Francisca já nada tinha da indiazinha
que um dia saiu de sua aldeia com o coração partido por deixar os seus, mas que
no fundo acreditava que os brancos tinham alguma coisa de superior... uma
sabedoria poderosa que de certa forma poderia mudar tudo a sua volta. Achava
que aquela raça era ligada aos deuses e que assim sendo, era digna da mais
profunda submissão. Agora, seu coração já acumulava a desconfiança e até um
certo desprezo pelos brancos. A lembrança de tudo o que havia acontecido com
Bento Vaz e com o pai da Galega a perseguia e por vezes era atormentada por
pesadelos alucinantes onde via-se penetrada por uma jararaca que lhe mordia as
entranhas inoculando no seu interior um veneno ardente como fogo. Despertava
apavorada e se agarrava com Francisco buscando no seu calor ameno o alívio para
seu desespero. Quando Francisco tocava com as mãos espalmadas, as suas mãos, um
frêmito de felicidade a percorria, e o amor que então acontecia assemelhava-se
ao desabrochar das flores, ao despencar da cascata, ao amanhecer de um dia de
sol.
Pausa para explicar.
Quando menina, mamãe me dizia que eu
não deixasse os meninos pisarem na pontinha do meu pé porque era feio e era
“saliência”. Também não podiam tocar ou
fazer cosquinhas com o dedo, nas palmas das minhas mãos. Isso era pecado e uma
grande “bobiça”. O engraçado é que os meninos realmente costumavam fazer essas
coisas, e mesmo quando viemos para o Rio de Janeiro, lembro que também havia
esse hábito.
Lá em Minas, quando o menino pisava a
ponta do pé de uma menina, estava pedindo para namorá-la e beijá-la; quando
fazia cosquinhas na palma da mão, estava pedindo “aquilo” que “uma mocinha não
pode fazer. Só os casados.”
E isso
acendia o imaginário feminino infantil. Só de pensar em receber uma dessas
“carícias”, já ficávamos com “fogo no
rabo” e meio que provocávamos os meninos. E quando acontecia, ah, Jesus !!! A sensação era indescritível !
Claro que não passávamos da
“pisadinha” e da “cosquinha” com medo do chão se abrir e o Capeta em pessoa vir
nos buscar para o Inferno, mas que causava arrepios e desejos, lá isso causava.
E éramos crianças, imagine !
Lendo sobre os índios do Brasil,
verifiquei que em algumas tribos guaranis e
tupinambás a zona erógena pode variar não estando nos órgãos sexuais ou
próxima a eles. Em algumas tribos, os pés são os provocadores de excitação
sexual, em outras são as mãos. Interessante porque, na tribo de Capora e de
Cornéis, as mãos tinham o papel de proporcionar a libido. O ato sexual era
sempre iniciado pelo encontro das mãos do casal juntas e espalmadas sobre a
cabeça, de onde eram arriadas lentamente até estarem ao longo do corpo quando
ainda unidas, eram introduzidas entre os
dois para só então serem separadas e serem erguidas ainda entre os dois corpos,
passando pelo sexo, subindo pelo peito e alcançando o pescoço, quando já então o
casal estava tomado pelo desejo, pelo prazer
e era só emoção.
A minha mãe contava, que ouviu de sua
avó, Francisca (cristã), Capora (a india puri) ,que por conta disso, as
mulheres da tribo, gostavam de excitar os valentes, manuseando as mandiocas com
maliciosos movimentos. Também faziam bolas de massa de mandioca com demorado
capricho, simulando carícias. Ao se alimentarem com as mãos, também
movimentavam os dedos na comida, e levavam o alimento à boca com gestos sugestivos
que aguçavam os desejos dos homens. Nesses momentos lançavam olhares
prometedores e comprometedores, torcendo para que o passeio de Guaraci pelo céu
fosse muito breve, e rogando a Tupã que Jaci trouxesse uma luz mágica e terna
vibrando energia sobre os casais.
As mãos eram tabu, e não se
cumprimentava com elas pois se um rapaz tocasse as mãos de uma virgem, e se
isso fosse presenciado por um ancião, já era considerado um compromisso. O
cumprimento na aldeia se resumia em tocar a própria testa com a ponta dos dedos
da mão esquerda, e levar essa mesma mão em seguida para tocar o próprio ombro
direito. Esses gestos significavam “eu te respeito” e “sou teu amigo”. A cuia
com mel era servida em seguida como boas vindas ou para testemunhar a alegria
da amizade sempre renovada a cada dia.
Não sei os costumes nas outras tribos
de Puris, mas na tribo de Capora e Cornéis, o valente podia ter mais de uma
mulher, mas não podia repudiar a nenhuma
durante toda sua vida, e tinha que suprir a quantas tivesse, do necessário para
sobreviver, além de cuidar dos filhos até que as meninas se unissem a um
parceiro, e os meninos se tornassem valentes.
As mãos eram consideradas instrumentos
sagrados dos deuses para prepararem o corpo da mulher que receberia a semente
de um novo ser. Este novo ser viria para abrigar o espírito de um antepassado, e o respeito que se tinha pelo ato sexual,
originava esse quase ritual preliminar.
Claro que o prazer era considerado
porque não se foge dele, mas a responsabilidade vinha em primeiro lugar. O amor
entre um valente e uma índia tinha como principal finalidade gerar vida.
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Não só com os pesadelos Capora
voltava ao passado. As vezes ao cantar alguma canção de sua tribo, ao mirar as
águas do Rio Manhuaçu, ao cruzar com alguma pessoa que lhe lembrasse alguém...
Foi através de um mascate que veio
pedir emprego a Samir, que ela ficou sabendo de tudo o que aconteceu com a
família de Bento Vaz. Marinalva morrera levando no ventre a criança que
esperava. Bento Vaz enlouquecera e vivia preso num quartinho no sótão de uma
casa que tinha comprado pouco antes da morte da mulher. O pai de Marinalva
também tinha morrido em conseqüências misteriosas. Tinha sido encontrado com marcas, como se tivesse sido
atacado por alguma fera mas as mordidas que tinha pelo corpo, pareciam humanas.
Ninguém entendeu.
A
mercearia ia melhor do que nunca, administrada pela Sra. Perciliana que se
revelara uma ótima negociante. A nova rica, vestida com roupas caras, vivia pra
cima e pra baixo numa charrete elegante, sempre acompanhada de seu ajudante.
Diziam as más línguas que tarde da noite, o rapaz deixava o quartinho atrás do
comércio, entrava sorrateiramente na casa grande, para dormir aconchegado entre
lençóis cheirosos, nos braços da patroa. Isso diziam as más línguas...
Dona Perciliana só não internava
Bento Vaz num hospício, por causa de Rashid. Numa esperteza sem tamanho, Bento,
quando ainda em gozo de suas faculdades mentais, deu a Rashid um documento,
passando para o mesmo todos os seus bens caso lhe acontecesse alguma coisa..
Era um documento legal do qual todos tinham conhecimento. Ele dizia que era
para garantir seu patrimônio, e em caso de sua falta um dia, seria a forma de
agradecimento por todo o bem que o amigo de seu pai lhe fizera.
Acontecendo então o desvario do
comerciante, Rashid exigiu que ele fosse muito bem cuidado pela sogra, sob pena
de caso isso não acontecesse, ter que abandonar a casa e o comércio, deixando
por conta dele a administração e o cuidado do doente. Dos males, o menor. Bento comia, bebia, dormia e era acompanhado
pelo médico da cidade. Rashid também prometeu a Perciliana a posse total dos
bens quando seu protegido morresse. Essa promessa animava Perciliana.
A Partida de Marinalva.
Nhanderuvuçu adormeceu Capora e levou
seu espírito para conhecer os detalhes de tão cruel desfecho. Foi assim:
Francisca
deitou-se para dormir depois de falar com seus deuses. Havia pensado em
Marinalva quando no céu passou uma “rasga mortalha” com seu grito fúnebre, logo
no comecinho da noite.. Já sabia que a Galega tinha partido para a morada de
seus deuses, mas nem imaginava como isso tinha acontecido. Pensou com tristeza
em tudo que presenciou na casa de Bento Vaz e parecia-lhe ver os olhos azuis de
Marinalva a flutuar no espaço. Lembrou da risada bonita da menina quando
estavam no banho de cachoeira ou quando apostavam corrida para ver quem
mergulhava primeiro. Lembrou do corpo branquinho feito mandioca descascada, dos
cabelos avermelhados caindo em cachos pelas costas, das mãos de dedos longos e
nervosos. Dormiu na saudade daquela amizade que durara tão pouco tempo. Seu
espirito então saiu do corpo e voou por sobre rios, vilas e matas, indo parar
na porta da casa onde no passado vivera com Marinalva e seu marido Bento Vaz. A
escada com 3 degraus que dava acesso à sala, parecia ter vida. A roseira que
lançava seus galhos subindo pelo madeirame, exibia rosas vermelhas brilhantes e
cheirosas. Parecia estar amanhecendo e o orvalho estava presente tornando o
verde do capinzal que rodeava o caminho, mais intenso e rutilante. De repente a
porta se abre e eis que surge Marinalva com a barriga enorme, magra e
vacilante. Parecia estar muito doente. Mesmo cambaleando seguiu pelo caminho de
terra e sem oihar para trás, embrenhou-se mata a dentro rumo ao rio. Capora
seguiu atrás chamando pela Galega que parecia não vê-la. Sem entender muito bem
o que estava acontecendo, Capora seguiu a moça preocupada. Pelo tamanho da
barriga, o tempo do parto estava próximo e ela não deveria afastar-se tanto de
casa.
Na beira do rio, Marinalva se sentou,
colocou os pés dentro da água e ficou ali parada olhando o nada. De seus olhos azuis,
grossos pingos caiam indo piriricando com as águas que corriam indiferentes. A
índia queria perguntar o que estava acontecendo mas já percebera que a menina
não a via ou ouvia. Assim ficou Marinalva por um bom tempo, olhando o nada e chorando.
De repente deu um sorriso, ficou em pé, despiu-se e entrou no rio. A índia
estremeceu ! Todos sabem que ninguém deve entrar nas águas de um rio no meio da
mata, sozinho. Quantas vezes tinha falado
isso para a Galega. Agora, se alguma coisa acontecesse, quem poderia ajudá-la ?
Pesada por causa da barriga, Nalva
foi caminhando pelo raso, brincava com a água trazendo as mãos em concha bem
cheias e despejando sobre a barriga.Molhava o rosto sardento, olhando os raios
de sol que vinham enfeitar a correnteza com um brilho prateado. Um passo,
outro... uma pequena braçada e Capora viu quando o braço da Iara saiu da água e
abraçou Marinalva pelo pescoço. Olhou horrorizada as águas se fechando sobre a
menina, e correu, ou voou até lá.
Mergulhou ansiosa para tentar puxá-la, mas tudo o que viu sob aquele
mar, foram dois grandes olhos negros, vivos, expressivos, estáticos. Olhos de
morte :os olhos da Iara !
O soluço de Capora assustou os
pássaros que se calaram. A graúna respondeu pouco depois com um canto longo e
triste. Nada mais... Nada mais ali. Só os raios do sol furando a vegetação e
mergulhando no rio.
A Doideira de Bento Vaz
Ainda não estava refeita do susto
quando se viu em mata fechada. As árvores altas escureciam tudo, e a vegetação
rasteira enroscava-se em seus pés. De repente ouviu um grito. Correu naquela
direção e de repente viu-se na frente de Bento Vaz. Não havia sorriso nos seus
lábios e seus olhos tinham um brilho estranho. Chamava por Marinalva e a procurava por detrás das árvores e por entre os arbustos.Usava a capa comprida
que costumava vestir à noite quando voltava da mercearia para casa. A capa que
servia para encobrir suas porcariadas, e suas maldades com a inocente esposa.
Abria a capa como se ela fosse as asas de um demônio como Jurupari e parecia
que ia voar. A índia escondeu-se, achando que ele pudesse vê-la, mas o que
aconteceu a seguir foi o horror dos horrores.
Deslizando silenciosamente entre as
árvores, uma enorme jibóia se aproximava. Seus olhos faiscavam cada vez que
encontrava uma réstia de luz. Ameaçadora e terrível a cobra começou a subir
numa árvore e lentamente foi ganhando o seu topo. O corpo dela assemelhava-se
ao tronco da árvore, e de longe era impossível definir onde ela estava.
Embaixo, o homem continuava sua
busca, ora dizendo palavras carinhosas, ora fazendo ameaças absurdas à sua
mulher, porém não a encontrava. Em determinado momento, ele colocou-se bem
embaixo da árvore onde a jibóia estava. Capora, de seu esconderijo, tremia de
medo, não da cobra, mas do homem. Temia que ele a encontrasse e mais ainda, que
ele encontrasse Marinalva fraca e indefesa. Olhou à sua volta para ver se havia
alguma coisa que pudesse usar como arma, e então o grito de horror invadiu a
mata. Dependurada na árvore, presa pela cauda, a jibóia arriara meio corpo e
envolvera Bento Vaz em seus anéis. O homem gritava enquanto se esforçava para
se soltar. Seus olhos saltavam das órbitas, e a capa parecia as asas de um
morcego. As mãos estavam presas ao longo do corpo e ele só conseguia se remexer
como um verme, sem no entanto conseguir
se soltar. A cobra revirou-se, trouxe o homem para o centro do seu corpo e de
seus anéis, e veio com sua cabeçorra em direção à cabeça do desesperado rapaz.
Capora fechou os olhos. Cobriu o rosto com as mãos. Não ouviu mais gritos.
Acabou-se ! Abriu lentamente os olhos e o que viu foi horripilante: a cara de
jibóia de frente com o rosto de Bento. Os olhos traiçoeiros fitavam os olhos
aterrorizados do homem, enquanto a língua bifurcada explorava o medo dele. Ele
já não gritava. Só os olhos parecia que iam saltar da face e não havia mais
reação nenhuma dele. Foi aí que a jibóia o soltou. Estava suspenso a uma certa
altura do chão, caiu portanto causando um ruído oco, e ali ficou. Olhar fixo na
cobra que foi se transformando num caboclinho de cabelos vermelhos, com os pés
virados para trás. O Caipora !!! A mata
encobriu seu protetor que em três saltos e uma gargalhada sumiu, deixando o
grande Bento a dizer coisas sem nexo, rir e chorar ao mesmo tempo. Completamente
desvairado.
O Velho e a Morte.
Nem bem se recobrara da surpresa, já a
índia estava em outro local. Era um lugar muito bonito, com um rio
encachoeirado límpido como um céu de verão. A vegetação da beira era muito
florida e borboletas voavam colorindo o lugar com suas asas multicores. Capora
subiu numa árvore para melhor apreciar aquele maravilhoso cenário. Recostou-se
num galho pois uma brisa suave convidava
ao silêncio para se ouvir a voz da mata.
Ainda no impacto da beleza, Capora
viu o pai da Galega chegar trazendo pela mão uma indiazinha ainda pequena. A
menina lutava para se soltar, mas ele a segurava com firmeza enquanto ria
alucinadamente. A menina já tinha pequeninos seios e seu corpinho franzino
começava a tomar forma. De dentro do coração da índia brotou um frio que lhe
percorreu o corpo até chegar aos cabelos. Viu o Velho alisar os cabelos da
inocente e deixar as mãos imundas descerem até as ancas. Foi aí que deu-se o
inesperado: ouviu-se um rugido feroz e aquele pequeno ser agigantou-se na
agilidade. Parecia ter muitos braços, muitas pernas... Os cabelos voavam de um
lado para o outro enquanto as unhas iam rasgando roupas e carne. O sangue
escorria dos ferimentos. A boquinha pequena arrancava pedaços de carne que ela
cuspia para o lado, voltando a morder em outro lugar. Em pouco tempo, pouco
restava da roupa do Velho asqueroso, e ele já não lutava e nem gritava mais.
Ai, a pequena índia num salto alcançou a árvore onde Capora estava. Era a
própria visão de um demônio com olhos amarelos e a boca ensangüentada.Dali a indiazinha pulou
para a outra árvore e já não era uma menina, mas uma enorme pintada de ancas
luzidias e patas ligeiras. Foi num relance mata à dentro, urrando para o
silencio. Só Capora, assustada ficou ali estática, sem conseguir mover um
músculo do corpo e tremendo de medo da onça voltar. De repente, sentiu a árvore
se balançar e sacudir. Quando começou a cair, viu-se do lado de Francisco que a
chamava com carinho. Nhanderuvuçu havia libertado seu espírito, depois de lhe
contar os segredos da mata. Agora ela sabia tudo o que havia acontecido e tinha
a certeza de que a natureza fizera justiça.
Tudo tem seus fundamentos, suas
razões e seus mistérios. Capora pensou no passado. Não podia mais se dizer uma
puri, mas também não era uma branca, porém agora sabia que seus deuses não a
haviam abandonado.
Confirmava-se seu pensamento: os
brancos tinham o poder de mudar vidas sim. A sua mudara, a de Francisco mudara.
Os brancos só não sabiam que o poder da natureza era maior que o deles.
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