sábado, 1 de outubro de 2016

IV - Transformações

Desde que Capora fora morar na casa de Bento Vaz, as mudanças começaram a acontecer, não só no interior da casa, mas também no quintal. A índia aprendia as coisas com muita facilidade e era muito asseada. As duas, Marinalva e ela, acostumaram-se a cuidar da casa e dos bichos logo pela manhã. Após o almoço cuidavam da horta que elas plantaram, assavam broas no forno que elas mesmas cavaram no barranco e sentavam a prosear até que o sol começasse a se por no horizonte. Era hora de irem para o rio.
Marinalva tinha aprendido com Francisca a banhar-se nas águas do rio que corria dentro da mata, mas não muito distante da casa. A galega nunca mais tinha usado o quartinho de banho que existia na casa. Achava muito chato esquentar água, encher a tina e ficar la dentro se espremendo para conseguir se lavar. No rio entregava-se inteira às águas. Deixava que a correnteza levasse toda a sujeira que havia no seu corpo. Gostava de se esfregar com folhas cheirosas e flores. Cheirava o braço, as mãos e se sentia como uma planta ou uma flor. Mergulhava o mais fundo que podia e olhava os peixes, as pedras do fundo do rio, e tinha vontade de não mais sair dali. As duas inventavam brincadeiras e se divertiam até quando as sombras começavam a ficar mais densas e as aves procuravam seus ninhos e seus abrigos fugindo da noite e dos seus perigos.
Francisca amava e temia Jaci, (a lua), por isso assumia uma postura quase ritualística enquanto caminhavam de volta para casa. Os olhos semicerrados não ousavam encarar o céu e dos lábios saíam canções que pediam proteção. 
Era comum voltarem com algum peixe pescado durante os mergulhos. Tinham já alguns arpões que fabricaram com varas de bambu e era assim que pescavam, não sempre, mas de quando em vez. 
Francisca ensinara a Marinalva o respeito para com a Mãe Natureza. Matar para comer era perdoável, mas matar por prazer provocava a ira dos seres cuidadores da mata. "A gente num vê, Galega, eles vê nóis. Os óio deles tá em tudo quanto é canto, mas nóis num enxerga. Quarqué coisa que nóis faiz que eles num gosta, é logo logo que eles se vinga. Vê o sumidouro do rio ?  É o Caipora chupano a água pra enguli quem maltrata os bichos e a mata."
O coração inocente das duas misturava todas as suas crenças e elas se sentiam protegidas pelos deuses cristãos e também pelos deuses indios, pois afinal elas também eram parte da floresta.  
Quando chegavam em casa, normalmente a noite já tinha caído mas Bento ainda demorava no comércio. Essa era a hora que o povo voltando da lida, ia "molhar a goela", "lamber uma", "esquentar o frio" ou simplesmente "tomar uma pinga boa" porque todo mundo é "fio de Deus." Ali rolava muita conversa, contava-se muito "causo" e era neste meio tempo que elas arrumavam a comida, requentavam o café e iam espiar se as criações da casa já estavam recolhidas. Se não faltava nenhuma. Iam com a lamparina acesa as duas juntinhas com medo da noite. Lá no armazém a zoada era tão alta que de cá elas ouviam. Mas mesmo tendo medo da noite ambas desejavam mesmo que aquele momento nunca se acabasse. O coração apertava na medida que o tempo passava e que se aproximava a hora de Bento entrar em casa.
Francisca, assim que se desocupava, deitava-se na sua tarimba sob a escada. Sobre a madeira havia colocado uma esteira e o cheiro da palha que lhe chegava ao nariz, a levava de volta à aldeia. Antes mesmo de dormir, sentia seu espirito voar sobre a floresta e sem temer a escuridão da noite chegar à aldeia onde vagava livre entrando nas ocas, vendo seus irmãos dormindo nas redes e observando os restos de brasas na fogueira. Sem sentir, Francisca entrava no sono e só despertava quando Bento chegava e repetia-se o ritual de todas as noites. Ela não conseguia tapar os ouvidos para não ouvir. Não se levantou mais, portanto não assistiu mais a cena estranha, porém escutava os gemidos de Marinalva, e ouvia seu pranto depois.
Bento não maltratava a esposa, mas também não a tratava bem. Era como se ela existisse somente para trabalhar pra ele. Dificilmente conversava com ela e quando o fazia, era para mandar alguma coisa. Reclamar também não reclamava. Comia o que lhe era servido, e fazia o que talvez achasse ser o dever, depois ia dormir. Marinalva chorava também sem entender porquê. Era assim mesmo e pronto. As vezes Francisca ouvia os passos dela se aproximarem mas fechava os olhos e fingia dormir. Temia não saber consolar a patroazinha. Ouvia depois os passos se afastarem, percebia que Marinalva colocava mais lenha no fogão, ouvia quando ela chamava baixinho o gatinho da casa e sabia que como sempre, ela ia se esticar no banco da cozinha e dormir ali mesmo próximo ao fogão e agarrada ao gatinho. Seria a primeira a acordar no dia seguinte e preparar o café para quando o marido descesse do quarto.
Bento não tocou mais em Francisca. Parecia ter se esquecido de que a havia possuído. Ela também tentava não se lembrar, até porque aquilo acontecia a toda hora entre os bichos no quintal da casa. Era da natureza. Era comum.  Só não era comum a indiferença. Até os bichos sabiam fazer agrados... Os indios faziam agrados para suas mulheres.Que coisa esquisita, ela achava, mas pouco importava. Ela mesma evitava até olhar para Bento. Ele fizera nascer nela um sentimento diferente: a vergonha. Agora não tinha mais coragem de tirar a roupa e só ficava pelada nos banhos de rio. Fora isso, tinha vergonha do próprio corpo.
Um dia, Francisca acordou antes de Marinalva. Correu para fazer o café e depois de por lenha no fogão e água pra ferver, tentou acordar a patroa que estava ainda encolhida no grande banco da cozinha. A menina acordou e começou a vomitar. Francisca não sabia o que fazer. Correu no quintal para pegar umas ervas e fazer um chá. "Ela comeu coisa ruim." pensou. Deu o chá a patroa e preparou o café. Quando Bento desceu e viu a mulher daquele jeito, disse que ia mandar buscar a mãe dela, mas mesmo assim foi abrir o armazém. 
Durante todo dia Francisca ficou preocupada com Marinalva. Ela parecia estar melhorando com o chá mas estava desanimada demais. Ainda assim foi ao rio para tomar banho e voltaram como sempre no anoitecer. Dona Perciliana já estava na casa esperando cheia de apreensão. O pai da menina também tinha vindo, mas estava lá no armazém com Bento. Viria embora na hora que o genro viesse.
Francisca foi fazer mais café e esquentar a comida enquanto mãe e filha conversavam. Como se abraçaram as duas, tamanha era a saudade! Choraram muito também, tão agarradinhas que pareciam uma só. Francisca não teve ciúme, não sabia o que era isso; sentiu foi saudade demais da sua mãe.
A noite avançou e Francisca não conseguia dormir de tanto que o pessoal conversava na cozinha. Ouvia a voz do pai de Marinalva que parecia até meio nervoso. Bento também falava bastante e as duas mulheres só de vez em quando falavam . Quanto mais tarde ficava mais o frio se intensificava e quando finalmente o silencio tomou conta da casa, Francisca se levantou pé ante pé e chegando na cozinha viu que o banco estava vazio. Só o gatinho dormia debaixo dele enroscado consigo mesmo, talvez sentindo falta da dona.
Tinham se passado dezesseis luas desde que ela chegara ali e essa era a primeira noite que sua patroa não dormia na cozinha. 
Francisca ficou feliz por Marinalva. Agora pelo menos ela tinha sua mãe por perto e dormiria no seu quarto, cobrindo-se com cobertores quentes sem precisar se aquecer no calor do fogão.
Apesar de estar feliz pela patroa, Francisca sentiu um aperto no peito... Fechou os olhos e pediu proteção a Tupã. Dormiu finalmente
para atravessar a floresta e visitar sua aldeia em sonho.


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