quarta-feira, 7 de setembro de 2016

II - Bento Vaz,

          Bento Vaz tinha 26 anos e era um moço de pouca beleza. Mãos rudes, cabelos enormes e maltratados, sempre amarrados na nuca. Seu traço mais marcante era o sorriso jovial que facilmente cativava a quantos o vissem sorrir. É que passava uma ideia de franqueza e de força. Impossível duvidar de Bento Vaz sorrindo.
          Português, da cidade  de Matosinhos, distrito do Porto  era de lá que trazia aquela alegria constante no sorriso. Quando ria parecia um menino sonhador e bondoso, mas sua alma refletia-se no olhar irrequieto e perturbador. Olhá-lo nos olhos era mergulhar na incerteza e no medo e ninguém queria fitar por um só segundo aquele mar castanho onde boiavam a ganância e a ignorância,
           Tinha vindo com o pai para o Brasil, desde que sua mãe morrera,deixando-o com ainda rapazote. Lembrava vagamente de seus pais juntos. A mãe, vivia pelas igrejas e periferias praticando a caridade enquanto o pai trabalhava como ourives. Assistia aos mal tratos que o pai infligia à sua mãe, mas nada podia fazer pois morria de medo de se virarem contra ele., e assim, assimilava como normal tudo o que acontecia.
          Foi nessa ocasião que o menino criou para si aquele sorriso diferente e cativante. Precisava convencer as pessoas que estava bem, que estava feliz. Aos amigos com família unida, queria convencer de que a sua também era. Passar uma imagem de perfeição tornou-se quase uma obsessão e sorria de tudo e para todos.
          O pai satisfazia seus caprichos de criança, comprando para ele tudo o que ele pedia, mas nunca o abraçou, nunca conversou com ele, jamais vira o pai sorrir. Quando perguntava alguma coisa ao pai, ele dizia estar ocupado. Se procurasse pela mãe, ela estava sempre triste e nunca tinha resposta para nada.Habituou-se a não pensar muito nas coisas que ia fazer pois corria o risco de não fazê-las por causa da indiferença do pai ou da mãe. Por tanto, não buscava opinião e nem afeto. Agia sempre na certeza de que ele era quem decidia tudo e fim. E sorria... Estava tudo muito bom.
          O pai, ainda bem novo, começou a ter dificuldades para executar seu trabalho pois que seus dedos foram pouco a pouco perdendo os movimentos e assim, juntando as economias que tinha, abriu uma mercearia, onde vendia de tudo mas principalmente peixe, que por ser barato, oferecia uma maior margem de lucro.
          Com a doença, o pai tornou-se ainda mais ignorante e tratava a mulher como um objeto qualquer, sem nenhuma consideração. Não havia nos gestos dele nenhum sinal de carinho e de amor.           Alimentava a família como se alimenta os bichos e agia como os bichos, dominado pelos instintos.
          Quando a mãe de Bento morreu, Portugal passava por uma grande crise e seu pai resolveu se mudar do país. Pela primeira vez parecia impactado por alguma coisa, mas não entendia e portanto, não conseguia explicar os motivos que o levavam a abandonar sua terra natal.
          Escolheu o Brasil porque tinha conhecidos no pais, que o ajudariam a abrir um comércio para recomeçar a vida, mas ainda no navio, adoeceu e veio a falecer.
          Antes de morrer, chamou Bento, então com 17 anos, entregou-lhe todo o dinheiro que levava e que era muito. ensinou-o a agir com discrição, a esconder o dinheiro, e a levar avante os seus planos que era trabalhar como comerciante.
          Quando desembarcasse na Bahia, deveria procurar, um Sr. Rashid dono do Bar Tempestade, que ficava próximo ao porto e recebia viajantes recém chegados. Esse grande amigo, que lhe devia favores no passado, o ajudaria a comprar um local para se estabelecer e lhe daria as orientações necessárias. Num envelope enviava uma carta a Rashid, apresentando o filho e pedindo com suas próprias palavras, o favor de encaminhar o rapaz.
          Bento Vaz, guardou na memória as palavras do pai, e a última imagem que teve dele: um corpo enrolado em panos brancos, atirado ao mar.
          Com Rashid, homem experiente e leal, agiu tudo como o pai dissera. Da Bahia, partiram para Minas Gerais, chegando a cidade de Muriaé, onde Rashid sabia que não havia uma boa loja de comércio para atender aos fazendeiros e aos trabalhadores rurais da redondeza. Compraram uma grande casa com um belo galpão do lado. Passaram então a comprar de tudo que os fazendeiros quisessem vender, desde produtos da terra a animais para abate e para criação. Estes em pouca quantidade, com a intenção de suprir as necessidades diárias do rapaz e dos empregados que teria que arranjar.
          Dos alambiques da redondeza, compraram pinga da boa e contrataram o primeiro Puri, mestre em preparar a pinga com frutas da região de forma que o sabor e o perfume atraíam como o canto da Iara.
          Compraram tecidos nas fábricas e mandaram vir calçados do Rio de Janeiro. Rashid sabia negociar bons preços e ensinou esta arte ao rapaz que rapidamente aprendeu. Com seu sorriso e simpatia logo logo superou o mestre na matéria e assim, com o dinheiro que trouxera conseguiu abastecer seu comércio e ter provisão para seu sustento durante um bom período, até conseguir sobreviver do lucro de seu comércio.
          Depois da venda aberta,( não houve inauguração porque não viram necessidade. Abriram e pronto.) o povo da cidade e dos arredores começou a procurar principalmente as novidades, que até aquele dia só eram trazidas pelos mascates.
           Agora podiam comprar ali mesmo carmim para os lábios, verniz para as unhas, lápis de olho, chitas com estampas lindas e sandalinhas delicadas para as festas noturnas.
          No alto da porta um letreiro apresentava: ARMAZÉM VAZ, e Bento Vaz tornava-se conhecido principalmente porque sorria sempre e seu sorriso contagiava.

          Rashid ficou algum tempo ensinando o moço a fazer a contabilidade, a fugir do prejuízo e a gastar só o suficiente sempre guardando alguma coisa para os tempos de crise. Depois partiu de volta para a Bahia pois o Tempestade já estava a muito tempo na mão dos administradores e "o que engorda boi é o olhar do dono."
          Recusou o dinheiro que Bento ofereceu ficando até ofendido, mas levou de presente algumas garrafas da pinga com sabor de pequi e de pitanga. Prometeu voltar e comprar mais para vender no Tempestade.
          Antes de viajar, Rashid aconselhou Bento a procurar uma moça e se casar. Ele ia precisar de uma mulher para administrar a casa enquanto trabalhava. Além do mais a idade já pedia o que a natureza manda.
          Bento já andava olhando umas meninas, mas observara uma branquinha feito leite, cabelos cor de fogo, muito recatada e envergonhada, filha de um casal de colonos de uma fazenda próxima, que já eram fregueses da Mercearia.  Marinalva era o nome dela, já assuntara.
          Interessado estava, mas coragem pra abordar a moça é que não aparecia.
          Enquanto isso, quando a natureza se manifestava, Bento ia pro terreiro e se acostumou a pegar as criações do quintal para descarregar sua ânsia masculina. Uma coisa que lhe acontecia esporadicamente, passou a ser quase diária e ele não tinha a menor dificuldade em praticar tais atos .
Não comentava com ninguém, e como sempre, não cultivava amigos. Era só sorrisos durante o dia. Atendia com educação e fazia o que podia para que nada faltasse aos seus fregueses.
          Recebia muitas vezes o pagamento em forma de víveres que ele revendia. Nada dava prejuízo. E por ser assim, através desta forma de comercializar, apareceu a oportunidade de ter para si a moça que o interessava.
          A familia dela passava por um aperto como consequência da colheita fraca do fazendeiro patrão. Para não passar fome tiveram que comprar fiado no Armazém, e como a situação não melhorasse e não tivessem como saldar a dívida, foram conversar com Bento para encontrarem uma solução. Gente direita, não queria causar prejuízo e nem ficar devendo.
          O pai de Marinalva ofereceu-se para trabalhar no Armazém sem receber pagamento. A mãe da moça também faria comida e lavaria as roupas do rapaz sem pagamento até que a dívida fosse saldada. Ele viu aí a possibilidade de acabar com suas idas ao quintal quase todas as noites. Pediu a mão da moça em troca do perdão da dívida.
          Os pais, tentados, mas amando muito a filha, não concordaram, mas Marinalva quando soube, encheu-se de desejos pelo português e pediu aos pais que aceitassem. Ela queria muito se casar com ele.
          Os pais ainda tentaram convencê-la, mas a natureza age em todos os seres vivos. Com ela não era diferente. Já estava na hora de tocar um homem. De conhecer o segredo  daquele calor que a envolvia  quando sentia o cheiro de qualquer rapaz. Queria entender porque queria chorar toda vez que seus pais entravam pro quarto e ela ouvia seus gemidos.
          Tudo acertado, o casamento aconteceu. O padre da igrejinha local celebrou o casamento e uma festinha foi preparada na casa da moça, para os amigos.
          Marinalva tinha trocado poucas palavras com Bento mas observava cada detalhe do marido enquanto ele conversava com os convidados. Observava seu jeito de morder o lábio inferior quando olhava para ela, olhava o dente encavalado que aparecia quando ele sorria, admirava as pernas escondidas sob as calças, mas que eram rijas e grossas. As mãos de seu marido também eram grandes e limpas e o peito que aparecia sob a camisa tinha pelos negros saltando para fora contrastando com o branco da camisa.
          A festa acontecia no quintal do casebre e a noite era iluminada por uma lua cheia e por um céu totalmente limpo e estrelado.
          Atraída por um vaga-lume a menina se afastou o suficiente para que Bento percebesse. Deu um jeito de distrair o pessoal que estava ao seu lado e saiu para encontrá-la. Ela se assustou quando ele pegou sua mão e a conduziu para o mato, mas acompanhou-o sem medo e curiosa. Era seu marido... O que iria acontecer agora ?
          Mal estavam distantes do vozerio da festa, Bento a atraiu para si, e ali mesmo, erguendo seu vestido branco, abrindo sua própria roupa a possuiu, da mesma forma que possuia as galinhas do quintal. Tempo suficiente para sua natureza se sentir saciada.
          Terminado, ante o espanto dela, ele mesmo lhe arrumou o vestido, ajeitou-se, e tomando sua mão como quando a trouxe retornou com ela para a festa.
          Lágrimas corriam pelo seu rosto quando sua mãe veio ter com ela e sentiu uma enorme vergonha.
          Era hora de acompanhar seu marido para a casa dele. Hora de começar uma nova vida.
          Mais uma vez, tomada pela mão, ela foi.
          E agora ???

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