora, principalmente, sendo uma Yaô no terreiro não podia dar mau exemplo e tinha que adotar também os preceitos da religião que estava seguindo e que da mesma forma que as leis puris, proibia o aborto.

Manega se assustou muito quando uma entidade incorporada em Benjamim, lhe  perguntou se queria se livrar da gravidez.

Era um Exu velho que trabalhava muito para o mal, mas que Benjamim adorava incorporar. Era a entidade que mais lhe rendia dinheiro e agrados, e era incrível ver como tanta gente tinha prazer em ver o mal ser praticado. Em pagar para ver o mal de outra pessoa.

A jovem mulher disse com muito jeitinho que ia ter a criança, pois  tinha vontade de ser mãe, e que “o Sr. não se preocupasse”, que qualquer coisa ela avisaria a ele.

Ele, o Exu, deu duas pitadas no charuto, jogou a fumaça sobre ela e disse:

___“Ma suncê fica avisada que essa sua barrigada, só vai te dar pruveito agora. Num tem futuro pra suncê com ela. Mas se qué, deixa vim. Vai sê muito deferente de suncê.”

 E saiu andando debochando com uma risada alucinada.

Manega se mudou de vez pro terreiro e foi viver com Benjamim como um casal. Continuava freqüentando as sessões de macumba, mas estava com a barriga cada vez maior e tinha muita dificuldade para as danças e para os atendimentos.

O marido sempre tinha sido bem ignorante, mas como eles só viviam rodeados de gente durante os dias e as noites, era difícil perceber aquela ignorância dirigida à ela exatamente. Só quando começou a ficar mais no quarto por causa da barriga e do desconforto, é que viu o quanto ele se importava só consigo  mesmo e era orgulhoso ostentando para todos os seus “poderes”.

 Dificilmente Manega o via, pois ele  ficava mais incorporado do que em si próprio, e ela passou a gostar mais de conviver com as entidades que ele incorporava porque se sentia mais bem tratada. Com a criança que ela esperava ele nem se importava. Parecia que era nada. Seus carinhos só aconteciam com a mulher nos momentos íntimos, fora isso ele não perguntava nem como ela estava se sentindo.

Francisca continuava indo ao terreiro normalmente e sempre procurava a filha no quarto levando alguma comidinha gostosa e querendo saber do neto. Do neto não, da neta. Ela tinha certeza que o bebê da filha seria uma menina. Francisco, meio desajeitado, abraçava a filha, perguntava se estava bem e sempre avisava:

___“Óia Manega, a hora que ocê quisé vortá pra casa, pode vortá. Seu quartim ta lá fechado arrumado. A Chica cuida , barre todo dia... Até umas roupa tem no guarda roupa, que ocê dexô. Eu quiria que ocê tivesse lá com nós. Ia tê a criança lá, nós ajudava a cuidá. Mas ocê num qué...”

Manega abraçava o pai e nessa hora o contraste da cor de seus cabelos louros no peito negro do pai era tão forte, que parecia a lua passeando no céu escuro.

___ “Não pai, vou ter o nenê aqui. Tá tudo certo. Tem muita gente na casa pra me ajudar. E assim que eu começar a sentir as dores eu mando avisar, pode deixar.”

Francisca avisava logo:

___“Quem vai apará minha neta sô eu. Ai de ocê Manega, se chamá outra partera. Ocê sintiu dô, manda logo me chamá. Se eu num tivé pur aqui,  eu venho num pulo. É eu que vô apará essa curumim !!!”

Ela, Francisca, nem sonhava que Manega já não estava tão feliz, mas Chico parecia perceber que alguma coisa não ia bem. Por isso falava tanto na volta de Manega para casa.

Mas o dia finalmente chegou. Quando Manega começou a sentir as dores a macumba mal  tinha acabado e Francisca ainda estava no terreiro. Foi um Deus nos acuda !!! Ela  corria de um lado para o outro orientando as filhas da casa para os procedimentos pro parto, e aí, quem ia embora resolveu esperar, quem tinha ido, resolveu voltar e o terreiro encheu de novo.

Lá dentro do quarto do casal  Manega foi ajeitada para dar a luz como as índias puris. De cócoras. Era o dia 14 de novembro de 1927 !

Não tinha medo e era muito valente. Aquilo era só uma dorzinha. Ia passar logo assim que a criança nascesse.

Francisca sentou-se de frente pra filha no chão, e ela, a parturiente agachada, sentia os movimentos da criança dentro do seu ventre. Toda a água já tinha saído e o bebê forçava seu caminho em direção à luz. Só coroou uma vez. Na segunda já botou aquela carinha linda pra fora, e recebeu as mãos da avó na sua cabeça, mas sem nenhuma força, e levada pela própria natureza, deitou-se nos lençóis imaculadamente limpos, arrumados no chão entre as pernas de sua mãe. Os dedos ágeis da avó limparam a boquinha da pequena com muito cuidado e pegando-a pelas perninhas, a ergueu no ar enquanto um chorinho manso se fazia ouvir. Parecia um canto que vinha do fundo as almas. Todos que estavam ali, ficaram encantados. Francisca cortou o cordão com uma pedra preparada para aquela ocasião. Tinha um gume entalhado, fino como de uma faca. Francisca amarrou o côto. Pegou a pedra, colocou  junto umas ervas e pós, amarrou num lenço branco que ela tinha preparado para aquela função e entregou à Francisco mandando ele guardar no embornal que sempre carregava consigo.

___ Guarda Chico, que quando o imbigo cair, vai ficá aí junto. Isso vai dá proteção à nossa curumim. Pegou a menina enrolou, abraçou e avisou: “Eu falei. É uma menina !!!” 

Benjamim tinha estado por ali, falando com um e com outro extremamente calmo. Sorrindo e bebendo cachaça na cuia. Quando Francisca avisou que era uma menina e que se ouviu o “cunhé cunhé” da recém nascida, ele sorriu mais ainda e começou a distribuir cachaça pro povo. Parecia bem feliz. Era um homem realizado.

Sua branca tinha lhe dado uma filha. Claro que ele preferia um menino, mas tinha tempo. Também, diziam as más línguas que ele tinha outros filhos com outras mulheres, e isso mais tarde veio a se confirmar, mas naquele momento ele fazia o papel de um pai feliz.

 Logo, logo, o pessoal começou a assar uma carne na brasa, e a cachaça foi rendendo até a metade do dia. Estavam festejando a chegada de mais uma menina em Manhuaçu.

Clarinha sem ser branquela igual à mãe, muito cabelo, castanho claro, encaracolados. Depois do banho tomado, vestida e agasalhada na manta, parecia uma bonequinha de louça. Mas os olhinhos fechados não deixavam saber a cor que tinham.

Francisca não largava seu  fardozinho cheia de amores. Chico andava igual bobo atrás da mulher querendo pegar também a bebê, mas quem disse que Chica deixava ?  Vovó Chiquinha já demonstrava o quanto ia ser ciumenta,

Manega tinha ficado por conta das filhas da casa e de uma preta velha que só “desincorporou” depois que todo movimento acabou.

Deu banho, penteou e deitou Manega para descansar e receber o marido, que não veio. Ficou lá por fora e depois partiu para fazer um trabalho numa fazenda em Matipó, e por lá ficou três dias. Quando voltou agiu normalmente como se nada tivesse acontecido. Quando trouxeram a bebê para ele, fez festa, brincou... sem exageros, depois entregou para a mãe e pediu comida. Vida que voltava ao normal.

Latifah e Samir foram visitar Manega logo no segundo dia e estranharam a ausência de Benjamim, mas como respeitavam muito o Pai de Santo, não comentaram nada. Só repetiam a toda hora que o que precisassem, podiam contar com eles.

Levaram de presente sacas de arroz e feijão, muito frango vivo, muitos legumes que buscaram na fazenda. Deram para a meninazinha um cordão de ouro estupendo, grosso, pesado,  com um crucifixo enorme! Era uma pequena fortuna em forma de um agrado.

 Manega imediatamente entregou o cordão a Francisco e pediu que guardasse a jóia e que guardasse segredo sobre o presente. Aquilo seria para garantir os estudos de sua filhinha, que havia de ser professora se Deus permitisse. Talvez por um pressentimento ela não quis que se falasse com Benjamim daquele agrado. Benjamim era muito esbanjador e nada de valor durava com ele. Todos concordaram e assim ficou acertado.

Latifah falou logo no batizado da pagãzinha. Era preciso se tornar cristã, mesmo tendo nascido num terreiro de macumba e sendo filha de pais macumbeiros, ora, desde que o mundo é mundo, macumbeiro é católico.

Haviam de batizar a menina logo que Manega pudesse caminhar para ir à Igreja. Como é que ia ser o nome da pequenina mesmo ? Ah, seria Dorothy, disse Manega. Mas como assim ???  De onde surgiu esse nome ?  Ninguém conhecia nenhuma Dorothy...

Ah, foi de Samira, filha da Latifah, que Manega tinha ouvido esse nome pela primeira vez. Ela, Samira, tinha uma professora que era estrangeira, e contou uma história cuja personagem principal se chamava Dorothy. O nome da história era o Maravilhoso Mágico de Oz, que encantou Samira e Manega de uma tal forma que as duas combinaram: a que tivesse uma filha primeiro, ia colocar esse nome lindo na criança. . Por isso o nome seria Dorothy...

 Todos acharam um nome difícil de escrever e até de pronunciar, pra não dizer que Francisco se mostrou horrorizado com aquela “estrangeirice” de Manega. Implorou tanto pra que não batizassem a menina com aquele nome feio que Manega concordou em mudar só um pouquinho. Seria Dorony então... O que achavam ???

Ah, aquele “pisilone” ali era muito feio !!!  mas Manega não abriu mão do “pisilone”. Ficava uma escrita bonita... Ficou toda feliz quando todos concordaram. A madrinha ia ser a Samira e o irmão Valtair. Latifah e Samir podiam consagrar.  Pronto !!!  Todos eram só sorrisos ! Felicidade total !!! 

Benjamim quando voltou concordou logo com tudo dizendo que não ia porque não gostava de igreja, mas que podiam fazer como quisessem. Ele ia batizar ela no terreiro. Ela ia  tomar banho de abô, dar uma obrigação aos seus “santos de frente”,  e os padrinhos seriam a vovó Catarina e o Seu Boiadeiro. No dia da apresentação dela no terreiro, ia ter toque a noite inteira e todos os orixás viriam trazer seu axé para a pequena Dorony. Ia ser mais bonito que lá na igreja. Mais bonito e mais animado !  Estava tudo nos conformes. Vida pra frente!

O batizado na igreja aconteceu como combinado. No domingo marcado todos foram à missa das nove, pois os batizados eram sempre as dez e meia.

Por coincidência, naquele domingo, Dorony foi a única criança a ser batizada e o padre comentou brincando que ela tinha muita sorte, era sinal de que Jesus a escolhera de forma especial.  Dorony não chorou ao receber o óleo e as águas do batismo. Pelo contrário: sorriu e abriu bem os olhinhos castanhos. Parecia apreciar todo ritual e estar muito tranqüila e feliz.

Na hora da consagração, diante da imagem de Nossa Senhora das Graças, Dorony sorria tanto para a Santa, que parecia estar vendo a Virgem sorrindo pra ela. Erguia os bracinhos como se quisesse ir para o colo da imagem e todos acharam muito estranho e interessante aquela reação.

Na hora de sair, ela chorou muito. Estava com quatro mesinhos mas parecia entender que aquele era um lugar de muita paz. Queria ficar ali, e esticava os bracinhos para a imagem de Nossa Senhora. Todos riam muito.

A apresentação no centro de Benjamim nunca aconteceu... Ele deve ter esquecido, tão ocupado andava com os fazendeiros da região, pois cada dia era chamado para um atendimento.

Manega continuava “cambonando” seu marido, mas sabia que ele fazia muita coisa errada.

 Levava num embornal coisas estranhas que usava para enganar as pessoas, como , tufos de cabelo, minhocas vivas, dentes humanos, ossos, pedaços de carne crua, pregos, alfinetes. .. Ele tinha uma destreza para fingir estar tirando certas coisas do corpo das pessoas, que era difícil não acreditar. Preparava remédios de folhas que mandava Manega buscar e tinha tanta sorte que normalmente curava as pessoas e isso aumentava sua fama.

Ele e a mulher andavam por muitas fazendas e a filhinha, ainda muito pequena, ficava com Francisca até o retorno dos pais.

Depois que Dorony nasceu, nunca mais Manega acompanhou Benjamim quando era pra passar mais de um dia. Não conseguia dormir longe da filha.

Nessas ocasiões, Benjamim levava com ele uma outra filha de santo pra ajudá-lo nos trabalhos. Durante dois anos e meio viveram assim sem problemas. Benjamim era um homem que não brincava muito com a filha, nem era muito carinhoso, mas se não carinhava, também não maltratava. Manega percebia que ele estava ficando mais tempo dentro do terreiro que no quarto deles, e quase não a procurava mais para momentos íntimos. Quando precisava de sua ajuda, ele solicitava, ela ajudava no que fosse preciso, mas algo estava bem diferente.