terça-feira, 21 de março de 2017

XI - Contos no Conto.

          Francisca já nada tinha da indiazinha que um dia saiu de sua aldeia com o coração partido por deixar os seus, mas que no fundo acreditava que os brancos tinham alguma coisa de superior... uma sabedoria poderosa que de certa forma poderia mudar tudo a sua volta. Achava que aquela raça era ligada aos deuses e que assim sendo, era digna da mais profunda submissão. Agora, seu coração já acumulava a desconfiança e até um certo desprezo pelos brancos. A lembrança de tudo o que havia acontecido com Bento Vaz e com o pai da Galega a perseguia e por vezes era atormentada por pesadelos alucinantes onde via-se penetrada por uma jararaca que lhe mordia as entranhas inoculando no seu interior um veneno ardente como fogo. Despertava apavorada e se agarrava com Francisco buscando no seu calor ameno o alívio para seu desespero. Quando Francisco tocava com as mãos espalmadas, as suas mãos, um frêmito de felicidade a percorria, e o amor que então acontecia assemelhava-se ao desabrochar das flores, ao despencar da cascata, ao amanhecer de um dia de sol.
      
                                           Pausa para explicar.
          Quando menina, mamãe me dizia que eu não deixasse os meninos pisarem na pontinha do meu pé porque era feio e era “saliência”.  Também não podiam tocar ou fazer cosquinhas com o dedo, nas palmas das minhas mãos. Isso era pecado e uma grande “bobiça”. O engraçado é que os meninos realmente costumavam fazer essas coisas, e mesmo quando viemos para o Rio de Janeiro, lembro que também havia esse hábito.
          Lá em Minas, quando o menino pisava a ponta do pé de uma menina, estava pedindo para namorá-la e beijá-la; quando fazia cosquinhas na palma da mão, estava pedindo “aquilo” que “uma mocinha não pode fazer. Só os casados.”
E isso acendia o imaginário feminino infantil. Só de pensar em receber uma dessas “carícias”, já  ficávamos com “fogo no rabo” e meio que provocávamos os meninos. E quando acontecia, ah, Jesus !!!  A sensação era indescritível !
          Claro que não passávamos da “pisadinha” e da “cosquinha” com medo do chão se abrir e o Capeta em pessoa vir nos buscar para o Inferno, mas que causava arrepios e desejos, lá isso causava. E éramos crianças, imagine !
          Lendo sobre os índios do Brasil, verifiquei que em algumas tribos guaranis e  tupinambás a zona erógena pode variar não estando nos órgãos sexuais ou próxima a eles. Em algumas tribos, os pés são os provocadores de excitação sexual, em outras são as mãos. Interessante porque, na tribo de Capora e de Cornéis, as mãos tinham o papel de proporcionar a libido. O ato sexual era sempre iniciado pelo encontro das mãos do casal juntas e espalmadas sobre a cabeça, de onde eram arriadas lentamente até estarem ao longo do corpo quando ainda unidas,  eram introduzidas entre os dois para só então serem separadas e serem erguidas ainda entre os dois corpos, passando pelo sexo, subindo pelo peito e alcançando o pescoço, quando já então o casal  estava tomado pelo desejo, pelo prazer e era só  emoção.
          A minha mãe contava, que ouviu de sua avó, Francisca (cristã), Capora (a india puri) ,que por conta disso, as mulheres da tribo, gostavam de excitar os valentes, manuseando as mandiocas com maliciosos movimentos. Também faziam bolas de massa de mandioca com demorado capricho, simulando carícias. Ao se alimentarem com as mãos, também movimentavam os dedos na comida, e levavam o alimento à boca com gestos sugestivos que aguçavam os desejos dos homens. Nesses momentos lançavam olhares prometedores e comprometedores, torcendo para que o passeio de Guaraci pelo céu fosse muito breve, e rogando a Tupã que Jaci trouxesse uma luz mágica e terna vibrando energia sobre os casais.
          As mãos eram tabu, e não se cumprimentava com elas pois se um rapaz tocasse as mãos de uma virgem, e se isso fosse presenciado por um ancião, já era considerado um compromisso. O cumprimento na aldeia se resumia em tocar a própria testa com a ponta dos dedos da mão esquerda, e levar essa mesma mão em seguida para tocar o próprio ombro direito. Esses gestos significavam “eu te respeito” e “sou teu amigo”. A cuia com mel era servida em seguida como boas vindas ou para testemunhar a alegria da amizade sempre renovada a cada dia.
          Não sei os costumes nas outras tribos de Puris, mas na tribo de Capora e Cornéis, o valente podia ter mais de uma mulher, mas  não podia repudiar a nenhuma durante toda sua vida, e tinha que suprir a quantas tivesse, do necessário para sobreviver, além de cuidar dos filhos até que as meninas se unissem a um parceiro, e os meninos se tornassem valentes.
          As mãos eram consideradas instrumentos sagrados dos deuses para prepararem o corpo da mulher que receberia a semente de um novo ser. Este novo ser viria para abrigar o espírito de um antepassado,  e o respeito que se tinha pelo ato sexual, originava esse quase ritual preliminar.
          Claro que o prazer era considerado porque não se foge dele, mas a responsabilidade vinha em primeiro lugar. O amor entre um valente e uma índia tinha como principal finalidade gerar vida.

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          Não só com os pesadelos Capora voltava ao passado. As vezes ao cantar alguma canção de sua tribo, ao mirar as águas do Rio Manhuaçu, ao cruzar com alguma pessoa que lhe lembrasse alguém...
         Foi através de um mascate que veio pedir emprego a Samir, que ela ficou sabendo de tudo o que aconteceu com a família de Bento Vaz. Marinalva morrera levando no ventre a criança que esperava. Bento Vaz enlouquecera e vivia preso num quartinho no sótão de uma casa que tinha comprado pouco antes da morte da mulher. O pai de  Marinalva  também tinha morrido em conseqüências misteriosas. Tinha sido  encontrado com marcas, como se tivesse sido atacado por alguma fera mas as mordidas que tinha pelo corpo, pareciam humanas. Ninguém entendeu.
A mercearia ia melhor do que nunca, administrada pela Sra. Perciliana que se revelara uma ótima negociante. A nova rica, vestida com roupas caras, vivia pra cima e pra baixo numa charrete elegante, sempre acompanhada de seu ajudante. Diziam as más línguas que tarde da noite, o rapaz deixava o quartinho atrás do comércio, entrava sorrateiramente na casa grande, para dormir aconchegado entre lençóis cheirosos, nos braços da patroa. Isso diziam as más línguas...
          Dona Perciliana só não internava Bento Vaz num hospício, por causa de Rashid. Numa esperteza sem tamanho, Bento, quando ainda em gozo de suas faculdades mentais, deu a Rashid um documento, passando para o mesmo todos os seus bens caso lhe acontecesse alguma coisa.. Era um documento legal do qual todos tinham conhecimento. Ele dizia que era para garantir seu patrimônio, e em caso de sua falta um dia, seria a forma de agradecimento por todo o bem que o amigo de seu pai lhe fizera.
          Acontecendo então o desvario do comerciante, Rashid exigiu que ele fosse muito bem cuidado pela sogra, sob pena de caso isso não acontecesse, ter que abandonar a casa e o comércio, deixando por conta dele a administração e o cuidado do doente. Dos males, o menor.  Bento comia, bebia, dormia e era acompanhado pelo médico da cidade. Rashid também prometeu a Perciliana a posse total dos bens quando seu protegido morresse. Essa promessa animava Perciliana.

                                                                A Partida de Marinalva.
          Nhanderuvuçu adormeceu Capora e levou seu espírito para conhecer os detalhes de tão cruel desfecho. Foi assim:
Francisca deitou-se para dormir depois de falar com seus deuses. Havia pensado em Marinalva quando no céu passou uma “rasga mortalha” com seu grito fúnebre, logo no comecinho da noite.. Já sabia que a Galega tinha partido para a morada de seus deuses, mas nem imaginava como isso tinha acontecido. Pensou com tristeza em tudo que presenciou na casa de Bento Vaz e parecia-lhe ver os olhos azuis de Marinalva a flutuar no espaço. Lembrou da risada bonita da menina quando estavam no banho de cachoeira ou quando apostavam corrida para ver quem mergulhava primeiro. Lembrou do corpo branquinho feito mandioca descascada, dos cabelos avermelhados caindo em cachos pelas costas, das mãos de dedos longos e nervosos. Dormiu na saudade daquela amizade que durara tão pouco tempo. Seu espirito então saiu do corpo e voou por sobre rios, vilas e matas, indo parar na porta da casa onde no passado vivera com Marinalva e seu marido Bento Vaz. A escada com 3 degraus que dava acesso à sala, parecia ter vida. A roseira que lançava seus galhos subindo pelo madeirame, exibia rosas vermelhas brilhantes e cheirosas. Parecia estar amanhecendo e o orvalho estava presente tornando o verde do capinzal que rodeava o caminho, mais intenso e rutilante. De repente a porta se abre e eis que surge Marinalva com a barriga enorme, magra e vacilante. Parecia estar muito doente. Mesmo cambaleando seguiu pelo caminho de terra e sem oihar para trás, embrenhou-se mata a dentro rumo ao rio. Capora seguiu atrás chamando pela Galega que parecia não vê-la. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, Capora seguiu a moça preocupada. Pelo tamanho da barriga, o tempo do parto estava próximo e ela não deveria afastar-se tanto de casa.
          Na beira do rio, Marinalva se sentou, colocou os pés dentro da água e ficou ali  parada olhando o nada. De seus olhos azuis, grossos pingos caiam indo piriricando com as águas que corriam indiferentes. A índia queria perguntar o que estava acontecendo mas já percebera que a menina não a via ou ouvia. Assim ficou Marinalva por um bom tempo, olhando o nada e chorando. De repente deu um sorriso, ficou em pé, despiu-se e entrou no rio. A índia estremeceu ! Todos sabem que ninguém deve entrar nas águas de um rio no meio da mata, sozinho. Quantas vezes tinha  falado isso para a Galega. Agora, se alguma coisa acontecesse, quem poderia ajudá-la ?
          Pesada por causa da barriga, Nalva foi caminhando pelo raso, brincava com a água trazendo as mãos em concha bem cheias e despejando sobre a barriga.Molhava o rosto sardento, olhando os raios de sol que vinham enfeitar a correnteza com um brilho prateado. Um passo, outro... uma pequena braçada e Capora viu quando o braço da Iara saiu da água e abraçou Marinalva pelo pescoço. Olhou horrorizada as águas se fechando sobre a menina, e correu, ou voou até lá.  Mergulhou ansiosa para tentar puxá-la, mas tudo o que viu sob aquele mar, foram dois grandes olhos negros, vivos, expressivos, estáticos. Olhos de morte :os olhos da Iara !
          O soluço de Capora assustou os pássaros que se calaram. A graúna respondeu pouco depois com um canto longo e triste. Nada mais... Nada mais ali. Só os raios do sol furando a vegetação e mergulhando no rio.

                                                      A Doideira de Bento Vaz
          Ainda não estava refeita do susto quando se viu em mata fechada. As árvores altas escureciam tudo, e a vegetação rasteira enroscava-se em seus pés. De repente ouviu um grito. Correu naquela direção e de repente viu-se na frente de Bento Vaz. Não havia sorriso nos seus lábios e seus olhos tinham um brilho estranho. Chamava por  Marinalva  e a procurava por detrás das árvores e  por entre os arbustos.Usava a capa comprida que costumava vestir à noite quando voltava da mercearia para casa. A capa que servia para encobrir suas porcariadas, e suas maldades com a inocente esposa. Abria a capa como se ela fosse as asas de um demônio como Jurupari e parecia que ia voar. A índia escondeu-se, achando que ele pudesse vê-la, mas o que aconteceu a seguir foi o horror dos horrores.
          Deslizando silenciosamente entre as árvores, uma enorme jibóia se aproximava. Seus olhos faiscavam cada vez que encontrava uma réstia de luz. Ameaçadora e terrível a cobra começou a subir numa árvore e lentamente foi ganhando o seu topo. O corpo dela assemelhava-se ao tronco da árvore, e de longe era impossível definir onde ela estava.
          Embaixo, o homem continuava sua busca, ora dizendo palavras carinhosas, ora fazendo ameaças absurdas à sua mulher, porém não a encontrava. Em determinado momento, ele colocou-se bem embaixo da árvore onde a jibóia estava. Capora, de seu esconderijo, tremia de medo, não da cobra, mas do homem. Temia que ele a encontrasse e mais ainda, que ele encontrasse Marinalva fraca e indefesa. Olhou à sua volta para ver se havia alguma coisa que pudesse usar como arma, e então o grito de horror invadiu a mata. Dependurada na árvore, presa pela cauda, a jibóia arriara meio corpo e envolvera Bento Vaz em seus anéis. O homem gritava enquanto se esforçava para se soltar. Seus olhos saltavam das órbitas, e a capa parecia as asas de um morcego. As mãos estavam presas ao longo do corpo e ele só conseguia se remexer como um verme, sem no  entanto conseguir se soltar. A cobra revirou-se, trouxe o homem para o centro do seu corpo e de seus anéis, e veio com sua cabeçorra em direção à cabeça do desesperado rapaz. Capora fechou os olhos. Cobriu o rosto com as mãos. Não ouviu mais gritos. Acabou-se ! Abriu lentamente os olhos e o que viu foi horripilante: a cara de jibóia de frente com o rosto de Bento. Os olhos traiçoeiros fitavam os olhos aterrorizados do homem, enquanto a língua bifurcada explorava o medo dele. Ele já não gritava. Só os olhos parecia que iam saltar da face e não havia mais reação nenhuma dele. Foi aí que a jibóia o soltou. Estava suspenso a uma certa altura do chão, caiu portanto causando um ruído oco, e ali ficou. Olhar fixo na cobra que foi se transformando num caboclinho de cabelos vermelhos, com os pés virados para trás. O Caipora !!!  A mata encobriu seu protetor que em três saltos e uma gargalhada sumiu, deixando o grande Bento a dizer coisas sem nexo, rir e chorar ao mesmo tempo. Completamente desvairado.

                                                               O Velho e a Morte.
          Nem bem se recobrara da surpresa, já a índia estava em outro local. Era um lugar muito bonito, com um rio encachoeirado límpido como um céu de verão. A vegetação da beira era muito florida e borboletas voavam colorindo o lugar com suas asas multicores. Capora subiu numa árvore para melhor apreciar aquele maravilhoso cenário. Recostou-se num galho  pois uma brisa suave convidava ao silêncio para se ouvir a voz da mata.
          Ainda no impacto da beleza, Capora viu o pai da Galega chegar trazendo pela mão uma indiazinha ainda pequena. A menina lutava para se soltar, mas ele a segurava com firmeza enquanto ria alucinadamente. A menina já tinha pequeninos seios e seu corpinho franzino começava a tomar forma. De dentro do coração da índia brotou um frio que lhe percorreu o corpo até chegar aos cabelos. Viu o Velho alisar os cabelos da inocente e deixar as mãos imundas descerem até as ancas. Foi aí que deu-se o inesperado: ouviu-se um rugido feroz e aquele pequeno ser agigantou-se na agilidade. Parecia ter muitos braços, muitas pernas... Os cabelos voavam de um lado para o outro enquanto as unhas iam rasgando roupas e carne. O sangue escorria dos ferimentos. A boquinha pequena arrancava pedaços de carne que ela cuspia para o lado, voltando a morder em outro lugar. Em pouco tempo, pouco restava da roupa do Velho asqueroso, e ele já não lutava e nem gritava mais. Ai, a pequena índia num salto alcançou a árvore onde Capora estava. Era a própria visão de um demônio com olhos amarelos e a  boca ensangüentada.Dali a indiazinha pulou para a outra árvore e já não era uma menina, mas uma enorme pintada de ancas luzidias e patas ligeiras. Foi num relance mata à dentro, urrando para o silencio. Só Capora, assustada ficou ali estática, sem conseguir mover um músculo do corpo e tremendo de medo da onça voltar. De repente, sentiu a árvore se balançar e sacudir. Quando começou a cair, viu-se do lado de Francisco que a chamava com carinho. Nhanderuvuçu havia libertado seu espírito, depois de lhe contar os segredos da mata. Agora ela sabia tudo o que havia acontecido e tinha a certeza de que a natureza fizera justiça.
          Tudo tem seus fundamentos, suas razões e seus mistérios. Capora pensou no passado. Não podia mais se dizer uma puri, mas também não era uma branca, porém agora sabia que seus deuses não a haviam abandonado.
          Confirmava-se seu pensamento: os brancos tinham o poder de mudar vidas sim. A sua mudara, a de Francisco mudara. Os brancos só não sabiam que o poder da natureza era maior que o deles.