Maria Líbia crescia feliz na Fazenda Hana. Vivia enfiada no pomar com a boquinha suja de manga e de calças compridas feito um molequinho porque não tinha modos e mesmo pequenina já tentava subir nas árvores menores. Corria o tempo todo atrás da criançada, filhos de outros colonos para que pegassem frutas para ela, e todos lhe faziam as vontades.
Logo após o nascimento da menina, as pessoas estranharam a cor da criança. Como podia, filha de índios, ter aquela cor e aqueles cabelos tão claros ? Estranharam mas ninguém perguntou e nem a tratavam diferente por essa razão.
Latifah algumas vezes quis indagar de Francisca mas desistia sempre por medo de ofender a moça a quem ela queria tão bem. Sentia que Maria Líbia não era filha de Francisco, mas sua imaginação lhe trazia à memória as histórias que os índios contavam de que os deuses às vezes visitavam a terra com a forma humana. Ficava confusa. Sua alma romântica outras vezes, criava uma história de amor impossível cujo fruto brincava ali no seu quintal, mas fosse como fosse, amava muito aquela menina. Muito mesmo !
No meio das outras crianças Maria se destacava por ser dona de um sorriso cativante. Gostava de cantar as cantigas de sua mãe, e imitava os bichos da fazenda provocando gargalhadas e muitas palmas que sempre agradecia como se fosse uma artista de verdade, igual aquela do circo que passara por aquelas bandas e que deixara saudades.
Francisca só a chamava de Maria, porém Francisco pegou uma mania de chamá-la de Nega que não tinha jeito. Era Nega pra lá, Nega pra cá, para desagrado da mãe que sempre reclamava: "O nome dela é Maria, homi."
Ele até "tentou" mudar o costume e começava a chamar " Ma..." não lembrava o resto e completava: " Nega". Tanto tentou, tanto fingiu que não acertava, que o apelido pegou: Ma...Nega. (Manega)
Samir e Latifah adoravam o apelido e não perdiam a oportunidade de repetí-lo as vezes até sem motivo nenhum. " O menino Manega é muito esperta " dizia Samir dando risadas.
Aquela criança enchia a casa de vida e Latifah tinha se tornado mais animada, parecendo uma criança, depois que Manega nasceu.
Francisco e Francisca também terminaram se rendendo aos apelidos Chico e Chica pois afinal não tinham mais seus nomes de origem, e assim, tanto fazia. Qualquer nome "tava munto bão".
Chica lidava na casa da fazenda com uma facilidade muito grande. Cuidava dos quartos e fazia a comida para os colonos. Catava no quintal o que fosse preciso usar porque a horta era farta e criação não faltava.
Era asseada e cuidadosa agradando a todos que comiam na casa da fazenda, e não atrasava jamais com seu serviço.
Chico trabalhava com tudo e por ter a confiança do patrão, andava pelas lavouras de café, orientando os trabalhadores, verificando a situação da plantação atento a qualquer praga e cuidando para que as doenças não se alastrassem. Além disso, inspecionava os cuidados com as criações da fazenda, atento à tudo, cuidando pessoalmente dos partos e da ordenha para que nada fosse desperdiçado.
Sempre que Samir estava disposto, dispensava Chico, e ia êle mesmo cuidar de tudo para não perder o "prazer". Era nesses dias que Chico acariciava o rosto da mulher, dava um abraço apertado em Manega e se embrenhava mata à dentro. Chica já sabia que ele só voltaria à noitinha e chegaria como quem esteve longe por muito tempo, e a quem a saudade já estivesse machucando. Aí ela estaria na rede esperando, com os cabelos soltos, o corpo cheirando a ervas e as mãos preparadas para alisar aquela cabeça. Sim, a cabeça, pois desde que saíra da aldeia Puri, Chico nunca mais deixou o cabelo crescer. Usava-o quase raspado e não deixava aumentar de tamanho. Estava sempre de navalha na mão raspando as penungens que queriam aparecer.
Chico, quando ganhava a mata, arrancava a roupa, tirava as botinas, botava tudo nos galhos de uma árvore e engrenava uma corrida louca se enfiando cada vez mais no meio da vegetação. Ia para o rio que banhava toda aquela região. Buscava sua parte mais deserta e mergulhava nu em pelo, recordando-se do seu tempo de valente quando era parte da natureza. Procurava alguma caça para levar pra sua amada e nesse ambiente, corria, bebia água, assava alguns lambaris que pescava, descansava deitado na beira do rio ouvindo o canto dos passarinhos e o barulho do vento. Brincava com os raios do sol furando as sombras da mata e cantava cantigas para os deuses.
No final da tarde, quando Guaraci se despedia dos humanos e ia ao encontro de Jaci, Cornéis mais uma vez mergulhava nas águas e do fundo mirava o resto de luz que se deitava na maciez da água, e então subia. Recolhia uma flor bonita, catava algumas contas bonitas, a caça que pegara e iniciava a volta com o coração leve. Ao chegar na árvore pegava suas roupas, calçava as botinas e por último botava o chapéu. Só então Chico pisava no terreiro de casa e ia ao encontro de seu verdadeiro chão: o corpo de sua mulher...
Na terra que lhe foi cedida por Samir, Chico plantara mandioca e com ela preparava cauim que costumava beber com a mulher e os patrões. Por causa de suas crenças, Chico e Chica quando estavam embriagados, costumavam ficar como que em transe, e como Samir e Latifah já tinham tido contato com a religião dos negros, eram muito crédulos, acreditavam que o casal estava possuído por algum tipo de entidade e durante essas sessões, faziam pedidos e perguntas ao casal, que com o passar do tempo foi se habituando a essa prática periodicamente. Eles mesmos, Chico e Chica, achavam que realmente estavam possuídos, (e talvez estivessem realmente).
Latifah era louca pra engravidar e vivia pedindo isso todas as vezes que Chica parecia incorporada.
Oferecia presentes e mil coisas para a entidade que julgava estar ali, se ela conseguisse que Latifah engravidasse.
Por ironia do destino,isso realmente aconteceu e a mulher julgou ter sido um favor especial do espírito que Chica recebia.
A alegria se instalou definitivamnete no coração da libanesa e ela não sabia mais o que fazer para agradar a Chica.
A india jamais se aproveitou dessa fraqueza da patroa mas era obrigada a aceitar os agrados e as mordomias que a mulher lhe dava.
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