Um dia,
Manega foi passear na casa de Latifah levando a filha. Costumava fazer essas
visitas sempre para Dorony brincar no jardim da casa e costumava demorar
bastante. Nesse dia, por causa do tempo virando, resolveu voltar mais cedo pra
casa, e foi surpreendida, encontrando Benjamim, com a filha de santo que a
substituía cambonando, na sua própria cama, na maior intimidade.
Não era
mulher de ficar quieta. Apanhou a vassoura e meteu bordoada à torto e à
direito. Trazia Dorony enganchada na cintura e mesmo assim, fez um escândalo
danado.
Bateu,
correu atrás da mulher pelo quintal, quebrou pratos e jogou panelas pro alto.
Entrou dentro do terreiro feito doida e começou a derrubar tudo pelo chão.
Dorony enganchada na cintura...
Alguém
pegou a menina. Era Francisca que tinha vindo trazer as duas e já estava
voltando para a casa de Latifah quando o “sururú” começou. Voltou correndo a
tempo de pegar a neta.
Meio sem entender o que estava acontecendo,
pedia à filha que tivesse calma. Pensou que ela estava “incorporada”. Não sabia
o que fazer.
Manega
começou a quebrar as “quartinhas”, as louças dos “santos”, totalmente
enfurecida. Veio gente de tudo quanto é lado ! Mas Benjamim não ia passar
aquela vergonha sozinho. Pegou Manega pelos cabelos e tentou jogá-la no chão.
Não sabia que já tinham ido avisar ao pai de sua mulher. Francisco entrou porta
à dentro feito um touro. Com uma marrada só derrubou Benjamim que não teve mais
reação. Segurou e abraçou a filha, e só então ela se acalmou. Olhou o pai e
começou a chorar.
A amante
de Benjamim, seminua, foi trazida por outro filho de santo para pegar o resto
de suas roupas e depois de vestida, parou em prantos em frente a Manega. Disse
estar grávida de Benjamim e que os encontros deles já aconteciam antes da
pequena Dorony nascer.
Sem uma
palavra, Manega tomou a mão de seu pai e o puxou em direção à saída do barracão
onde Francisca já estava com a bebê no colo.
Ao passar
por sua mãe, tomou sua mão também e seguiram rua abaixo em direção à subida da
Petrina. Nem uma vez olhou para trás e Benjamim também não a seguiu.
Ele se
levantou, começou a arrumar a bagunça que havia no local sem olhar pra ninguém.
Alguns filhos da casa foram ajudando, os curiosos começaram a ir embora e a
noite foi avançando sobre todo estrago causado naquele lugar.
Quando
chegaram em casa, Chico e Francisca, mandaram Manega tomar banho, cuidar da sua
pequenina se deitar na cama deles e descansar. Amanhã seria um novo dia.
Francisca
fez um chá de ervas que deu à filha, e preparou um leitinho pra neta.
Muito
rápidamente as duas estavam dormindo.
Ai então,
Capora e Cornéis se deram as mãos, se sentaram num banquinho do lado de fora e
ficaram conversando com a lua e as estrelas que agora brilhavam no céu. Parece
até que tinham armado aquela chuva mais cedo de propósito, pra Manega descobrir
a falsidade de seu homem. Ali dormiram, um encostado no outro como nos velhos
tempos, lá na Fazenda Hanah.
Quando o
dia nasceu, veio encontrar os dois ali juntinhos como se tivessem passado
apenas alguns minutos.
Os gritos
de Dorony fizeram com que Francisca desse um pulo e corresse para dentro. Ah,
lá no quarto, Manega ainda dormia, mas Dorony já estava aprontando sentada
debaixo do móvel da máquina de costura, dançando e gritando a mãe. Quando viu
Francisca correu desajeitada, as fraldas caindo pelas pernas abaixo e pulou no
colo da avó.
___ “Vovó
Chiquinha!!! Vovó Chiquinha !!! Nenê qué
mamá !!!”
Chico entrou porta a dentro todo sorridente.
___ “Então
ocê é Nenê, né? Nenê do Vovô Chico ! Vem
cá minha cocadinha branca.”
Engraçado
é que daquele dia em diante Chico, imitando o que fizera com a filha, passou a
chamar a neta de Nenê, e assim a pequenina ficou com dois apelidos: Doró e Nenê
!!! E atendia quando chamada por qualquer um deles, parecendo achar muito
divertido ter dois nomes.
Manega
levantou e foi cuidar da filha, enquanto Francisca se preparava para ir para a
casa de Latifah, mas falou que assim que pudesse vinha em casa. Pediu ao Marido
para ficar que avisaria a Samir da necessidade de Francisco ficar em casa
porque com certeza Benjamim ia aparecer por lá e Manega não podia estar
sozinha.
Mal
Francisca saiu, aconteceu o que ela pressentira. Benjamim chegou, mas veio
manso. Queria conversar com Manega na paz. Francisco disse que ia estar do lado
e não adiantava fazer pressão. Qualquer coisa que eles resolvessem, ele tinha
que estar sabendo e não abria mão disso, afinal Manega era sua filha única e só
tinha ele para protegê-la.
Ela,
Manega, não queria conversa, mas foi aconselhada pelo pai a ouvir e decidir com
seu marido o que fariam dali para a frente. Aceitou, mandou Benjamim entrar,
ofereceu um café e se sentou para escutar o que ele tinha a dizer.
Chico
puxou um banquinho, pegou o canivete, puxou um pouco de fumo da gaveta e
começou a picar para preparar um cigarro.
Dorony
não tinha muita intimidade com o pai, por isso, muito desconfiada, ficou perto
das pernas da mãe e de olho no avô. Parecia entender o que estava acontecendo.
Benjamim
estava meio sem graça e de olhos baixos parecia não ter coragem de falar nada
ou não encontrar o que falar. Manega então se adiantou:
___ Diga,
Beija. O que é que você quer comigo agora ?
___ Vim
te buscar mais Dorony. Tu é minha mulhé, num tem cabimento vim dá trabáio aos
teus pais.
___
Beija, vou falar só uma vez. É para sempre. Não volto mais nunca pra sua casa.
___ Mas
isso num tem cabimento, nega. Tu é minha mulhé.
___ Uma
das suas mulheres, isso é o que sou. Não volto mais mesmo. Nem casados no papel
nós somos. Você registrou Dorony mas nunca ligou pra ela. Agora tem sua cunhã lá esperando filho teu. Fica com ela e faz bom
proveito porque eu não te quero mais.
___E se
eu te pedi perdão, nega ?
___Não
tem o que perdoar. Não te tenho raiva nem mágoa. Você é assim, sempre foi e
nunca vai deixar de ser. Eu que não quero mais essa vida pra mim. Vou trabalhar.
Sei ler, escrever e contar e vou procurar emprego. Vou conseguir numa loja, no
hotel do Seu Samir. Qualquer lugar. Voltar é que eu não volto.
___Intão,
vô tomá Dorony de ti, nega. Como que uma mulhé sozinha vai cuidá de uma menina
???
___ Sózinha
não – Francisco entrou na conversa – ela tem eu e a mãe dela pra ajudá a cuidá
da minina. Se ocê quisé vai no juiz, mas vai tê que ispricá comé que tem duas
muié dentro de casa. Uma com uma fia de dois anos e a outra buchuda. Vamo vê se argum juiz
vai te dá direito.
___Eu não
quero brigá, mas quero levá minha mulhé e minha fia de vorta.
___ Pois
se ela num qué – disse Francisco – num vai vortá. É mio ocê vortá prá trás e
isquecê minha Manega.
___E as
obrigação dos santo docês, cume que vai ficá ? Ocês são meus fios de santo.
___Olha
Beija, -disse Manega- você faz o que quiser com nossa louça. Se quiser guardar,
guarda. Se quiser me devolver, devolve e se quiser pode jogar fora. Eu não
acredito em nada daquilo mais. De hoje em diante eu nunca mais piso num
terreiro de macumba. Quero esquecer tudo aquilo.
___ Intão
eu vou imbora. Mas lá de casa Manega, tu não tira nada. Vô guardá a louça e
cuidá dos orixás. Se um dia tu fô pra ôtra casa de santo, tu vai lá buscá.
___Nem
precisa esperar Benjamim. Lá eu não volto mais.
___Como é
que eu vô vê a Dorony ?
___
Quando quisé vem aqui – Francisco avisou – Ela vai ta sempre aqui.
___Vô
trazê umas coisas pra ela...
___ Num
percisa, mas se truxé a gente aceita. Agora vai Benjamim... Vai vivê sua vida e
dexa minha fia que eu cuido dela.
Benjamim
saiu pisando duro e seu pensamento era só vingança. Ia deixar aquela sem
vergonha pelada, sem roupa. Da casa dele ela não ia tirar nada!!! Queria ver
ela pedir de joelho pra voltar. Ia preparar um bom trabalho com as coisas do santo
deles. Eles iam ver a vira volta que a vida ia dar. Iam ter que pedir arrego.
Ah, isso iam. O que era deles estava guardado !
Quando
chegou em casa, sua nova mulher o esperava e ficou aliviada quando viu ele
chegando sozinho. Ele estava de cara amarrada, mas depois passava.
Agora era
aprontar o terreiro, ajeitar tudo que as consultas iam começar na parte da
tarde. Era dia de ganhar dinheiro, e ela estava ali pra cambonar os santos.
Lá no
Morro da Petrina, na parte da tarde, Francisca chegou com Latifah e Samira,
trazendo malas de roupas e calçados para Manega e Dorony e vinham com uma
proposta de Samir. Na semana seguinte a família se mudaria para um casarão que
eles tinha lá na Rua do Coqueiro.
A casa
ali era muito pequena e Dorony precisava de mais espaço. Também ficariam mais
perto da casa de Latifah.
Manega podia descansar aquela semana e na
semana seguinte começaria a trabalhar no Grande Hotel como camareira. Assim que
houvesse uma vaga melhor ela seria promovida. Por enquanto era a única vaga que
tinha, mas apesar de ser um salário baixo, dava pra ir vivendo.
Francisco
continuaria com Samir ajudando com os mascates e no hotel e Francisca
continuaria na casa de Latifah, podendo levar Dorony todos os dias, até as
coisas se assentarem.
Tudo
combinado, a vida foi seguindo em frente. Mudaram-se e deixaram a casa da Rua
da Petrina fechada. O casarão era tão grande, que mesmo depois de tudo arrumado
nos lugares, parecia que estava vazio. Quase em frente ficava a venda de
Latifah, e era costume os mascates pararem ali para abastecer suas cargas, pois
lá é que pegavam as mercadorias com que
iriam trabalhar durante o mês, visitando as fazendas distantes.
O que não tinha ali normalmente, Samir
comprava em outro local e na época certa que os mascates começavam a chegar,
Latifah já tinha tudo preparado.
Era um sobrado de cômodos grandes que
funcionava na verdade como um depósito na parte de cima, e na parte de baixo
eram feitas as vendas no varejo. Quando o movimento ficava muito grande eles
contratavam ajudantes temporários e o serviço transcorria em tempo sem
problemas.
Benjamim
quase nunca aparecia, e quando vinha ver Dorony, mal se demorava. Não era
carinhoso e nem tinha como agradar a filha, por isso trazia um pirulito, um par
de meias e coisas assim.
Sentava
na escada do casarão, sempre quando todos estavam em casa, e ficava olhando a
filha brincar com algumas outras crianças.
Seus
olhares eram mais pra Manega que estava cada vez mais bonita. Mas ela custava a
aparecer. Ficava por dentro de casa enquanto ele estava lá, mas ele não tirava
os olhos sempre que ela passava fazendo uma coisa ou outra.
Tinha
voltado a desejar a mulher, mas percebia que ela não o queria mais, apesar de
não ter arrumado outro.
Também
naquele tempo e ali naquela cidade, mulher largada não arrumava homem que
prestasse. Ninguém queria . Mulher largada era um tabu. Ele podia ficar
sossegado que ela não ia ficar com outro homem.
O que restava ali para as mulheres largadas
era a Zona de baixo meretrício, mas isso não era pra Manega que estava
trabalhando. Ela podia contar com a família de Latifah.
Enquanto
os Libaneses estivessem protegendo eles, Manega não precisaria de ninguém.
Benjamim
ficava pensativo, buscando um jeito de fazer Manega se interessar por ele.
Começou a agradar mais a menina e a procurar mais assunto com Francisco.
As vezes
entrava na venda de Latifah para comprar alguma coisa, mas o que ninguém sabia
é que o espírito ruim de Benjamim já estava planejando uma maneira de acabar
com toda aquele harmonia que existia ali e que o deixava de fora.
Começou a articular dentro do seu coração uma
maneira de fazer mal à família de Samir, para assim prejudicar a família de
Manega.
O destino
infelizmente ia ajudar...