Em 1912, na Zona da Mata nas Minas Gerais, a cidade de Muriaé, quase um vilarejo, era rodeada por uma mata exuberante, cheia de lagoas cristalinas e rios maravilhosos. A flora e a fauna da região eram tão abundantes, que chegavam a ser inacreditáveis. Nas copas das árvores sabiás, canários da terra, sanhaçus, coleiras, saíras, saracuás, graúnas e bem te vis, enchiam o ar de lindas cantorias enquanto as araras, maritacas, papagaios, biquinhos de lacre e outros enfeitavam a floresta com suas cores exuberantes e sua ruidosa alegria.
As sempre vivas, crisântemos, flores de maracujá, flor do pequi, petúnias e flores de laranjeira , beijos brancos, vermelhos, miosótis e outras flores adormecidas entre a vegetação, brilhavam ao toque de qualquer luz, tornando-se assim mais formosas. No amanhecer, o pranto da madrugada que alguns ousam chamar de orvalho, tornavam-se em cada folha como uma pedra preciosa.
Laranjeiras, jabuticabeiras, jaqueiras, pitangueiras lançavam o perfume de seus frutos, que se espalhavam por todos os lugares enquanto as palmeiras, as árvores de pau brasil, os jacarandás e as perobas lançavam a sombra de seus galhos sobre a vegetação miúda e úmida onde pequenos animais se moviam com rapidez, sempre procurando alimento, cavando suas tocas, construindo seus abrigos.
A aldeia Puri estava plantada no meio desta mata atlântica, ainda selvagem. Abrigos construídos com barro e folhas de palmeira pareciam simplesmente mais um pedaço da mata e tal como a mata, exalava vida !
No centro da grande clareira, as cabanas formavam uma meia lua, e distante delas uns poucos metros, um pequeno rio descia do morro, encachoeirava e despejava sua água cristalina sobre pequenos que brincavam . Mais ao fundo, entoando cantigas da tribo, as mulheres raspavam a mandioca enquanto aguardavam seus homens que caçavam. A farinha branquinha ia enchendo os tachos e as vozes eram cada vez mais animadas.
A canção da mata chegava até ali, fazendo uma segunda voz na melodia diária. Eram o bugio, o macaco muriqui, a capivara, a jaguatirica, a onça pintada, o tamanduá bandeira, o tatu canastra que emitiam seus sons, cada um com seu significado, cada um com sua tonalidade, cada um com sua beleza.
Os Puris ali estavam desde quando ninguém se lembrava. Descendiam dos goitacás e tinham chegado aquelas terras empurrados pelos Tamoios que foram derrotados e perseguidos pelas tropas de Mem de Sá. Esses, ao chegarem às terras dos Puris, vendo que eram pacíficos os expulsaram, e eles após caminharem a procura de um outro lugar para habitarem, encantaram-se com a harmonia selvagem daquela paragem e ali ficaram. Plantaram suas raízes, fixaram seus deuses e descarregaram suas esperanças.
Já então, não eram tão apegados às tradições de seu povo e a cada contacto com a civilização, perdiam mais um pouco de sua identidade.
Chefiava-os um nativo bravo, inteligente, forte e bem humorado.
Eram curados por um ancião que conhecia rezas e mandingas dos ancestrais, mas em compensação eram constantemente visitados por gente da cidade que procurava mão de obra barata uma vez que a escravidão não existia mais e os negros agora não estavam mais disponíveis. Esse contacto por mais esporádico e breve que fosse, trazia as doenças, a malícia civilizada e a ganância.
Neste cenário, Capora crescia livre e arisca como a cará no rio. Tinha nascido em 1898 forte e linda. Crescera no meio da mata, brincando com os bichos e respeitando a natureza. Conhecia os segredos da mata e acreditava piamente nos deuses da sua gente. Agora era uma menina ainda com seus 14 anos,mas bem desenvolvida, já que tinha os seios perfeitos e quadris bem largos. Sua nudez coberta com as pinturas e penas que lhe enfeitavam, faziam dela um misto de pássaro e borboleta, mas a sua sutileza ao caminhar lembrava o deslizar de uma jararaca. O olhar varava a cortina de folhas sempre procurando uma flor bonita para colocar nos cabelos, um inseto interessante para brincar, um bichinho machucado para cuidar.
Já tinha sido iniciada e lembrava perfeitamente do susto que tomara ao ver sangue saindo de dentro de si mesma, sem haver se machucado. As indias mais velhas a levaram para a grande cabana onde outras meninas estavam recolhidas pelo mesmo motivo. Na grande cabana também estavam as indias barrigudas já nas dores, mas as anciãs cuidavam de todas com muito carinho, fazendo as pinturas rituais, cozinhando as comidas permitidas pelos deuses e ensinando tudo que era preciso saber naquele período.
Passado o tempo de seu incômodo e tendo cumprido todas as obrigações relacionadas com sua fé, a menina viu-se novamente livre a correr pelos descampados e sentia-se assim, como se fosse um vento ruidoso, a entrar em todos os cantinhos, a alcançar desde o capim rasteiro até as mais altas folhas no interior da floresta.
Linda e misteriosa, Capora já tinha um pretendente entre os jovens da tribo. Era Cornéis que suspirava cada vez que a via. Para ela fazia mil peripécias e para ela dava mil agrados, mas ela parecia não ver e não entender. Cornéis ansiava pelo momento em que a natureza lhe permitisse matar aquela secura que sentia no corpo quando a noite chegava e ele queria estar com ela. Parecia-lhe adivinhar o calor daquele corpo e a maciez daquelas mãos.
Quando Bento veio a tribo Puri, queria encontrar uma mocinha para levar pra Muriaé.Tinha se casado com Marinalva, menina de 15 anos, criada com mimos e que não sabia cuidar da casa ainda. Já estava acostumado a levar os jovens Puris para trabalharem em seu comércio na cidade. Eram homens fortes e parrudos que carregavam as sacas de mantimentos como se fossem penas e eram pagos principalmente com sal, açúcar, algum arroz, espelhos e enfeites para as mulheres e coisas que não podiam produzir.
Certamente uma mocinha seria uma mão na roda em sua casa. Faria o serviço caseiro e companhia para Marinalva. Pagaria com casa e comida e algum dinheiro.
Quando pôs os olhos sobre Capora, quis se enganar que seu interesse era pura e simplesmente o trabalho que ela poderia realizar, e assim, armado de boa fé, conversou com a mãe da moça (ela já não tinhas pai) e com o chefe do grupo. Todos eram encantados com o palavreado de Bento,por isso permitiram imediatamente, amaciados principalmente pela promessa de um bom salário que ajudaria muito a sua mãe. Só Capora mesmo é que não queria ir. Vestir roupa ? Não gostava. Calçar sapato ? Ah, não queria não...
Mas não teve jeito... Acostumada a obedecer, pegou suas coisinhas e partiu com Bento.
Não muito longe da aldeia, quando a mata se fechou sobre eles, Bento parou com Capora, começou a acariciar seu corpo e ela por natureza mesmo, sentia alguma coisa diferente. Uma ansiedade, um chamado, uma curiosidade feito a da paca ao pressentir perigo,mas querendo primeiro visualizar de onde ele vinha sem pensar logo em fugir. Assim, na mais singela inocência, deitou-se na relva e se entregou. Feito a cará que se aproxima da margem do rio, atraída por qualquer pedacinho de fruta e cai na armadilha que na maioria das vezes é tão somente as mãos unidas que prendem e puxam para fora da água. Entregou-se dócil sem luta, diferente da cará que depois de presa e arrastada para fora da água, ainda se debatia muito até voltar para seu habitat ou até morrer.
Do alto de uma árvore, cheio da mais profunda tristeza, Cornéis assistiu a tudo . Não sentiu raiva nem ciúme, pois não conhecia esses sentimentos, só seu corpo tremeu de angústia e ele se esfregou no tronco da árvore até sangrar o peito, quando então sua agonia acabou. Então abriu os olhos. O casal já havia partido e a folhagem da mata novamente havia escondido os dois.
Cornéis voltou para a aldeia. Era uma nova criatura.
Tinha agora no seu interior uma esperança louca e a certeza de que o mundo não era mais o mesmo.
Desde aquele dia, não sorriu e nem brincou mais. Guardava sua alegria para ofertar a Capora no dia em que ela voltasse.
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