domingo, 14 de fevereiro de 2021

XIII - As cobras da cidade.

 

Um dia, Manega foi passear na casa de Latifah levando a filha. Costumava fazer essas visitas sempre para Dorony brincar no jardim da casa e costumava demorar bastante. Nesse dia, por causa do tempo virando, resolveu voltar mais cedo pra casa, e foi surpreendida, encontrando Benjamim, com a filha de santo que a substituía cambonando, na sua própria cama, na maior intimidade.

Não era mulher de ficar quieta. Apanhou a vassoura e meteu bordoada à torto e à direito. Trazia Dorony enganchada na cintura e mesmo assim, fez um escândalo danado.

Bateu, correu atrás da mulher pelo quintal, quebrou pratos e jogou panelas pro alto. Entrou dentro do terreiro feito doida e começou a derrubar tudo pelo chão. Dorony enganchada na cintura...

Alguém pegou a menina. Era Francisca que tinha vindo trazer as duas e já estava voltando para a casa de Latifah quando o “sururú” começou. Voltou correndo a tempo de pegar a neta.

 Meio sem entender o que estava acontecendo, pedia à filha que tivesse calma. Pensou que ela estava “incorporada”. Não sabia o que fazer.

Manega começou a quebrar as “quartinhas”, as louças dos “santos”, totalmente enfurecida. Veio gente de tudo quanto é lado ! Mas Benjamim não ia passar aquela vergonha sozinho. Pegou Manega pelos cabelos e tentou jogá-la no chão. Não sabia que já tinham ido avisar ao pai de sua mulher. Francisco entrou porta à dentro feito um touro. Com uma marrada só derrubou Benjamim que não teve mais reação. Segurou e abraçou a filha, e só então ela se acalmou. Olhou o pai e começou a chorar.

A amante de Benjamim, seminua, foi trazida por outro filho de santo para pegar o resto de suas roupas e depois de vestida, parou em prantos em frente a Manega. Disse estar grávida de Benjamim e que os encontros deles já aconteciam antes da pequena Dorony nascer.

Sem uma palavra, Manega tomou a mão de seu pai e o puxou em direção à saída do barracão onde Francisca já estava com a bebê no colo.

Ao passar por sua mãe, tomou sua mão também e seguiram rua abaixo em direção à subida da Petrina. Nem uma vez olhou para trás e Benjamim também não a seguiu.

Ele se levantou, começou a arrumar a bagunça que havia no local sem olhar pra ninguém. Alguns filhos da casa foram ajudando, os curiosos começaram a ir embora e a noite foi avançando sobre todo estrago causado naquele lugar.

Quando chegaram em casa, Chico e Francisca, mandaram Manega tomar banho, cuidar da sua pequenina se deitar na cama deles e descansar. Amanhã seria um novo dia.

Francisca fez um chá de ervas que deu à filha, e preparou um leitinho pra neta.

Muito rápidamente as duas estavam dormindo.

Ai então, Capora e Cornéis se deram as mãos, se sentaram num banquinho do lado de fora e ficaram conversando com a lua e as estrelas que agora brilhavam no céu. Parece até que tinham armado aquela chuva mais cedo de propósito, pra Manega descobrir a falsidade de seu homem. Ali dormiram, um encostado no outro como nos velhos tempos, lá na Fazenda Hanah.

Quando o dia nasceu, veio encontrar os dois ali juntinhos como se tivessem passado apenas alguns minutos.

Os gritos de Dorony fizeram com que Francisca desse um pulo e corresse para dentro. Ah, lá no quarto, Manega ainda dormia, mas Dorony já estava aprontando sentada debaixo do móvel da máquina de costura, dançando e gritando a mãe. Quando viu Francisca correu desajeitada, as fraldas caindo pelas pernas abaixo e pulou no colo da avó.

___ “Vovó Chiquinha!!! Vovó Chiquinha !!!  Nenê qué mamá !!!”

 Chico entrou porta a dentro todo sorridente.

___ “Então ocê é Nenê, né? Nenê do Vovô Chico !  Vem cá minha cocadinha branca.”

Engraçado é que daquele dia em diante Chico, imitando o que fizera com a filha, passou a chamar a neta de Nenê, e assim a pequenina ficou com dois apelidos: Doró e Nenê !!! E atendia quando chamada por qualquer um deles, parecendo achar muito divertido ter dois nomes.

Manega levantou e foi cuidar da filha, enquanto Francisca se preparava para ir para a casa de Latifah, mas falou que assim que pudesse vinha em casa. Pediu ao Marido para ficar que avisaria a Samir da necessidade de Francisco ficar em casa porque com certeza Benjamim ia aparecer por lá e Manega não podia estar sozinha.

Mal Francisca saiu, aconteceu o que ela pressentira. Benjamim chegou, mas veio manso. Queria conversar com Manega na paz. Francisco disse que ia estar do lado e não adiantava fazer pressão. Qualquer coisa que eles resolvessem, ele tinha que estar sabendo e não abria mão disso, afinal Manega era sua filha única e só tinha ele para protegê-la.

Ela, Manega, não queria conversa, mas foi aconselhada pelo pai a ouvir e decidir com seu marido o que fariam dali para a frente. Aceitou, mandou Benjamim entrar, ofereceu um café e se sentou para escutar o que ele tinha a dizer.

Chico puxou um banquinho, pegou o canivete, puxou um pouco de fumo da gaveta e começou a picar para preparar um cigarro.

Dorony não tinha muita intimidade com o pai, por isso, muito desconfiada, ficou perto das pernas da mãe e de olho no avô. Parecia entender o que estava acontecendo.

Benjamim estava meio sem graça e de olhos baixos parecia não ter coragem de falar nada ou não encontrar o que falar. Manega então se adiantou:

___ Diga, Beija. O que é que você quer comigo agora ?

___ Vim te buscar mais Dorony. Tu é minha mulhé, num tem cabimento vim dá trabáio aos teus pais.

___ Beija, vou falar só uma vez. É para sempre. Não volto mais nunca pra sua casa.

___ Mas isso num tem cabimento, nega. Tu é minha mulhé.

___ Uma das suas mulheres, isso é o que sou. Não volto mais mesmo. Nem casados no papel nós somos. Você registrou Dorony mas nunca ligou pra ela. Agora tem sua cunhã  lá esperando filho teu. Fica com ela e faz bom proveito porque eu não te quero mais.

___E se eu te pedi perdão, nega ?

___Não tem o que perdoar. Não te tenho raiva nem mágoa. Você é assim, sempre foi e nunca vai deixar de ser. Eu que não quero mais essa vida pra mim. Vou trabalhar. Sei ler, escrever e contar e vou procurar emprego. Vou conseguir numa loja, no hotel do Seu Samir. Qualquer lugar. Voltar é que eu não volto.

___Intão, vô tomá Dorony de ti, nega. Como que uma mulhé sozinha vai cuidá de uma menina ???

___ Sózinha não – Francisco entrou na conversa – ela tem eu e a mãe dela pra ajudá a cuidá da minina. Se ocê quisé vai no juiz, mas vai tê que ispricá comé que tem duas muié dentro de casa. Uma com uma fia de dois  anos e a outra buchuda. Vamo vê se argum juiz vai te dá direito.

___Eu não quero brigá, mas quero levá minha mulhé e minha fia de vorta.

___ Pois se ela num qué – disse Francisco – num vai vortá. É mio ocê vortá prá trás e isquecê minha Manega.

___E as obrigação dos santo docês, cume que vai ficá ?  Ocês são meus fios de santo.

___Olha Beija, -disse Manega- você faz o que quiser com nossa louça. Se quiser guardar, guarda. Se quiser me devolver, devolve e se quiser pode jogar fora. Eu não acredito em nada daquilo mais. De hoje em diante eu nunca mais piso num terreiro de macumba. Quero esquecer tudo aquilo.

___ Intão eu vou imbora. Mas lá de casa Manega, tu não tira nada. Vô guardá a louça e cuidá dos orixás. Se um dia tu fô pra ôtra casa de santo, tu vai lá buscá.

___Nem precisa esperar Benjamim. Lá eu não volto mais.

___Como é que eu vô vê a Dorony ?

___ Quando quisé vem aqui – Francisco avisou – Ela vai ta sempre aqui.

___Vô trazê umas coisas pra ela...

___ Num percisa, mas se truxé a gente aceita. Agora vai Benjamim... Vai vivê sua vida e dexa minha fia que eu cuido dela.

Benjamim saiu pisando duro e seu pensamento era só vingança. Ia deixar aquela sem vergonha pelada, sem roupa. Da casa dele ela não ia tirar nada!!! Queria ver ela pedir de joelho pra voltar. Ia preparar um bom trabalho com as coisas do santo deles. Eles iam ver a vira volta que a vida ia dar. Iam ter que pedir arrego. Ah, isso iam. O que era deles estava guardado !

Quando chegou em casa, sua nova mulher o esperava e ficou aliviada quando viu ele chegando sozinho. Ele estava de cara amarrada, mas depois passava.

Agora era aprontar o terreiro, ajeitar tudo que as consultas iam começar na parte da tarde. Era dia de ganhar dinheiro, e ela estava ali pra cambonar os santos.

 

Lá no Morro da Petrina, na parte da tarde, Francisca chegou com Latifah e Samira, trazendo malas de roupas e calçados para Manega e Dorony e vinham com uma proposta de Samir. Na semana seguinte a família se mudaria para um casarão que eles  tinha lá na Rua do Coqueiro.

A casa ali era muito pequena e Dorony precisava de mais espaço. Também ficariam mais perto da casa de Latifah.

 Manega podia descansar aquela semana e na semana seguinte começaria a trabalhar no Grande Hotel como camareira. Assim que houvesse uma vaga melhor ela seria promovida. Por enquanto era a única vaga que tinha, mas apesar de ser um salário baixo, dava pra ir vivendo.

Francisco continuaria com Samir ajudando com os mascates e no hotel e Francisca continuaria na casa de Latifah, podendo levar Dorony todos os dias, até as coisas se assentarem.

Tudo combinado, a vida foi seguindo em frente. Mudaram-se e deixaram a casa da Rua da Petrina fechada. O casarão era tão grande, que mesmo depois de tudo arrumado nos lugares, parecia que estava vazio. Quase em frente ficava a venda de Latifah, e era costume os mascates pararem ali para abastecer suas cargas, pois lá é  que pegavam as mercadorias com que iriam trabalhar durante o mês, visitando as fazendas distantes.

 O que não tinha ali normalmente, Samir comprava em outro local e na época certa que os mascates começavam a chegar, Latifah já tinha tudo preparado.

 Era um sobrado de cômodos grandes que funcionava na verdade como um depósito na parte de cima, e na parte de baixo eram feitas as vendas no varejo. Quando o movimento ficava muito grande eles contratavam ajudantes temporários e o serviço transcorria em tempo sem problemas.

Benjamim quase nunca aparecia, e quando vinha ver Dorony, mal se demorava. Não era carinhoso e nem tinha como agradar a filha, por isso trazia um pirulito, um par de meias e coisas assim.

Sentava na escada do casarão, sempre quando todos estavam em casa, e ficava olhando a filha brincar com algumas outras crianças.

Seus olhares eram mais pra Manega que estava cada vez mais bonita. Mas ela custava a aparecer. Ficava por dentro de casa enquanto ele estava lá, mas ele não tirava os olhos sempre que ela passava fazendo uma coisa ou outra.

Tinha voltado a desejar a mulher, mas percebia que ela não o queria mais, apesar de não ter arrumado outro.

Também naquele tempo e ali naquela cidade, mulher largada não arrumava homem que prestasse. Ninguém queria . Mulher largada era um tabu. Ele podia ficar sossegado que ela não ia ficar com outro homem.

 O que restava ali para as mulheres largadas era a Zona de baixo meretrício, mas isso não era pra Manega que estava trabalhando. Ela podia contar com a família de Latifah.

Enquanto os Libaneses estivessem protegendo eles, Manega não precisaria de ninguém.

Benjamim ficava pensativo, buscando um jeito de fazer Manega se interessar por ele. Começou a agradar mais a menina e a procurar mais assunto com Francisco.

As vezes entrava na venda de Latifah para comprar alguma coisa, mas o que ninguém sabia é que o espírito ruim de Benjamim já estava planejando uma maneira de acabar com toda aquele harmonia que existia ali e que o deixava de fora.

 Começou a articular dentro do seu coração uma maneira de fazer mal à família de Samir, para assim prejudicar a família de Manega.

O destino infelizmente ia ajudar...

 

 

 

 

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