Manega, grávida, sentiu
o peso de tantas responsabilidades, e principalmente percebeu que não tinha o
dom do charlatanismo que era a maior marca do caráter do seu homem.
Nem
pensava em aborto porque era filha de puris, não podia ir contra as leis dos seus
ancestrais. Iria ter aquela criança e tocar a vida como uma verdadeira
guerreira, feito sua mãe Capora que não desistiu dela e lhe ensinou todos os
preceitos Puris. Agora, principalmente, sendo uma Yaô no terreiro não podia dar
mau exemplo e tinha que adotar também os preceitos da religião que estava
seguindo e que da mesma forma que as leis puris, proibia o aborto.
Manega se
assustou muito quando uma entidade incorporada em Benjamim, lhe perguntou se queria se livrar da gravidez.
Era um
Exu velho que trabalhava muito para o mal, mas que Benjamim adorava incorporar.
Era a entidade que mais lhe rendia dinheiro e agrados, e era incrível ver como
tanta gente tinha prazer em ver o mal ser praticado. Em pagar para ver o mal de
outra pessoa.
A jovem
mulher disse com muito jeitinho que ia ter a criança, pois tinha vontade de ser mãe, e que “o Sr. não se
preocupasse”, que qualquer coisa ela avisaria a ele.
Ele, o
Exu, deu duas pitadas no charuto, jogou a fumaça sobre ela e disse:
___“Ma
suncê fica avisada que essa sua barrigada, só vai te dar pruveito agora. Num
tem futuro pra suncê com ela. Mas se qué, deixa vim. Vai sê muito deferente de
suncê.”
E saiu andando debochando com uma risada
alucinada.
Manega se
mudou de vez pro terreiro e foi viver com Benjamim como um casal. Continuava
freqüentando as sessões de macumba, mas estava com a barriga cada vez maior e
tinha muita dificuldade para as danças e para os atendimentos.
O marido
sempre tinha sido bem ignorante, mas como eles só viviam rodeados de gente
durante os dias e as noites, era difícil perceber aquela ignorância dirigida à
ela exatamente. Só quando começou a ficar mais no quarto por causa da barriga e
do desconforto, é que viu o quanto ele se importava só consigo mesmo e era orgulhoso ostentando para todos
os seus “poderes”.
Dificilmente Manega o via, pois ele ficava mais incorporado do que em si próprio,
e ela passou a gostar mais de conviver com as entidades que ele incorporava
porque se sentia mais bem tratada. Com a criança que ela esperava ele nem se
importava. Parecia que era nada. Seus carinhos só aconteciam com a mulher nos
momentos íntimos, fora isso ele não perguntava nem como ela estava se sentindo.
Francisca
continuava indo ao terreiro normalmente e sempre procurava a filha no quarto
levando alguma comidinha gostosa e querendo saber do neto. Do neto não, da
neta. Ela tinha certeza que o bebê da filha seria uma menina. Francisco, meio
desajeitado, abraçava a filha, perguntava se estava bem e sempre avisava:
___“Óia
Manega, a hora que ocê quisé vortá pra casa, pode vortá. Seu quartim ta lá fechado
arrumado. A Chica cuida , barre todo dia... Até umas roupa tem no guarda roupa,
que ocê dexô. Eu quiria que ocê tivesse lá com nós. Ia tê a criança lá, nós
ajudava a cuidá. Mas ocê num qué...”
Manega
abraçava o pai e nessa hora o contraste da cor de seus cabelos louros no peito
negro do pai era tão forte, que parecia a lua passeando no céu escuro.
___ “Não
pai, vou ter o nenê aqui. Tá tudo certo. Tem muita gente na casa pra me ajudar.
E assim que eu começar a sentir as dores eu mando avisar, pode deixar.”
Francisca
avisava logo:
___“Quem
vai apará minha neta sô eu. Ai de ocê Manega, se chamá outra partera. Ocê
sintiu dô, manda logo me chamá. Se eu num tivé pur aqui, eu venho num pulo. É eu que vô apará essa curumim
!!!”
Ela,
Francisca, nem sonhava que Manega já não estava tão feliz, mas Chico parecia
perceber que alguma coisa não ia bem. Por isso falava tanto na volta de Manega
para casa.
Mas o dia
finalmente chegou. Quando Manega começou a sentir as dores a macumba mal tinha acabado e Francisca ainda estava no
terreiro. Foi um Deus nos acuda !!! Ela
corria de um lado para o outro orientando as filhas da casa para os
procedimentos pro parto, e aí, quem ia embora resolveu esperar, quem tinha ido,
resolveu voltar e o terreiro encheu de novo.
Lá dentro
do quarto do casal Manega foi ajeitada
para dar a luz como as índias puris. De cócoras. Era o dia 14 de novembro de
1927 !
Não tinha
medo e era muito valente. Aquilo era só uma dorzinha. Ia passar logo assim que
a criança nascesse.
Francisca
sentou-se de frente pra filha no chão, e ela, a parturiente agachada, sentia os
movimentos da criança dentro do seu ventre. Toda a água já tinha saído e o bebê
forçava seu caminho em direção à luz. Só coroou uma vez. Na segunda já botou
aquela carinha linda pra fora, e recebeu as mãos da avó na sua cabeça, mas sem
nenhuma força, e levada pela própria natureza, deitou-se nos lençóis
imaculadamente limpos, arrumados no chão entre as pernas de sua mãe. Os dedos
ágeis da avó limparam a boquinha da pequena com muito cuidado e pegando-a pelas
perninhas, a ergueu no ar enquanto um chorinho manso se fazia ouvir. Parecia um
canto que vinha do fundo as almas. Todos que estavam ali, ficaram encantados. Francisca
cortou o cordão com uma pedra preparada para aquela ocasião. Tinha um gume
entalhado, fino como de uma faca. Francisca amarrou o côto. Pegou a pedra,
colocou junto umas ervas e pós, amarrou
num lenço branco que ela tinha preparado para aquela função e entregou à
Francisco mandando ele guardar no embornal que sempre carregava consigo.
___
Guarda Chico, que quando o imbigo cair, vai ficá aí junto. Isso vai dá proteção
à nossa curumim. Pegou a menina enrolou, abraçou e avisou: “Eu falei. É uma
menina !!!”
Benjamim
tinha estado por ali, falando com um e com outro extremamente calmo. Sorrindo e
bebendo cachaça na cuia. Quando Francisca avisou que era uma menina e que se
ouviu o “cunhé cunhé” da recém nascida, ele sorriu mais ainda e começou a
distribuir cachaça pro povo. Parecia bem feliz. Era um homem realizado.
Sua
branca tinha lhe dado uma filha. Claro que ele preferia um menino, mas tinha
tempo. Também, diziam as más línguas que ele tinha outros filhos com outras
mulheres, e isso mais tarde veio a se confirmar, mas naquele momento ele fazia
o papel de um pai feliz.
Logo, logo, o pessoal começou a assar uma
carne na brasa, e a cachaça foi rendendo até a metade do dia. Estavam festejando
a chegada de mais uma menina em Manhuaçu.
Clarinha
sem ser branquela igual à mãe, muito cabelo, castanho claro, encaracolados.
Depois do banho tomado, vestida e agasalhada na manta, parecia uma bonequinha
de louça. Mas os olhinhos fechados não deixavam saber a cor que tinham.
Francisca
não largava seu fardozinho cheia de
amores. Chico andava igual bobo atrás da mulher querendo pegar também a bebê,
mas quem disse que Chica deixava ? Vovó
Chiquinha já demonstrava o quanto ia ser ciumenta,
Manega tinha
ficado por conta das filhas da casa e de uma preta velha que só “desincorporou”
depois que todo movimento acabou.
Deu
banho, penteou e deitou Manega para descansar e receber o marido, que não veio.
Ficou lá por fora e depois partiu para fazer um trabalho numa fazenda em
Matipó, e por lá ficou três dias. Quando voltou agiu normalmente como se nada
tivesse acontecido. Quando trouxeram a bebê para ele, fez festa, brincou... sem
exageros, depois entregou para a mãe e pediu comida. Vida que voltava ao normal.
Latifah e
Samir foram visitar Manega logo no segundo dia e estranharam a ausência de
Benjamim, mas como respeitavam muito o Pai de Santo, não comentaram nada. Só
repetiam a toda hora que o que precisassem, podiam contar com eles.
Levaram
de presente sacas de arroz e feijão, muito frango vivo, muitos legumes que
buscaram na fazenda. Deram para a meninazinha um cordão de ouro estupendo,
grosso, pesado, com um crucifixo enorme!
Era uma pequena fortuna em forma de um agrado.
Manega imediatamente entregou o cordão a
Francisco e pediu que guardasse a jóia e que guardasse segredo sobre o
presente. Aquilo seria para garantir os estudos de sua filhinha, que havia de
ser professora se Deus permitisse. Talvez por um pressentimento ela não quis
que se falasse com Benjamim daquele agrado. Benjamim era muito esbanjador e
nada de valor durava com ele. Todos concordaram e assim ficou acertado.
Latifah
falou logo no batizado da pagãzinha. Era preciso se tornar cristã, mesmo tendo
nascido num terreiro de macumba e sendo filha de pais macumbeiros, ora, desde
que o mundo é mundo, macumbeiro é católico.
Haviam de
batizar a menina logo que Manega pudesse caminhar para ir à Igreja. Como é que
ia ser o nome da pequenina mesmo ? Ah, seria Dorothy, disse Manega. Mas como
assim ??? De onde surgiu esse nome
? Ninguém conhecia nenhuma Dorothy...
Ah, foi
de Samira, filha da Latifah, que Manega tinha ouvido esse nome pela primeira
vez. Ela, Samira, tinha uma professora que era estrangeira, e contou uma
história cuja personagem principal se chamava Dorothy. O nome da história era o
Maravilhoso Mágico de Oz, que encantou Samira e Manega de uma tal forma que as
duas combinaram: a que tivesse uma filha primeiro, ia colocar esse nome lindo
na criança. . Por isso o nome seria Dorothy...
Todos acharam um nome difícil de escrever e
até de pronunciar, pra não dizer que Francisco se mostrou horrorizado com
aquela “estrangeirice” de Manega. Implorou tanto pra que não batizassem a
menina com aquele nome feio que Manega concordou em mudar só um pouquinho.
Seria Dorony então... O que achavam ???
Ah,
aquele “pisilone” ali era muito feio !!!
mas Manega não abriu mão do “pisilone”. Ficava uma escrita bonita...
Ficou toda feliz quando todos concordaram. A madrinha ia ser a Samira e o irmão
Valtair. Latifah e Samir podiam consagrar. Pronto !!!
Todos eram só sorrisos ! Felicidade total !!!
Benjamim
quando voltou concordou logo com tudo dizendo que não ia porque não gostava de
igreja, mas que podiam fazer como quisessem. Ele ia batizar ela no terreiro. Ela
ia tomar banho de abô, dar uma obrigação
aos seus “santos de frente”, e os
padrinhos seriam a vovó Catarina e o Seu Boiadeiro. No dia da apresentação dela
no terreiro, ia ter toque a noite inteira e todos os orixás viriam trazer seu
axé para a pequena Dorony. Ia ser mais bonito que lá na igreja. Mais bonito e
mais animado ! Estava tudo nos
conformes. Vida pra frente!
O
batizado na igreja aconteceu como combinado. No domingo marcado todos foram à
missa das nove, pois os batizados eram sempre as dez e meia.
Por
coincidência, naquele domingo, Dorony foi a única criança a ser batizada e o
padre comentou brincando que ela tinha muita sorte, era sinal de que Jesus a
escolhera de forma especial. Dorony não
chorou ao receber o óleo e as águas do batismo. Pelo contrário: sorriu e abriu
bem os olhinhos castanhos. Parecia apreciar todo ritual e estar muito tranqüila
e feliz.
Na hora
da consagração, diante da imagem de Nossa Senhora das Graças, Dorony sorria
tanto para a Santa, que parecia estar vendo a Virgem sorrindo pra ela. Erguia
os bracinhos como se quisesse ir para o colo da imagem e todos acharam muito
estranho e interessante aquela reação.
Na hora
de sair, ela chorou muito. Estava com quatro mesinhos mas parecia entender que
aquele era um lugar de muita paz. Queria ficar ali, e esticava os bracinhos
para a imagem de Nossa Senhora. Todos riam muito.
A
apresentação no centro de Benjamim nunca aconteceu... Ele deve ter esquecido,
tão ocupado andava com os fazendeiros da região, pois cada dia era chamado para
um atendimento.
Manega
continuava “cambonando” seu marido, mas sabia que ele fazia muita coisa errada.
Levava num embornal coisas estranhas que usava
para enganar as pessoas, como , tufos de cabelo, minhocas vivas, dentes
humanos, ossos, pedaços de carne crua, pregos, alfinetes. .. Ele tinha uma
destreza para fingir estar tirando certas coisas do corpo das pessoas, que era
difícil não acreditar. Preparava remédios de folhas que mandava Manega buscar e
tinha tanta sorte que normalmente curava as pessoas e isso aumentava sua fama.
Ele e a
mulher andavam por muitas fazendas e a filhinha, ainda muito pequena, ficava
com Francisca até o retorno dos pais.
Depois
que Dorony nasceu, nunca mais Manega acompanhou Benjamim quando era pra passar
mais de um dia. Não conseguia dormir longe da filha.
Nessas
ocasiões, Benjamim levava com ele uma outra filha de santo pra ajudá-lo nos
trabalhos. Durante dois anos e meio viveram assim sem problemas. Benjamim era um
homem que não brincava muito com a filha, nem era muito carinhoso, mas se não
carinhava, também não maltratava. Manega percebia que ele estava ficando mais
tempo dentro do terreiro que no quarto deles, e quase não a procurava mais para
momentos íntimos. Quando precisava de sua ajuda, ele solicitava, ela ajudava no
que fosse preciso, mas algo estava bem diferente.
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