segunda-feira, 19 de setembro de 2016

III - Capora e Marinalva.

          ___ Nalva !!! Venha ver o que teu marido te trouxe !
          A voz de Bento soou forte no quintal da casa penetrando por todos os cômodos e indo alcançar Marinalva na janela dos fundos, onde ela saudosa mirava a mata que a separava da fazenda em que seus pais trabalhavam e do casebre onde fora criada.
          Tinham se passado poucos meses desde o casamento, desde que a mata tinha testemunhado seu primeiro contacto com Bento, mas parecia que eram séculos. A saudade que sentia pesava tanto que não tinha ânimo para nada. Não via mais os pássaros, as flores... Não queria tomar banho de rio porque sentia que sua sujeira não se limpava mais, e se limpasse, sujaria de novo. Não ouvia mais o cantar suave do vento, não via os raios de sol que teimavam em entrar na casa como se para alegrá-la. Tudo que desejava era que o tempo voltasse... Queria ser a menina esperando os pais voltarem da lavoura, a menina cuidando dos bichos e brincando com bonecas de espigas de milho verde, vestidas com folhas secas.
          ___Nalva !!!
          Ouviu de novo.
          Seu coração saltou no peito, não com a alegria das recém casadas, mas com o sobressalto dos animais que ela via serem amansados na fazenda. Seu rosto corou como acontecia todas as vezes que olhava seu marido e ela ajeitou a saia sobre o corpo tentando esconder o máximo de sua pele branca, num gesto instintivamente protetor.
          Aproximou-se da porta lentamente tentando reter o tempo de ver o homem com quem agora dividia seu silêncio.
          Cabeça baixa passou para o lado de fora e sem coragem para olhá-lo e nem dizer nada, parou.
          ___ Mas olha mulher !!!  Não queres ver ???
          Tomou um pouco de coragem e olhou ainda com receio. Seus olhos azuis como água, encontraram os olhos negros de Capora. Viu a boca carnuda, os seios rijos, as ancas mal tapadas. Viu a pele quase negra e os cabelos lisos e pretos que apareciam na curva dos joelhos. Viu o olhar inocente da india e se sentiu menos só. Não sorriu por fora pois nesses poucos meses desaprendera de sorrir, mas sorriu por dentro, porém continuou muda.
          ___Não vais levá-la para dentro ?  Anda gaja, ela precisa comer alguma coisa.
          A moça se afastou da porta enquanto Bento empurrava Capora em direção à escada, e ela obediente subiu os poucos degraus e entrou atrás de Marinalva.
          Bento entrou logo atrás e antes que a mulher entrasse para a cozinha foi falando:
          ___Essa india veio para nos ajudar. Tu precisas sair desta apatia e começar a cuidar desta casa. Parece que não sabes fazer nada !  Vamos, vamos. De agora em diante quero essa casa limpa, comida na hora e as criações cuidadas.  Tu e ela se entendam pra fazer os serviços porque eu preciso tocar a venda, entendeste gaja ?
           A moça nada falou pois não tinha o que dizer. De cabeça baixa estava, de cabeça baixa ficou.
          ___ Arranje roupas para ela que anda quase pelada, depois vão cuidar da vida.  Ah, arranje uns panos pra ela arrumar a cama e ela vai dormir debaixo da escada. Ali dá muito bem pra ela dormir em cima daqueles engradados vazios.
          Assim que ele saiu, as duas se olharam longamente. Capora tinha o olhar altivo do gavião, enquanto o de Nalva tinha a tristeza das tardes de inverno.
          ___ Vem, vamos no quarto.

          Lá, arranjou alguns vestidos e outras peças, mais um chinelo que a índia não queria calçar mas que terminou aceitando para não entristecer sua agora, patroa.  Vestida, sentiu-se melhor e sentou-se para comer a comida horrível feita por Marinalva.
          A noite caiu e era preciso dormir para no outro dia começar a trabalhar. A patroa com pena, conseguiu arranjar um colchão que estava guardado num canto e as duas arrumaram como um quartinho sob a escada.
          Antes de deitar, Capora falou com seus deuses, ergueu os braços para a lua e pediu proteção para sua gente. Lembrou de Cornéis e de seus agrados. Apanhou no meio de suas coisas a última flor que ele lhe dera e que já estava bem murcha. Lembrou da dificuldade que ele tivera para pegá-la pois ela era uma flor de musgo, e resolvera nascer no alto de uma velha e apodrecida árvore. Enquanto Cornéis subia para pegar a flor, a árvore estalava como se fosse cair mas ele insistia em enfrentar o perigo. Passou silencioso por uma casa de marimbondos e cheio de medo conseguiu pegar a cobiçada flor. Na volta percebeu que aquela casa de marimbondos estava abandonada e que temera à toa, porém, antes de chegar ao chão, a árvore estalou o galho sobre o qual Cornéis estava apoiado e deixou que ele quebrasse !!! Foi um belo tombo mas a prenda estava intacta. Linda flor, branca e azulada, cheirosa e delicada... Estava ali agora, na sua frente para matar a saudade.
          Coberta até a cabeça embaixo da escada, a india ouviu a chegada de Bento. Ouviu quando Marinalva lhe tirou as botas e lhe serviu a comida. Não se ouvia palavras, só sons que seus ouvidos sensíveis   captavam. Tinha medo que Bento viesse até ela. Lembrava o toque de suas mãos e tudo o mais que havia acontecido entre ela e ele quando saíram de sua casa. Sabia que não queria mais aquilo. Tinha sido uma experiência muito ruim. Suas entranhas ainda queimavam e ela fechava entre as próprias pernas a flor, lembrança de Cornéis como se fosse um bálsamo e uma proteção.
          A uma certa hora começou a ouvir sussurros agoniados, e os gemidos eram de Marinalva. Levantou-se devagar e espiou na cozinha. O que viu a deixou assustada e sem compreender. Bento estava sobre Marinalva como os galos cobrem as galinhas no quintal. Ela de roupa ainda, arriada no chão, quieta, só gemia como se lhe faltasse o ar. Ele, vestido também espadanava seu casaco como uma grande asa e com a cabeça apertava a cabeça da mulher no chão e grunhia como os porcos disputando a lavagem.
          Rápido como começou, ele levantou-se e se dirigiu para o quarto, ela ainda ficou muito tempo na mesma posição, imóvel. Capora pensou que ela estivesse morta, mas depois de algum tempo ouviu seus soluços e compreendeu que naquele momento nada podia fazer. Voltou para seu lugar e tentou dormir. Não conseguiu. Nem tão pouco Marinalva foi para o quarto. Ficou na beira do fogão, tremendo de frio e esquentando-se nas brasas. Olhando do seu canto, a india via o brilho das lágrimas no rosto da galega.
          Indiferente o dia amanheceu lindo !  A india acordou e foi para o rio lavar-se. Quando voltou Bento ralhou:
          ___Ei, tu tens que ajudar a ela. Vamos lá, fazendo café, assando umas broas que eu vou pra lida.
          Serviram o café e tomaram também. Assim que Bento saiu, Capora convenceu Marinalva a irem tomar banho no rio. Depois de muito brincarem, esquecidas de tudo e feito duas crianças, voltaram para o almoço e Nalva parecia mais feliz. A india ensinava a ela o que sabia e ela ensinava a india o que sabia. Já não havia mais queixas de Bento. As duas davam conta do serviço direitinho.
          O homem nunca mais tocou em Capora e ela estava muito feliz com isso, em compensação a cena da cozinha se repetia todos os dias, porém Marinalva não reclamava.
          Um belo dia resolveram:
          ___Capora, você não é cristâ !!! Precisa das águas do batismo,
          Conversaram com o padre da capela e ele concordou em batizar a moça. Deu a ela algumas aulas da doutrina e após, marcou a data do batizado. Marinalva seria a madrinha e o nome escolhido pelo padre foi Francisca de Jesus, mas para fazer um agrado, Marinalva colocou no meio do nome cristão de Capora, o nome de sua mãe: Perciliana
Naquele dia nascia Francisca Perciliana de Jesus, minha bisavó !!!

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